Existe uma categoria de pessoa nas redes sociais que não é exatamente um hater. O hater, ao menos, tem uma motivação. Há nele uma energia, ainda que torta. O que me perturbou outro dia foi algo diferente. Um espécime que eu só consigo chamar de palpiteiro.
Venho lançando semanalmente um capítulo d’O Último Trem no blog. É uma estratégia de atração de leitores, aquela coisa antiga de serializar um romance para criar hábito, expectativa, fidelidade. Desde dezembro, caso o capítulo com um pequeno booktrailer no Instagram. Um minuto e meio de atmosfera, trilha, imagem. Estratégia casada, como dizem os marqueteiros.
Faz algumas semanas, apareceu no comentário de uma dessas postagens um indivíduo que eu não conheço e que não me segue. Sem apresentação, sem contexto, sem qualquer prólogo que justificasse a invasão, ele escreveu: “a cronologia do conto tá errada”.
Só isso.
Fui ao perfil. Fechado. Sem informações de qualificação. Nenhum indício de que se tratasse de historiador, professor, pesquisador. Alguém que pudesse, legitimamente, trazer uma controvérsia que minha pesquisa tivesse ignorado. Um perfil pessoal, opaco, de alguém que aparentemente existe nas redes apenas para marcar presença da maneira mais inconveniente possível.
Voltei ao comentário e perguntei, com toda a sinceridade do mundo: “errada como?”
Era uma pergunta genuína. Passei semanas debruçado sobre aquele período histórico. Documentos. Discursos. O pronunciamento de Getúlio Vargas a bordo do Minas Gerais. Qualquer lapso seria meu, e eu precisava saber qual.
A resposta chegou: “CSN antes da guerra?”
Parei.
Por um instante bizarro, esqueci tudo que sabia. As aulas de história do ensino médio. A pesquisa. Os documentos. Fui ao Google, como se precisasse me confirmar. A Companhia Siderúrgica Nacional foi fundada em 9 de abril de 1941. Construção iniciada naquele mesmo abril. Primeira etapa inaugurada em 1946, já no governo Dutra.
O booktrailer não falava da CSN antes da guerra. Falava durante. A construção correu paralela ao conflito. Esse era, aliás, um dos núcleos de tensão que eu explorava no romance.
Expliquei isso. Com calma. E ainda o convidei: “Se ler o romance, vai notar que a construção começou em meio à guerra.”
A resposta foi a prova cabal do que venho tentando articular sobre esse tipo de interlocutor: “Você é teimoso. Deixa pra lá.”
Aquilo me tirou do prumo de um jeito que ainda me surpreende quando lembro.
O sujeito entrou no meu espaço sem se apresentar. Lançou uma acusação sem sustentação. Não soube dizer em que exatamente eu havia errado. Não conhecia o material que estava criticando. Quando confrontado com os fatos (não com agressividade, mas com fatos), não teve argumentos para contrapor. E ao sair, ainda tentou deixar a impressão de que era eu o intransigente.
É esse o movimento que me fascina e me irrita em igual medida: o palpiteiro nunca perde, aos seus próprios olhos. Quando vencido, simplesmente muda as regras do jogo. A derrota se transforma em desinteresse. O argumento que ele não tinha vira teimosia minha. Ele parte como se tivesse feito um favor ao mundo ao desistir de mim.
Sei que o caminho mais elegante seria ter apagado o comentário. Limpo, sem rastro, sem alimentar o ego de quem quer que fosse.
Mas deixei lá.
Talvez por vaidade. Talvez porque o encadeamento daqueles comentários conte, por si só, uma história mais honesta do que qualquer resposta que eu pudesse escrever. Ali está, preservado, o ciclo completo do palpiteiro: a acusação vaga, a incapacidade de sustentá-la, a retirada disfarçada de superioridade moral.
Deixei lá como memorial.
Não à estupidez. Essa palavra é larga demais e injusta com muita gente que merece mais crédito. Mas à preguiça intelectual combinada com a necessidade de parecer relevante. Esse é o traço que define o palpiteiro: ele não quer saber. Ele quer ter dito.
E às vezes, escrever sobre isso é a única forma de não deixar que aquilo fique apenas como uma irritação sem nome, ruminando em silêncio entre uma sessão de escrita e outra.
