Confesso, ainda que com certo constrangimento retrospectivo, que também fui um produto do ambiente político que se formava no início da década de 2010. Por volta de 2013 — ano de inflexões múltiplas no país — permiti que o discurso conservador em ascensão encontrasse ressonância em mim. Não fui o único. A combinação entre redes sociais em franca expansão e uma esquerda já consolidada intelectualmente desde os anos 1990 criou um cenário peculiar: a disputa política deixou de ser prioritariamente um confronto de ideias para transformar-se num exercício performático.
É importante notar que divergências ideológicas profundas raramente oferecem sínteses imediatas. O debate democrático, em sua melhor forma, sempre foi um espaço de atrito e limite. Contudo, quando a discussão migrou das tribunas e dos círculos intelectuais para a lógica das plataformas digitais, algo mais radical ocorreu: o debate deixou de funcionar como instrumento de esclarecimento e convergiu para uma disputa pela aniquilação simbólica do outro. O objetivo deixou de ser compreender ou persuadir; passou a ser vencer — e vencer de forma espetacular.
Nesse ambiente, categorias retóricas foram substituídas por selos de aprovação instantânea. A “lacrada”, termo inicialmente associado ao campo progressista, servia como atestado de triunfo narrativo. Tratava-se menos de um argumento e mais de um gesto performativo capaz de silenciar, encurralar e ridicularizar um oponente despreparado. A direita, evidentemente, não permaneceu alheia a essa lógica. Respondeu com sua própria moeda simbólica: a “mitada”. E, nessa dinâmica, elevou-se a figura do “Mito”, onde o carisma performático substituiu por completo a robustez argumentativa.
O ponto central é que, nesse processo, tanto direita quanto esquerda abandonaram a predisposição ao debate sério. A polarização, reforçada pela arquitetura algorítmica das redes, estimulou um tipo de engajamento em que a violência simbólica é vista não apenas como recurso, mas como demonstração de poder. Debater deixou de ser um gesto racional; tornou-se um espetáculo.
Reconheço que, por algum tempo, também me deixei seduzir pela estética da vitória rápida. As “mitadas” alimentavam uma sensação de pertencimento e de justiça retributiva. Mas jamais consegui aderir plenamente ao gesto. Havia ali um componente de desumanização — sobretudo quando o alvo era alguém próximo — que me desagradava. Percebi, então, que o debate político, tal como se estruturava nas redes, produzia em mim mais desgaste do que esclarecimento. Fazia mal ao corpo, ao humor, ao pensamento.
Hoje compreendo que o que realmente sempre me atraiu não foi o confronto, mas a exposição clara das minhas próprias ideias. Não a vitória sobre o outro, mas a tentativa — sempre imperfeita — de iluminar algum ponto cego. A diferença entre ambas as práticas é sutil, mas decisiva. Uma nasce do desejo de compreender; a outra, da vontade de subjugar.
Talvez essa constatação seja banal. Talvez seja, ao contrário, o ponto de partida para retomarmos uma ideia de debate público que não esteja fundada na humilhação performática. Um debate que ainda não sabemos como recuperar, mas cuja ausência se torna cada vez mais evidente.
