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Escrever é se Desnudar Sem Tirar a Roupa

Escrever às vezes parece um gesto para fora. Um movimento de quem entrega algo ao mundo. Mas, para mim, nunca foi exatamente assim.

Quando escrevo, não sinto que estou lançando palavras adiante. Sinto que estou descendo. Mergulhando. E quanto mais fundo vou, menos protegido fico.

Criar personagens é uma forma de me esconder e, ao mesmo tempo, de me revelar. Porque ninguém vê diretamente o que penso. Mas eu sei. Eu sei quando aquele silêncio é meu. Quando aquela covardia é minha. Quando aquela coragem não pertence ao personagem, mas ao homem que o escreve.

Já chorei escrevendo. E não era o personagem quem sofria. Era eu. A dor que aparecia na cena tinha endereço conhecido.

Houve vezes em que voltei ao texto e apaguei trechos inteiros. Não porque estivessem ruins. Mas porque estavam verdadeiros demais. Expostos demais. Como se alguém pudesse ler e apontar: “isso aqui é você”.

Outras vezes deixei. Porque entendi que tirar seria mentir.

Também já experimentei um tipo estranho de satisfação ao fazer um personagem sofrer. Não qualquer sofrimento, mas aquele que, no fundo, carregava a sombra de alguém real. Alguém que me feriu. Alguém cuja atitude encontrei disfarçada na ficção. Não foi vingança declarada. Mas também não foi completamente inocente.

Amei personagens com a mesma intensidade. Porque eles guardavam gestos, olhares e delicadezas de pessoas que amei e amo. Talvez escrever seja isso: reorganizar afetos que a vida deixou espalhados.

Houve dias em que evitei escrever cenas entre personagens casados. Especialmente quando havia silêncio na minha própria casa. Minha esposa é minha leitora beta. Imagino o que seria ela ler, em diálogo ficcional, exatamente aquilo que eu quis dizer, mas não disse, para não ferir.

A ficção pode ser um lugar perigoso quando ela começa a dizer o que a vida exige que você cale.

Escrever, para mim, tem sido um exercício constante de exposição sem testemunha imediata. Uma coragem que não se parece com bravura. Parece mais com permanecer na página quando seria mais confortável fechar o arquivo.

Descobri que não escrevo apenas histórias. Escrevo versões de mim mesmo; algumas mais nobres, outras menos confessáveis.

E talvez o verdadeiro risco não seja que os leitores me entendam.

Talvez seja que eu me reconheça demais no que escrevo.

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