Todo ano é assim. Janeiro chega e, com ele, a certeza das férias à beira-mar. São pelo menos vinte dias de sol, sal na pele e tempo suspenso. Neste ano, o destino foi o Ceará — terra generosa de ventos, falésias e praias que parecem não ter fim.
Mal havíamos chegado a Canoa Quebrada quando nos sentamos em uma mesa de frente para o mar. Enquanto o garçom ajeitava as cadeiras e o barulho das ondas competia com o riso dos turistas, olhei para meu filho e disse:
— Cadu, aproveita que a maré está baixa e o mar está manso. Entra ali, mas fica sempre na nossa frente.
Ele apontou para dois rapazes que batiam bola na areia.
— Ali, perto daquele pessoal jogando tênis?
— Não é tênis — corrigi, sorrindo. — É frescobol.
Naquele instante, quase sem perceber, fui tomado por uma lembrança antiga: um vídeo do professor Rubem Alves em que ele falava sobre o casamento. Dizia que algumas relações se parecem com o tênis: há sempre um adversário do outro lado, alguém que precisa ser vencido, alguém cuja bola deve ser tirada do jogo. Outras, porém, se assemelham ao frescobol: não há vitória nem derrota, apenas o esforço mútuo para manter a bola no ar, bonita, possível.
Enquanto Cadu corria em direção à água, pensei no quanto essa imagem ultrapassa os limites do casamento. Ela se infiltra nas amizades, no convívio familiar, no ambiente de trabalho. Quando transformamos o outro em rival, cada troca se torna um embate, cada conversa um cansaço. Aos poucos, o jogo exaure, o corpo adoece, a mente se defende como pode.
Mas quando entendemos que o outro não está ali para perder, e sim para sustentar o ritmo conosco, algo muda. A bola vem mais redonda. O jogo flui. E mesmo o erro deixa de ser falha para se tornar convite a continuar.
Levantei os olhos e vi meu filho já dentro d’água. As ondas vinham suaves, empurrando-o para a praia e trazendo-o de volta, num vaivém tranquilo. Mais adiante, os rapazes do frescobol seguiam firmes, atentos um ao outro, como se compartilhassem um segredo simples: o jogo só existe enquanto ambos cuidam dele.
O sol começava a descer lentamente, dourando a areia. E ali, entre o mar que vai e volta e a bola que insiste em permanecer no ar, tive a sensação de que talvez a vida fosse isso: não vencer o outro, mas aprender, dia após dia, a mantê-lo no jogo.

2 Comentários
Danyelly
Excelente sua maneira de escrever e seus textos!
Wallison Moura
Muito obrigado!