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Capítulo 23 – O Cinema e a Professora

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 6 de abril de 1942 – 07h30

Roberto Alcântara tinha vinte e cinco anos, era paulista de Taubaté, formado há dois anos pela Escola Politécnica de São Paulo, e possuía energia inesgotável. Falava rápido, ria alto, e não parava quieto. Dividia o quarto com Hans e outros três engenheiros no alojamento da CSN.

Desde que chegara a Volta Redonda em fevereiro, Roberto tentava convencer Hans a acompanhá-lo ao centro de Barra Mansa aos domingos. Hans sempre recusava. Educadamente. Com desculpas variadas: trabalho acumulado, cansaço, dor de cabeça. Mas Roberto não desistia.

Naquela manhã de segunda-feira, enquanto se preparavam para o café, Roberto insistiu novamente:

– Weissmann, pelo amor de Deus, você não pode passar todo domingo lendo esses livros alemães chatos de metalurgia. Você vai envelhecer antes dos quarenta.

Hans, que ajustava as botas de trabalho sentado no beliche inferior, não levantou os olhos.

– Tenho trinta e sete – disse ele, calmamente. – Já envelheci.

– Mentira – riu Roberto, penteando o cabelo negro com brilhantina barata na frente do espelho rachado pendurado na parede. – Trinta e sete não é velho. É a idade perfeita. Experiência de homem maduro. Corpo ainda funcionando. As mulheres adoram.

Hans finalmente levantou os olhos. Roberto o observava pelo reflexo do espelho. Sorriso largo. Olhos brilhantes de juventude inconsequente.

– Não estou interessado em mulheres – disse Hans.

– Todo mundo está interessado em mulheres – retrucou Roberto, virando-se. – Você só está esquecido de como é. Quanto tempo faz?

Hans hesitou. Greta. Sempre Greta. Dezesseis anos desde que ela escolhera Samuel. Dezesseis anos desde que Hans sentira algo por alguém. Mas não podia dizer isso.

– Alguns anos – respondeu, vagamente.

– Alguns anos! – Roberto quase gritou. – Não admira que você esteja sempre com cara de enterro! Precisa sair. Viver um pouco. Domingo tem sessão dupla no Cine Theatro Éden. “Demônios do Céu”, com Robert Stack e Diana Barrymore. Guerra no ar. Muito bom. Depois, sorvete na Polar. E quem sabe…

Ele piscou sugestivamente.

– …conhecemos umas “pequenas”.

Hans sabia o que “pequenas” significava no vocabulário brasileiro. Moças. Garotas. Mulheres jovens e disponíveis. Roberto usava o termo constantemente. Sua obsessão primária.

– Não sei se…

– Não é pedido – interrompeu Roberto, ecoando Heitor meses antes sobre o futebol. – É missão de salvamento. Você está morrendo socialmente. Eu, como colega cristão, não posso permitir. Domingo. Duas da tarde. Ônibus da companhia sai do canteiro e vai até o centro. Você vai comigo. Sem desculpas.

Hans processou rapidamente. Recusar novamente criaria mais suspeita. Henrique Weissmann precisava parecer normal. E homens normais iam ao cinema aos domingos. Especialmente em cidade pequena onde não havia outras opções.

– Está bem. – disse ele, finalmente. – Vou.

Roberto bateu palmas, eufórico.

– Maravilha! Você não vai se arrepender. As moças de Barra Mansa são lindas. E adoram engenheiros. Somos classe alta aqui. Dinheiro federal. Estabilidade. Futuro garantido. As famílias nos oferecem as filhas de bandeja.

Hans duvidava. Mas não discutiu.

Volta Redonda, ponto de ônibus do canteiro, 12 de abril de 1942 – 14h00

O domingo amanheceu ensolarado. Calor típico de abril no Vale do Paraíba. Hans vestiu sua melhor roupa – terno cinza claro (único que possuía além dos de trabalho), camisa branca impecavelmente passada pela lavadeira da companhia, gravata azul marinho discreta. Sapatos pretos engraxados. Cabelos penteados com cuidado. Parecia engenheiro respeitável. Cidadão exemplar. Exatamente o que precisava parecer.

Roberto, ao contrário, exagerava. Terno branco imaculado. Gravata vermelha chamativa. Sapatos bicolor. Cabelo brilhando com excesso de brilhantina. Cheiro forte de loção pós-barba barata. Parecia garoto vestido para primeira comunhão.

– Perfeito! – disse ele, avaliando Hans. – Você está apresentável. Sério demais, como sempre, mas apresentável. As moças gostam de homem sério. Passa confiança. E com sua cara de alemão…

– Catarinense – corrigiu Hans, automaticamente.

– Catarinense de origem alemã – emendou Roberto. – Mesma coisa. Você tem aquele ar europeu. Distinto. As brasileiras adoram. Vão cair aos seus pés.

Hans duvidava. Mas permaneceu calado.

O ônibus da CSN – Ford adaptado para transporte de passageiros, capacidade para trinta pessoas – chegou pontualmente às 14h00. Já estava quase lotado. Engenheiros jovens. Técnicos. Alguns operários mais bem vestidos. Todos buscando diversão dominical no centro de Barra Mansa.

Roberto empurrou Hans para dentro. Sentaram-se nos últimos bancos. O ônibus arrancou, levantando nuvem de poeira vermelha. A estrada de terra entre Volta Redonda e o centro de Barra Mansa era mal conservada. O trajeto de dez quilômetros levaria quarenta minutos. Solavancos. Buracos. Desconforto.

Durante todo o caminho, Roberto não parou de falar:

– Olha aquela ali! Vestido amarelo. Que corpo! – Apontava pela janela para moças que caminhavam pela estrada. – E aquela outra! Cabelo comprido. Deve ter dezesseis, dezessete anos. Perfeita!

Hans não olhava. Observava a paisagem. Fazendas. Pastos. Rio Paraíba ao longe. Montanhas no horizonte. Vale que logo seria transformado por aço e fumaça. Mas por enquanto, ainda preservava alguma serenidade rural.

– Você não está animado? – perguntou Roberto, finalmente percebendo o silêncio de Hans.

– Estou – mentiu Hans. – Apenas… não demonstro muito.

– Alemães – suspirou Roberto, balançando a cabeça. – Sempre sérios. Sempre controlados. Precisa relaxar, Weissmann. A vida é curta. Especialmente agora, com guerra. Pode ser que daqui a seis meses estejamos mortos. Afundados por U-boat alemão quando formos ao Rio buscar material.

Hans virou-se lentamente.

– Prefiro não pensar nisso.

– Eu também – concordou Roberto, mais sério por um momento. – Mas é verdade. O Brasil vai entrar na guerra. É questão de tempo. Então, enquanto estamos vivos… vamos aproveitar. Cinema. Sorvete. Moças bonitas. O que mais um homem precisa?

Propósito, pensou Hans. Redenção. Esquecimento. Mas você não entenderia.

– Nada mais – disse ele, voltando a olhar pela janela.

Barra Mansa, Avenida Joaquim Leite, 12 de abril de 1942 – 14h50

O ônibus parou em frente à Praça da Liberdade, no coração de Barra Mansa. A cidade era pequena – talvez vinte mil habitantes – mas movimentada. Ruas de paralelepípedo. Casarões coloniais. Comércio diversificado. Igreja matriz imponente. E, claro, o Cine Theatro Éden.

Hans desceu do ônibus e imediatamente sentiu diferença. Volta Redonda era canteiro de obras. Lama. Barulho. Caos. Barra Mansa era cidade estabelecida. Ordeira. Elegante, dentro das possibilidades interioranas.

Roberto apontou para o Éden:

– Ali. O templo da sétima arte no interior fluminense.

O edifício era realmente impressionante. Três pavimentos. Arquitetura elegante. Linhas clássicas. Cinco portões de ferro gradeados na frente, dando para a Avenida Joaquim Leite. Laterais com grandes portões de madeira de correr, saída para a Rua Duque de Caxias. Cartazes coloridos anunciavam o filme: “DEMÔNIOS DO CÉU – Robert Stack e Diana Barrymore – Aviação em Guerra!”

– Sessão das três – disse Roberto, verificando relógio de pulso barato. – Temos dez minutos. Vamos comprar ingressos.

A bilheteria ficava na entrada principal. Fila pequena. Domingo à tarde, cinema era programa familiar. Hans viu casais jovens. Famílias com crianças. Grupos de adolescentes. Todos bem vestidos. Era evento social, não apenas entretenimento.

Roberto comprou dois ingressos para a plateia. Mil cruzeiros, cada. Caro para operário. Barato para engenheiro. Entraram pelo portão central.

O interior era ainda mais impressionante que a fachada. Saguão amplo. Escadas de madeira nobre levando aos pavimentos superiores. Espelhos. Lustres. Elegância que Hans não esperava encontrar em cidade do interior.

– Bonito, não? – disse Roberto, orgulhoso como se fosse dono do lugar. – O senhor Esperidião Geraidine construiu isso em 1924. Dizem que foi a mais bonita construção já havida em Barra Mansa. Trouxe companhias teatrais famosas. Procópio Ferreira. Jaime Costa. Até Francisco Alves e Silvio Caldas cantaram aqui.

Hans acenou, impressionado apesar de si mesmo. O cinema lembrava teatros que frequentara em Munique. Menores, claro. Menos luxuosos. Mas a intenção era a mesma: criar espaço de cultura e beleza em meio ao cotidiano.

– Vamos entrar – disse Roberto. – Não quero perder o começo.

Mas quando entraram na plateia, o filme já começara. Cinco minutos de atraso. A tela enorme – Hans estimou seis metros de largura – mostrava aviões de guerra. Música dramática. Explosões.

O lanterninha – homem idoso de uniforme impecável – conduziu-os pelo corredor lateral. A plateia estava quase lotada. Quinhentos e quatro lugares, segundo Roberto informara. Apenas algumas cadeiras vazias no meio.

– Ali – sussurrou o lanterninha, apontando lanterna para duas cadeiras lado a lado. – Fileira doze. Cadeiras vinte e dois e vinte e três.

Roberto entrou primeiro. Hans seguiu. Sentaram-se. Cadeiras de madeira, estofadas em veludo vermelho já gasto pelo tempo. Confortáveis. Hans acomodou-se. À sua direita, Roberto. À esquerda…

Hans não olhou imediatamente. Estava escuro. Apenas a luz da tela iluminava fracamente. Mas sentiu presença. E sentiu perfume.

Suave. Floral. Discreto. Mas inconfundível. Feminino.

Alguém está sentado ao meu lado, pensou Hans. Mulher, pelo perfume. Jovem ou velha? Não sei. Não importa. Foco no filme. Mantenha disfarce. Engenheiro normal assistindo filme normal em domingo normal.

Na tela, Robert Stack pilotava bombardeiro. Missão perigosa. Alemães atacando. Ironia não escapou a Hans. Filme americano mostrando alemães como vilões. E ele, espião alemão, assistindo entre brasileiros que torciam pelos americanos.

A vida é teatro dentro de teatro, pensou. E eu sou ator que esqueceu qual papel representa.

O filme continuou. Hans tentou prestar atenção. Mas o perfume à sua esquerda distraía-o. Suave. Constante. Lembrando-o de algo. De alguém. De Greta. Não. Não era o perfume de Greta. Ela usava algo mais forte. Francês. Caro. Comprado por Samuel com dinheiro que Hans nunca teria. Este perfume era diferente. Mais delicado. Mais… brasileiro.

Hans forçou-se a focar na tela. Aviões. Batalhas. Drama. Mas sua mente vagava. E então, aos vinte minutos de filme, catástrofe.

Cine Theatro Éden, 12 de abril de 1942 – 15h25

A imagem na tela começou a tremer. Depois a derreter. Literalmente. A película derreteu no calor do projetor. Buracos negros apareceram na imagem. Robert Stack desapareceu, substituído por branco incandescente.

E então, escuridão total.

Murmúrios na plateia. Crianças chorando. Alguém gritou:

– Queimou a fita!

As luzes acenderam-se abruptamente. Hans piscou, ajustando visão. Olhou ao redor. Plateia agitada. Roberto ao seu lado resmungava:

– Merda. Sempre acontece isso. Projetores velhos. Fitas velhas. Vão levar meia hora para consertar.

Hans ia responder quando algo o fez virar-se para a esquerda.

E então viu.

Ela estava sentada a dois lugares dele. Entre eles, uma cadeira vazia (ocupante provavelmente fora ao banheiro). Mas próxima o suficiente para Hans ver perfeitamente.

Tinha talvez vinte e dois, vinte e três anos. Não mais que isso. Linda de forma que fez coração de Hans disparar pela primeira vez em dezesseis anos.

Cabelos castanhos claros, ondulados, presos parcialmente com pente de tartaruga. Alguns fios soltos emolduravam rosto de traços finos, delicados. Pele levemente bronzeada – não branca europeia como Greta, mas dourada brasileira, saudável, vibrante.

Mas eram os olhos que capturaram Hans. Cor de mel. Âmbar líquido. Inteligentes. Vivos. Curiosos.

Ela usava vestido branco, elegante, mas simples. Sem exageros. Manga curta. Gola modesta. Mas o tecido revelava silhueta que combinava perfeitamente com beleza do rosto. Harmonia. Proporção. Beleza natural sem artifícios.

E então ela percebeu que Hans olhava. Virou-se. Seus olhos encontraram os dele. E sorriu.

Não foi sorriso sedutor. Não foi provocativo. Foi simplesmente… amigável. Genuíno. O sorriso de pessoa educada reconhecendo presença de outra pessoa. Hans, instintivamente, sem pensar, sorriu de volta. Erro, gritou sua mente treinada pela Abwehr. Não faça contato. Não chame atenção. Mantenha distância.

Mas era tarde. Ela já falava:

– Boa tarde – disse ela, voz suave, mas clara. Sotaque levemente mineiro, mas bem-educado. Dicção perfeita. – Desculpe a inconveniência. A cadeira ao seu lado é minha. Levantei para ir ao banheiro antes do filme começar. Posso voltar?

Hans piscou. Processou. Ela estava pedindo permissão para sentar na própria cadeira. Educação excessiva típica de famílias tradicionais brasileiras.

– Claro – disse ele.

Ela se aproximou. O perfume intensificou-se por dois segundos. Floral. Delicado. Devastador. Sentou-se à esquerda de Hans. Ajeitou o vestido. Colocou bolsa pequena no colo. Virou-se novamente para ele.

– Obrigada – disse ela. – Meu nome é Isabel. Isabel de Azevedo.

Estendeu mão delicada. Unhas cuidadas mas sem esmalte. Mão de quem trabalhava, mas não com labuta pesada.

Hans apertou-a. Suave. Quente. Real.

– Henrique – disse ele. – Henrique Weissmann.

– Weissmann – repetiu ela, sorrindo. – Descendente de alemães?

Momento de perigo. Sempre momento de perigo. Mas ela perguntara inocentemente. Curiosidade, não acusação.

– Catarinense – disse ele, usando resposta ensaiada. – Minha família é de Florianópolis. Mas sim, descendentes de alemães. Há muito tempo.

– Que interessante – disse ela, genuinamente interessada. – Nunca conheci ninguém de Santa Catarina. Deve ser muito diferente daqui.

– É – concordou Hans. Mentira. Nunca estivera em Florianópolis antes de se esconder lá em 1941. – Mais frio. Mais europeu.

– Deve ter saudade.

Hans hesitou. Henrique Weissmann teria saudade de Florianópolis? Provavelmente. Mas Hans Krueger tinha saudade de quê? Munique? Greta? Uma vida que nunca existiu?

– Às vezes – disse ele, vagamente. – Mas me adaptei bem aqui. Trabalho na CSN.

– A siderúrgica! – Os olhos de Isabel brilharam. – Meu pai fala muito sobre isso. Diz que vai transformar a região inteira. Você é engenheiro?

– Sou.

– Que maravilhoso – disse ela, sinceramente. – Deve ser um trabalho fascinante.

Antes que Hans pudesse responder, Roberto inclinou-se, interrompendo:

– Weissmann, não vai me apresentar?

Hans virou-se. Roberto olhava Isabel com interesse óbvio demais. Olhos percorrendo-a sem discrição.

– Este é Roberto Alcântara – disse Hans, relutante. – Colega de trabalho.

– Engenheiro também – acrescentou Roberto imediatamente, estendendo mão para Isabel. – Paulista. Taubaté. Formado pela Poli. Prazer imenso.

Isabel apertou sua mão educadamente, mas Hans percebeu: ela retirou-a rapidamente. Sinal de desinteresse. Roberto não percebeu. Ou ignorou.

– E você é de Barra Mansa? – perguntou Roberto.

– Sou – respondeu Isabel. – Nasci e cresci aqui. Sou professora no Grupo Escolar Fagundes Varela.

– Professora! – Roberto riu alto demais. – Beleza e inteligência. Combinação perfeita.

Isabel sorriu educadamente, mas friamente. Hans reconheceu: sorriso social. Sem calor. Depois, virou-se novamente para Hans, deliberadamente excluindo Roberto:

– E você, senhor Weissmann, há quanto tempo está em Volta Redonda?

– Henrique – corrigiu ele. – Pode me chamar de Henrique. E estou aqui desde abril do ano passado. Quase um ano.

– E gosta?

Hans hesitou. Pergunta simples. Resposta complexa. Henrique Weissmann gostaria? Provavelmente. Bom emprego. Salário federal. Futuro garantido. Mas Hans Krueger? Hans estava preso. Infiltrado. Esperando guerra destruir tudo.

– É trabalho importante – disse ele, finalmente. – Me sinto… útil.

Isabel estudou-o com aqueles olhos cor de mel. Hans sentiu-se exposto. Como se ela pudesse ver através dele. Através de Henrique Weissmann. Até Hans Krueger escondido embaixo.

Impossível, pensou. Ela é apenas moça educada fazendo conversa. Não pode saber nada.

Mas o olhar dela era perturbador. Inteligente. Perceptivo.

– Útil é bom – disse ela, finalmente. – Muitos trabalham sem propósito. Mas construir uma usina que vai durar décadas… isso é legado.

Palavra certa. Legado. Hans pensou em Getúlio. Em Sávio Gama. Em todos que construíam a CSN buscando legado. E ele, Hans, documentando tudo para possível destruição. Legado às avessas.

Antes que pudesse responder, as luzes apagaram-se novamente. O projetor voltara a funcionar. O filme recomeçava. Mas não onde parara. Provavelmente perderam alguns minutos de película derretida. A imagem pulou da cena da batalha aérea para cena romântica. Robert Stack beijando Diana Barrymore.

Roberto sussurrou no ouvido de Hans, voz embriagada de álcool imaginário:

– Ela está caidinha por você. Vê se ela tem uma amiga. Assim nós dois nos damos bem.

Hans não respondeu. Mas sentiu Isabel mover-se ligeiramente ao seu lado. Ela ouvira? Provavelmente. Roberto não tinha controle de volume.

Hans forçou-se a focar no filme. Mas era impossível. Isabel estava a centímetros dele. Perfume. Calor. Presença. Pela primeira vez desde Greta, Hans sentiu algo. Não amor. Não ainda. Mas… interesse. Curiosidade. Atração.

Perigoso, advertiu sua mente. Extremamente perigoso. Espiões não têm relacionamentos. Laços são vulnerabilidades. E você já foi destruído por mulher uma vez. Não pode acontecer novamente.

Mas seu coração, estúpido e irracional, ignorou a advertência. E continuou batendo mais rápido.

Cine Theatro Éden, 12 de abril de 1942 – 17h15

Quando o filme terminou – aviões americanos vencendo alemães, final previsível e propagandístico – as luzes se acenderam novamente. A plateia se levantou, conversando animadamente. Hans preparou-se para partir rapidamente. Evitar mais contato. Mas Isabel virou-se para ele antes que pudesse sair:

– Foi um bom filme – disse ela. – Embora tecnicamente absurdo. Aviões não funcionam daquele jeito.

Hans piscou.

– Como sabe disso?

– Leio muito – sorriu ela. – Jornais. Revistas. Livros técnicos às vezes. Meu pai tem uma biblioteca grande. Incluindo manuais de aviação da Primeira Guerra. Os aviões mudaram, mas os princípios físicos não.

Hans ficou genuinamente surpreso. Uma professora primária em cidade do interior que lia manuais de aviação. Incomum. Muito incomum.

– É raro – disse ele, cautelosamente – encontrar mulher interessada em tecnologia.

Isabel riu. Som melodioso. Sem afetação.

– Talvez eu seja rara então. Ou talvez os homens subestimem mulheres. De qualquer forma, gosto de aprender. Sobre tudo.

Roberto, que esperava impacientemente, interrompeu:

– Weissmann, vamos. Sorvete. Lembra?

Mas quando se viraram para sair, outra moça se aproximou de Isabel. Tinha talvez vinte anos. Bonita também, mas menos marcante que Isabel. Cabelos pretos. Pele mais clara. Vestido rosa.

– Isabel – disse ela, olhando nervosamente para Roberto. – Quem são seus… amigos?

– Ah, Carmem – Isabel fez apresentações. – Este é Henrique Weissmann e Roberto Alcântara. Engenheiros da CSN. Senhores, minha amiga Carmem Rodrigues.

Roberto imediatamente transformou-se. Sorriso encantador. Postura ereta. Toda atenção focada em Carmem:

– Prazer imenso, senhorita Carmem. Que nome lindo. Como a ópera de Bizet.

Carmem corou. Claramente não esperava referência cultural de um engenheiro jovem e bonito. Roberto tinha seus momentos.

Hans viu o que acontecia. Roberto interessado em Carmem. Carmem interessada (ou pelo menos intrigada) por Roberto. E Isabel… Isabel olhava para Hans com expressão difícil de decifrar.

– Estávamos indo para Sorveteria Polar – disse Roberto, aproveitando o momento. – Querem nos acompanhar? As senhoritas, claro.

Carmem olhou para Isabel. Pergunta silenciosa. Isabel hesitou. Olhou para Hans. Depois assentiu levemente para Carmem.

– Seria agradável – disse Isabel. – Se os senhores não se importam com nossa companhia.

– Não nos importamos – disse Roberto rapidamente. – Seria uma honra.

Hans queria recusar. Queria fugir. Mas não podia. Seria suspeito. Rude. E Henrique Weissmann não era rude. Era educado. Gentil. Normal.

– Claro – disse ele, forçando sorriso. – Será… agradável.

E assim, sem planejar, sem querer, Hans encontrou-se caminhando pelas ruas de Barra Mansa ao lado de Isabel de Azevedo. Roberto e Carmem seguiam logo atrás, conversando animadamente.

Hans tentava manter distância segura. Mas Isabel caminhava próxima. Não impropriamente. Mas próxima o suficiente para Hans sentir sua presença. Calor. Perfume.

– Você é muito calado – observou ela, após alguns minutos de silêncio. – Timidez ou natureza?

– Natureza – respondeu Hans. Era verdade, na maior parte. – Nunca fui muito falante.

– Gosto disso – disse Isabel, surpreendendo-o. – Homens que falam demais geralmente dizem pouco. Homens calados… às vezes têm mais a dizer.

Hans não respondeu. Não sabia como.

Sorveteria Polar, Avenida Joaquim Leite, 12 de abril de 1942 – 17h40

A Sorveteria Polar não era elegante como estabelecimentos que Hans frequentara em Munique (ou que fingia ter frequentado quando assumira identidade de Henrique Weissmann que estudara nos Estados Unidos). Mas estava lotada. Jovens. Famílias. Crianças. Todos curtindo o domingo à tarde, tomando sorvete, conversando, olhando vitrines das lojas ainda abertas.

Roberto comprou quatro sorvetes. Napolitano para ele. Creme para Carmem. Chocolate para Isabel. E quando perguntou a Hans:

– O que você quer?

Hans hesitou. Não tomava sorvete desde Munique. Desde antes de Greta.

– Baunilha – disse ele, finalmente.

Sentaram-se em um banco na Praça da Matriz. Isabel e Hans em um. Roberto e Carmem em outro, alguns metros de distância. Estratégia óbvia de Roberto: separar casais. Dar privacidade.

Não somos casal, Hans queria dizer. Acabamos de nos conhecer. Isto é um erro. Grande erro. Mas não disse. Tomou o sorvete em silêncio. Isabel ao seu lado, também tomando. Delicadamente. Pequenas colheradas. Educação perfeita.

– Ali – disse ela, apontando com colher para edifício à frente. – É onde trabalho. Grupo Escolar Fagundes Varela.

Hans olhou. Prédio de dois andares. Arquitetura simples, mas sólida. Janelas amplas. Pátio com árvores. As crianças provavelmente brincavam ali durante a semana.

– Há quanto tempo ensina? – perguntou ele.

– Três anos – respondeu Isabel. – Me formei pela Escola Normal em 1939. Comecei aqui no mesmo ano. Leciono no segundo ano primário. Crianças de sete, oito anos.

– Gosta?

– Amo – disse ela, e Hans percebeu que era verdade absoluta. Seus olhos brilhavam. – Ensinar é… dar futuro. Cada criança que aprende a ler é porta que se abre. Para o conhecimento. Para possibilidades. Para uma vida melhor.

Hans sentiu algo apertar em seu peito. Ela falava de dar futuro. Ele documentava informações para possivelmente destruir o futuro. Ironia brutal.

– Você lê muito? – perguntou ele, mudando assunto.

– Tudo que posso – sorriu Isabel. – Machado de Assis é meu favorito. Dom Casmurro li cinco vezes. Cada vez descubro algo novo. E Fernando Pessoa… ah, Fernando Pessoa.

Ela fechou olhos. Recitou de memória:

“Navegar é preciso; viver não é preciso.”

Voz suave. Interpretação perfeita. Hans não conhecia o poema. Não conhecia Fernando Pessoa. Literatura portuguesa não fizera parte de seu treinamento.

– Você não conhece? – perguntou Isabel, abrindo olhos e percebendo expressão vazia de Hans.

– Não – admitiu ele. – Minha formação foi… técnica. Engenharia. Matemática. Física. Literatura ficou de lado.

– Que pena – disse ela, genuinamente triste. – Literatura é o que nos torna humanos. Números explicam mundo. Mas poesia explica alma.

Hans não respondeu. Porque não tinha alma. Não mais. Greta destruíra aquilo. E Abwehr transformara o resto em máquina.

Mas Isabel continuou, entusiasmada:

– Machado de Assis escreveu sobre ciúme, sobre tempo, sobre memória. E Fernando Pessoa… ele tinha heterônimos. Várias personalidades. Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos. Cada um com voz própria. Como se fosse várias pessoas em uma.

Várias pessoas em uma.

Hans gelou. Era exatamente o que ele era. Hans Krueger. Oswaldo Richter. Henrique Weissmann. Várias pessoas. Nenhuma real.

– Deve ser… confuso – disse ele, voz mais baixa.

– Ou libertador – respondeu Isabel, olhando-o intensamente. – Às vezes precisamos ser várias pessoas para sobreviver. Não acha?

Hans encontrou os olhos dela.

E naquele momento, sentado no banco da praça sob as últimas luzes do entardecer, Hans sentiu algo que não sentia há quinze anos: medo de ser descoberto. Não pelo DOPS. Não pela polícia. Mas por aquela mulher de olhos cor de mel que falava de Fernando Pessoa e múltiplas identidades como se pudesse ver através de todas as máscaras que ele usava.

– Às vezes – disse ele, cuidadosamente. – Mas não é ideal. Ser muitas pessoas significa não ser ninguém realmente.

Isabel inclinou a cabeça, estudando-o.

– Ou significa ser todos ao mesmo tempo. E escolher qual mostrar dependendo de quem está olhando.

Ela sabe, pensou Hans, pânico começando a se formar. Impossível, mas ela sabe. Ou suspeita. Ou…

– Isabel! – A voz de Carmem quebrou o momento. Ela e Roberto aproximavam-se, rindo de algo que Roberto dissera. – Já está escurecendo. Precisamos voltar. Minha mãe vai ficar preocupada.

Isabel suspirou, claramente contrariada pela interrupção. Mas levantou-se.

– Tem razão. Também preciso voltar.

Hans levantou-se também, aliviado pela fuga. Mas ao mesmo tempo, estranhamente decepcionado.

Rua Eduardo Junqueira, 12 de abril de 1942 – 18h30

Caminharam pelas ruas de Barra Mansa já mergulhadas em penumbra. A iluminação pública começavam a ser acesa. A cidade preparava-se para a noite. Roberto e Carmem seguiam à frente, ele falando sem parar, ela rindo.

Hans e Isabel vinham atrás. Em silêncio. Mas não era silêncio desconfortável. Era silêncio de duas pessoas que não precisavam preencher vazio com palavras.

– Ali – disse Isabel, apontando para sobrado de dois andares, pintado de branco, com janelas de madeira verde. – É onde moro. Com meus pais e meu irmão mais novo.

Era casa respeitável. Classe média. Família tradicional. Exatamente o tipo de família que não aprovaria filha andando pelas ruas com engenheiro desconhecido sem chaperona adequada.

Carmem morava três casas adiante. Roberto despediu-se dela com exagerada cerimônia: pegou sua mão delicadamente, curvou-se, e beijou-a no dorso. Gesto antiquado, romântico, teatral. Carmem corou profundamente. Sorriu. E entrou correndo em casa.

Roberto voltou sorrindo como conquistador.

Hans olhou para Isabel. Ela esperava despedida. Deveria fazer o mesmo? Beijar sua mão? Era costume brasileiro? Ou seria invasivo?

Decidiu não arriscar. Estendeu mão para aperto formal.

– Foi… agradável – disse ele, desajeitado. – Conhecê-la.

Isabel olhou para mão estendida. Depois para rosto dele. Sorriu levemente. Não aceitou mão. Em vez disso, deu passo mais próximo. Ficou na ponta dos pés – era mais baixa que ele, talvez um metro e sessenta contra um metro e oitenta e dois dele. E beijou-o no rosto. Levemente. Apenas toque de lábios em pele. Gesto brasileiro. Amigável. Mas íntimo.

Hans ficou paralisado. Perfume dela envolveu-o. Calor. Suavidade.

Quando Isabel afastou-se, os olhos cor de mel encontraram olhos azuis-acinzentados dele.

– Eu te vejo no próximo domingo? – perguntou ela. Não era ordem. Não era súplica. Era convite. Simples. Direto.

Hans deveria dizer não. Deveria mentir. Inventar compromisso. Trabalho urgente. Qualquer coisa. Porque ver Isabel novamente era perigoso. Era comprometer missão. Era criar laço que espião não podia ter.

Mas ao invés disso, Hans ouviu-se dizer:

– Sim.

Apenas isso. Sim.

Isabel sorriu. Não foi sorriso triunfante. Foi sorriso genuíno. Feliz. E então entrou em casa. Porta fechou-se atrás dela. Hans ficou parado na rua, olhando para porta fechada como idiota.

Roberto bateu em seu ombro:

– Meu Deus, Weissmann. Você é pior do que pedra. A moça praticamente se jogou em você e você nem beijou a mão dela? O que você tem na cabeça?

Segredos, pensou Hans. Mentiras. Três identidades. Uma missão suicida. E o fantasma de uma mulher que me destruiu há dezesseis anos.

Mas disse:

– Respeito. Ela é moça de família. Não posso ser ousado.

Roberto revirou olhos.

– Alemão. Sempre certinho. Sempre controlado. Mas conseguiu. Ela quer te ver de novo. Próximo domingo. Você vai?

Hans não respondeu imediatamente. Caminharam até ponto onde ônibus da CSN os pegaria para retorno a Volta Redonda. Esperaram em silêncio. Céu escurecia rapidamente. Primeiras estrelas apareciam.

– Vou – disse Hans, finalmente.

– Ótimo! – Roberto bateu palmas. – E eu vou ver Carmem. Nós quatro. Será divertido. Você pode ser sério e chato como sempre. Carmem e eu faremos a parte divertida.

Hans sorriu levemente. Primeira vez que sorria genuinamente para Roberto. O paulista tinha defeitos – falava demais, bebia demais, era mulherengo incorrigível. Mas era honesto. Direto. Sem máscaras. Tudo que Hans não era.

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 12 de abril de 1942 – 21h30

Quando chegaram ao alojamento, já passava das nove e meia. Outros engenheiros dormiam. Turnos começavam cedo. Roberto deitou-se imediatamente, murmurando sobre Carmem. Em cinco minutos, roncava.

Hans deitou-se no beliche superior. Olhou para teto rachado. Luz da lua entrava pela janela sem cortina. Silêncio. Apenas roncos de Roberto e respirações profundas dos outros.

E Hans pensou em Isabel. Não queria pensar. Era perigoso pensar. Mas não conseguia evitar.

Cabelos castanhos claros. Olhos cor de mel. Vestido branco. Perfume suave. Voz educada recitando Fernando Pessoa. Inteligência afiada discutindo aviação. Beijo de despedida no rosto.

“Eu te vejo no próximo domingo?”

Sim. Hans dissera sim. Estupidamente. Impulsivamente. Contrário a todo treinamento. Contrário a toda lógica. Porque Isabel de Azevedo era perigo. Não perigo de polícia. Não perigo de descoberta. Perigo diferente. Pior. Perigo de sentir novamente.

Hans não sentia há dezesseis anos. Desde Greta. Transformara-se em máquina. Função sem emoção. Missão sem questionamento. Era como sobrevivia.

Mas Isabel, em três horas, rachara aquela armadura. Não destruíra. Não ainda. Mas rachara. E Hans sabia: rachaduras crescem. E eventualmente, armaduras desmoronam.

Não posso vê-la novamente, decidiu. Vou inventar desculpas. Trabalho urgente. Doença. Qualquer coisa. Henrique Weissmann pode ser covarde. Melhor covarde que comprometido.

Mas mesmo enquanto pensava isso, Hans sabia: veria Isabel novamente. Porque pela primeira vez em dezesseis anos, queria. E desejo, para homem que passara década e meia sem desejar nada, era força impossível de resistir.

Virou-se para parede. Fechou os olhos. E pela primeira vez desde Munique, Hans Albrecht Krueger dormiu pensando em uma mulher que não era Greta.

Rio de Janeiro, Passeio Público, 1º de maio de 1942 – 07h00

Hans chegou ao Rio no primeiro trem de sábado. Como sempre. Como todo primeiro sábado de cada mês. Rotina estabelecida. Perigosa, mas necessária.

O Passeio Público – primeiro parque público do Brasil, criado em 1783 – ficava perto do centro. Jardins bem cuidados. Estátuas. Lagos. E atrás do busto de Castro Alves, ânfora decorativa vazia. Dead drop do mês.

Hans chegou cedo. Parque quase vazio. Apenas jardineiros e alguns transeuntes matinais. Caminhou casualmente até busto. Fingiu admirar. Depois, quando ninguém olhava, enfiou mão dentro da ânfora.

Envelope impermeável. Pegou. Guardou. Não abriu.

Depositou seu próprio envelope. Relatório cifrado. Mais avanços na construção da CSN. Especificações de estruturas. Cronogramas atualizados. Informação que talvez ninguém coletaria. Talvez Adler estivesse morto. Talvez operação inteira tivesse sido desmantelada. Mas Hans continuava. Porque era tudo que sabia fazer.

Saiu do parque. Tomou bonde até Botafogo. Entrou em café. Trancou-se no banheiro. Abriu envelope. Mensagem curta. Código novo:

 

SITUAÇÃO CRÍTICA. BRASIL PRÓXIMO DE DECLARAR GUERRA. AFUNDAMENTOS DE NAVIOS AUMENTAM PRESSÃO. CONTINUE DOCUMENTANDO. PRÓXIMO DROP: QUINTA DA BOA VISTA. ATRÁS DA ESTÁTUA EQUESTRE DE D. PEDRO II. CAVIDADE NA BASE. LADO OESTE.

MANTENHA DISCRIÇÃO ABSOLUTA. DOPS PRENDEU 47 AGENTES EM ABRIL. REDE QUASE DESTRUÍDA. VOCÊ É ÚLTIMO ATIVO IMPORTANTE.

RESISTIR É VENCER.

HEIL HITLER.

Sem assinatura. Mas Hans reconheceu código. Era de Adler. Ou de quem assumira lugar de Adler. Significava que operação continuava. Minimamente. Perigosamente. Mas continuava.

Hans queimou a mensagem. Jogou as cinzas no vaso. Puxou a descarga.

Quarenta e sete agentes presos. A rede quase destruída. E ele, Hans, era “último ativo importante”. Não sabia se isso era honra ou sentença de morte. Provavelmente ambos.

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 2 de maio de 1942 – 23h00

Hans voltou no último trem de domingo. Exausto. Tenso. A viagem mensal ao Rio sempre o deixava assim. Adrenalina da espionagem. Medo da captura. Paranoia constante.

Mas desta vez, havia algo mais. Durante toda viagem de retorno, pensara em Isabel. Amanhã era segunda. Semana de trabalho. Mas domingo seguinte…

 

Não vou, decidiu novamente. Vou mandar recado com Roberto. Inventarei desculpa. Trabalho urgente. É melhor assim. Para ela. Para mim. Para missão.

Mas quando entrou no alojamento, Roberto o esperava, ansioso:

– Weissmann! Onde você estava? Saiu cedo de manhã. Passou dia inteiro fora. Encontrou outra mulher? Traindo Isabel antes mesmo de começar?

Hans forçou sorriso.

– Não. Fui ao Rio. Buscar livros técnicos. Biblioteca Municipal.

Mentira. Mas plausível. Henrique Weissmann seria tipo de engenheiro que passaria sábado inteiro em biblioteca.

– No sábado? – Roberto revirou olhos. – Você é doente, Weissmann. Mas tudo bem. O importante: você vai ver Isabel domingo?

Hans hesitou. Era momento perfeito. Dizer não. Acabar antes de começar.

– Não sei – disse ele. – Muito trabalho. Macedo Soares quer relatórios sobre fundações dos altos-fornos. Pode levar todo domingo.

– Mentira – disse Roberto, categórico. – Vi Macedo Soares sexta-feira. Ele vai para Rio domingo. Reunião com Guinle. Você está livre. E vai comigo para Barra Mansa. E vai ver Isabel. Porque se não for, eu vou. E vou contar a ela que você é covarde.

Hans ficou genuinamente surpreso.

– Por quê? Por que você se importa?

Roberto sentou-se no beliche inferior. Ficou sério. Primeira vez que Hans o vira completamente sério.

– Porque – disse ele, voz baixa para não acordar outros – você é meu amigo. Sei que não falamos muito. Sei que você é fechado. Mas dividimos o quarto há meses. Trabalho ao seu lado. Vi você se transformar. Vi você sorrir pela primeira vez quando Isabel falou com você.

Ele fez uma pausa.

– Não sei o que aconteceu em seu passado. Não sei por que você é tão… morto por dentro. Mas Isabel acendeu algo. E você precisa disso. Precisa viver. Porque trabalhamos em uma obra perigosa. Em um país que está indo para guerra. Qualquer um de nós pode morrer amanhã. Num ataque alemão em solo brasileiro. Esmagado por viga de aço que cai. Qualquer coisa.

Roberto levantou-se. Colocou mão no ombro de Hans.

– Então viva enquanto pode. Veja Isabel. Conheça-a. Talvez nada aconteça. Talvez ela não seja certa. Mas talvez seja. E você merece descobrir.

Hans não respondeu. Não tinha palavras. Roberto acabara de dar-lhe discurso sobre viver. Sobre aproveitar tempo. Sobre não desperdiçar oportunidades. Tudo que Hans não podia fazer. Porque Hans não era Hans. Era Henrique. Era espião. Era homem sem futuro.

Mas Roberto não sabia. Ninguém sabia. E Henrique Weissmann… Henrique poderia ter futuro. Henrique poderia ver Isabel. Henrique poderia viver. Mesmo que Hans não pudesse.

– Está bem. – disse ele, finalmente. – Vou.

Roberto sorriu. Bateu nas costas dele.

– Ótimo! Agora dorme. Amanhã é segunda. Macedo Soares quer todos trabalhando dobrado. Pressão de guerra. Tudo acelerando.

Hans subiu no beliche superior. Deitou-se. Fechou olhos. E tentou não pensar em Isabel. Tentou não imaginar domingo próximo. Tentou não sentir aquela rachadura na armadura crescendo. Mas falhou. Como sabia que falharia.

Porque pela primeira vez em dezesseis anos, Hans Albrecht Krueger queria algo que não era vingança. Não era missão. Não era esquecer Greta. Queria apenas ver Isabel de Azevedo novamente.

E isso, para um espião infiltrado em país próximo de entrar em uma guerra contra sua pátria, era mais perigoso que qualquer operação. Mas Hans não se importava. Ou pelo menos, naquele momento, convencia-se de que não se importava.

Barra Mansa, Palácio Barão de Guapy, 15 de maio de 1942 – 10h00

O interventor de Barra Mansa, capitão Mário Pinto dos Reis, lia um telegrama de Filinto Müller com crescente preocupação. O chefe da polícia do Distrito Federal ordenava vigilância redobrada sobre descendentes de alemães, italianos e japoneses em todo país. Especialmente em Volta Redonda.

 

“CSN é alvo estratégico potencial. Sabotagem por agentes do Eixo não pode ser descartada. Vigiar todos funcionários de origem suspeita. Relatórios semanais.”

Mário Pinto suspirou. Havia centenas de descendentes de alemães trabalhando na CSN. Engenheiros principalmente. Muitos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde a colonização alemã fora intensa. Prender todos seria impossível. Destruiria obra. Mas vigiar todos também era impossível. Não tinha recursos.

Decidiu: vigiaria apenas os mais suspeitos. Aqueles que se mantinham isolados. Que não se misturavam. Que agiam… diferente. Pegou uma lista de funcionários da CSN. Começou a marcar nomes alemães. Weissmann. Schmidt. Müller. Becker. Dezenas deles.

Henrique Weissmann de Almeida. Catarinense. Engenheiro metalúrgico. Trabalha na CSN desde abril de 1941. Mário Pinto parou. Não sabia por quê. O nome não era mais suspeito que outros. Mas algo… algo o incomodava. Intuição. Anotou à margem: “Investigar discretamente. Relatório até fim do mês.”

E arquivou. Voltou para outras questões administrativas. Guerra. Racionamento. Defesa civil. Pequena anotação. Insignificante. Mas que em poucas semanas, mudaria tudo.

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