Assisti a Branca de Neve e os Sete Anões quando ainda era criança. Lembro-me da serenidade com que aceitei o final: “e viveram felizes para sempre”. Era uma promessa simples, luminosa, quase automática — como se o mundo obedecesse a uma gramática de bondade. Mas o tempo, que não perdoa as certezas, me ensinou que nenhum “felizes para sempre” resiste ao amadurecimento. Há um instante na vida em que os contos de fadas se rompem, e o espelho que antes refletia a pureza da infância devolve, de súbito, o rosto da mortalidade.
Com o passar dos anos — e com as teorias que povoam a internet — descobri uma leitura perturbadora do conto. O príncipe, dizem, não seria um salvador, mas a própria morte montada em seu cavalo branco: não a morte violenta do cavalo negro, mas a morte suave, quase misericordiosa, dos justos. O primeiro encontro entre a princesa e o príncipe ocorre junto a um poço — símbolo germânico da passagem entre os mundos. Depois, quando o príncipe retorna, ela desperta (ou morre em paz), despede-se dos anões e segue com ele para um castelo que flutua entre nuvens. Seria o paraíso? Seria o fim?
A teoria pode ser improvável, mas sua força simbólica é inegável. Porque ela revela algo essencial sobre a condição humana: o “felizes para sempre” só é possível no reino da morte — onde cessam as possibilidades, onde o coração finalmente adere àquilo que buscou em vida. A felicidade eterna é, portanto, uma promessa metafísica, não uma experiência terrena.
Toda felicidade humana é precária. A alegria de encontrar o amor verdadeiro traz, em seu âmago, a dor inevitável de confrontar o real. Amar alguém é matar o ideal que habita o sonho, para abraçar o ser imperfeito que o destino nos oferece. Assim, cada passo em direção ao amor concreto é um passo de afastamento do amor idealizado — e é justamente aí que reside a grandeza do sentimento. O mesmo ocorre com o nascimento de um filho: não há experiência mais radiante e, ao mesmo tempo, mais dolorosa. O instante em que o seguramos nos braços é também o instante em que descobrimos o medo — o medo de perder, o medo de falhar, o medo do futuro. A felicidade não existe sem ferida.
Contudo, quem de nós renunciaria a essas dores? Quem abriria mão do amor para escapar do sofrimento? É aqui que a vida se impõe em sua inteireza. A alegria e a dor são inseparáveis — como a luz e a sombra, como o dia e a noite. A maturidade talvez seja apenas isso: aprender a aceitar o trágico como parte constitutiva da beleza.
Essa percepção molda também o olhar de quem escreve. Meus personagens raramente têm finais felizes. Não porque eu seja pessimista, mas porque acredito que o fim trágico é o único fim verdadeiramente humano. A tragédia não é o fracasso da vida — é o seu coroamento, o instante em que tudo se revela com nitidez. Quando dou a um personagem um fim trágico, o que ofereço, na verdade, é o seu “feliz ou não para sempre”: o momento em que ele alcança sua verdade definitiva.
E quando o final é aberto, não é por indecisão — é por fé. Fé de que o personagem continue a viver, de que existam mundos possíveis além da última linha.
O mito de Branca de Neve nos devolve, assim, àquilo que o romantismo tentou apagar: a consciência da finitude. O “felizes para sempre” não é uma mentira, mas uma metáfora do além. Aqui, no território dos vivos, só nos resta a busca — e é nessa busca que reside a dignidade da existência.
O que importa, afinal, não é viver feliz para sempre.
É viver — e nisso já há um milagre suficiente.

3 Comentários
ROSALINA
Muito interessante esse conto, isto vai além do que imaginamos se a morte é um fim ou um recomeço de nossa existência finalmente feliz!!!
ROSALINA
Muito interessante esse conto, isto vai além do que imaginamos se a morte é um fim ou um recomeço de nossa existência finalmente feliz!!! Parabéns
Rosalina
Muito interessante esse conto, isto vai além do que imagino se a morte é um fim ou um recomeço de nossa existência finalmente feliz!!!