Skip to content Skip to footer

Capítulo 4 – Aço e Sombras

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 15 de março de 1933 – 22h30

A fumaça de charutos enchia a sala como nevoeiro de guerra. Getúlio Vargas estava sentado atrás de sua mesa de jacarandá, dedos entrelaçados, olhos pequenos e astutos observando os dois homens à sua frente. Não eram políticos. Eram militares. E militares queriam coisas diferentes: queriam aço.

O general Góis Monteiro – herói da Revolução de 1930 e massacrador de São Paulo em 1932 – estava de pé junto à janela, mãos cruzadas nas costas, olhando para os jardins escuros do Catete. Tinha quarenta e quatro anos, postura ereta que nunca relaxava. Era homem de poucas palavras e muitas certezas.

Ao seu lado, sentado em poltrona de couro, o capitão Edmundo de Macedo Soares e Silva fumava metodicamente, um cigarro atrás do outro. Engenheiro militar, especialista em metalurgia formado na França, olhos que viam o Brasil não como país, mas como problema técnico a ser resolvido. Trinta e dois anos, calvo, olhar astuto. Tomou parte do movimento militar contra o governo de Epitácio Pessoa. Esteve preso, fugiu, exilou-se na Europa e havia retornado ao Brasil após a Revolução de 1930, quando Vargas concedera a anistia aos tenentes de 1922.

– Precisamos de aço – disse Góis Monteiro, sem se virar. Sua voz era grave, definitiva. – O Brasil não pode ser potência sem indústria de base. E indústria de base começa com aço.

Getúlio acenou com a cabeça, mas não disse nada. Deixava os militares falarem. Sempre deixava os outros falarem primeiro.

– Durante a Revolução Constitucionalista – continuou Góis –, importamos armamento da Argentina, da Alemanha, dos Estados Unidos. Dependemos de estrangeiros para defender nosso próprio território. Isso é inaceitável.

– Não temos capacidade – disse Macedo Soares, apagando o cigarro e acendendo outro imediatamente. – Produzimos cento e vinte mil toneladas de ferro-gusa por ano. Nada. A Alemanha produz quinze milhões. Os Estados Unidos, trinta milhões. Somos irrelevantes.

– Por enquanto – murmurou Getúlio.

Os dois militares viraram-se para ele.

Getúlio levantou-se, caminhou até o mapa do Brasil pendurado na parede. Passou os dedos sobre o traçado do Rio de Janeiro, depois subiu até Minas Gerais, desceu para São Paulo.

– Temos minério de ferro em Minas – disse ele, calmamente. – Temos carvão em Santa Catarina. Temos portos. Temos ferrovias. Temos mão de obra. O que não temos é capital.

– Então arranjamos capital – disse Góis Monteiro.

– De quem? – perguntou Getúlio, virando-se. – Washington Luís tentou. Negociou com americanos, ingleses, alemães. Todos queriam algo em troca. Concessões. Influência. Controle. E Washington caiu antes de concluir qualquer coisa.

– Então fazemos diferente – disse Macedo Soares. – Não negociamos concessões. Negociamos parceria. O Brasil entra com minério e terra. Eles entram com dinheiro e tecnologia. Depois de alguns anos, compramos a parte deles. Simples.

Getúlio sorriu, aquele sorriso enigmático que ninguém conseguia decifrar.

– Nada é simples, capitão. Política é como aço: parece sólido, mas derrete sob pressão suficiente.

Silêncio.

– Senhor presidente, se esperarmos o momento perfeito, nunca construiremos nada. É melhor começar errado do que não começar.

Getúlio estudou o capitão. Gostou do que viu. Ambição controlada. Pragmatismo. Lealdade.

– Muito bem – disse ele. – Façam um estudo. Localizações possíveis. Custos estimados. Fornecedores estrangeiros. Quero tudo em seis meses.

Os militares levantaram-se, fizeram continência.

Quando saíram, Getúlio voltou para a janela. Lá fora, a noite carioca pulsava. Bondes tilintavam. Carros buzinavam. A cidade dormia sem saber que seu futuro – e o futuro do Brasil – estava sendo forjado naquele momento.

Mas Getúlio sabia. E sorria.

Rio de Janeiro, Quartel-General da 1ª Região Militar, 8 de junho de 1934 – 14h00

A sala de reuniões cheirava a mofo e café velho. Góis Monteiro espalhara mapas sobre a mesa: Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo. Círculos vermelhos marcavam depósitos de minério de ferro. Círculos azuis, carvão. Linhas pretas, ferrovias. Linhas verdes, rios.

Macedo Soares estudava os mapas com lupa de engenheiro.

– Três locais possíveis – disse ele, apontando. – Itabira, em Minas. Proximidade do minério, mas longe do porto. Santa Cruz, no Rio. Próximo ao porto, mas sem minério local. Ou… aqui.

Ele bateu o dedo no mapa. Vale do Paraíba. Entre Barra do Piraí e Barra Mansa.

– Vale do Paraíba. Ferrovia conectando Rio, São Paulo e Minas. Rio Paraíba do Sul para refrigeração. Proximidade razoável, há terrenos planos. E fica entre as duas maiores economias do país.

.

Góis Monteiro estudou o mapa.

– Quem controla a região?

– Coronéis locais. Fazendeiros. Nada que não possamos… persuadir.

Góis sorriu, mas era sorriso sem humor.

– E dinheiro? Quanto precisamos?

Macedo Soares puxou uma pasta, abriu, deslizou uma folha datilografada sobre a mesa.

– Estimativa preliminar: cem milhões de dólares. Talvez cento e cinquenta. Depende da capacidade produtiva que queremos.

Góis assobiou baixinho.

– Cem milhões. O orçamento federal inteiro é trezentos milhões.

– Por isso precisamos de estrangeiros – disse Macedo Soares. – Americanos, alemães, ingleses. Alguém tem que pagar.

– E alguém vai querer controlar – retrucou Góis.

Silêncio tenso.

Macedo Soares acendeu mais um cigarro.

– Então jogamos um contra o outro. Negociamos com todos. Fazemos cada um acreditar que tem chance. E no final, escolhemos quem nos der melhores condições.

– Isso é perigoso – disse Góis.

– Governar é perigoso – respondeu Macedo Soares. – Construir um país é perigoso. Ficar parado esperando não é seguro. É suicídio.

Góis Monteiro caminhou até a janela. Lá fora, soldados faziam exercícios no pátio. Ordem. Disciplina. Hierarquia. Tudo o que o Brasil não tinha.

– Vargas vai precisar ser convencido – disse ele. – Ele está preocupado com a Constituição nova, com eleições, com manter o poder. Siderurgia não é prioridade para ele.

– Então tornamos prioridade – disse Macedo Soares.

– Como?

O general sorriu.

– Mostrando que sem aço, ele perde o Exército. E sem o Exército, ele perde o poder.

Góis virou-se lentamente.

– Está me dizendo para ameaçá-lo?

– Estou dizendo para lembrá-lo de como chegou ao Catete – respondeu Macedo Soares, calmamente. – Com apoio militar. E como pode sair de lá. Da mesma forma.

Os dois homens se encararam. Entre eles, o não-dito pairava como fumaça: Getúlio Vargas governava por tolerância dos militares. E tolerância tinha prazo de validade.

Rio de Janeiro, Cinelândia, 1º de maio de 1935 – 18h30.

A Praça Floriano fervilhava. Dois grupos, dois comícios, duas visões de Brasil.

De um lado, os integralistas. Uniformes verdes, braços erguidos em saudação romana, bandeiras com o sigma grego. Gritavam: “Anauê!” Plínio Salgado discursava do palanque, voz estridente, prometendo ordem, tradição, nacionalismo.

Do outro lado, os comunistas. Bandeiras vermelhas, punhos erguidos, cânticos revolucionários. Luís Carlos Prestes – o cavaleiro da esperança que recusara a Revolução de 1930 – acabara de voltar do exílio. Prometia revolução operária, reforma agrária, fim das oligarquias.

Entre os dois grupos, a polícia. Cassetetes, cavalos, metralhadoras. Esperando.

No Palácio do Catete, Getúlio Vargas observava da janela com binóculos.

– Vão se matar – murmurou Filinto Müller, chefe da polícia do Distrito Federal. Estava ao lado de Getúlio, mãos cruzadas, expressão de quem já viu isso antes. – Integralistas querem ditadura de direita. Comunistas querem ditadura de esquerda. Ambos querem me derrubar.

– Não só você – disse Filinto. – Querem derrubar a República. Querem começar de novo. Querem sangue.

Getúlio baixou os binóculos.

– Então daremos sangue. Mas não o nosso.

Filinto sorriu.

– Ordens?

– Deixe os dois grupos se enfrentarem. Quando começarem a briga, a polícia intervém. Prende líderes de ambos os lados. Mostramos que somos imparciais. Que defendemos a ordem contra extremismos.

– E depois?

– Depois – disse Getúlio, voltando para sua mesa –, usamos o medo. Convencemos o Congresso de que o país está à beira do caos. Que precisamos de medidas excepcionais. De poderes excepcionais.

– Lei de Segurança Nacional? – perguntou Filinto.

– Exatamente.

Na praça, os dois grupos começaram a se aproximar. Gritos viraram insultos. Insultos viraram empurrões. Empurrões viraram socos. E então, inevitavelmente, disparos.

A polícia atacou. Bombas de gás lacrimogêneo explodiram. Cavalos investiram contra a multidão. Cassetetes caíram sobre cabeças. Vinte minutos depois, a Cinelândia estava vazia. Trinta feridos. Cinco mortos. Cem presos.

E no Catete, Getúlio Vargas assinava o decreto convocando sessão extraordinária do Congresso.

Natal, Rio Grande do Norte, 23 de novembro de 1935 – 03h00

O 21º Batalhão de Caçadores explodiu em rebelião. Soldados comunistas, liderados por sargentos, mataram o comandante enquanto dormia. Tomaram o quartel. Proclamaram governo revolucionário.

Recife, 24 de novembro. O 29º Batalhão de Caçadores seguiu Natal. Quartel tomado. Oficiais fuzilados. Bandeira vermelha hasteada.

Rio de Janeiro, 27 de novembro. O 3º Regimento de Infantaria da Praia Vermelha tentou o mesmo. Oficiais rebeldes atacaram durante a madrugada. Mas a repressão foi brutal. Legalistas cercaram o quartel. Oito horas de combate. Trinta mortos. Os rebeldes se renderam.

Getúlio Vargas estava no Catete quando recebeu as notícias. Não mostrou surpresa. Não mostrou medo. Apenas assentiu.

– Góis – disse ele, virando-se para o general que entrara na sala. – Esmague-os.

– Com prazer – respondeu Góis Monteiro.

Natal caiu em três dias. Recife, em dois. A repressão foi metódica, violenta, exemplar. Trezentas prisões. Cinquenta fuzilamentos sumários. Luís Carlos Prestes foi preso em março de 1936, junto com sua esposa, Olga Benário, que seria deportada para a Alemanha nazista e morreria em campo de concentração.

E Getúlio, usando o Levante Comunista como justificativa, fechou ainda mais o cerco. Congresso intimidado. Imprensa censurada. Opositores presos. O Brasil deslizava para a ditadura. E ninguém conseguia impedir.

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 20 de dezembro de 1936 – 21h00.

Getúlio Vargas, Góis Monteiro e Macedo Soares estavam novamente reunidos. Mas desta vez, havia mais alguém: Osvaldo Aranha, ministro da Fazenda, diplomata brilhante, amigo íntimo de Getúlio desde os tempos gaúchos.

– Conversei com os americanos – disse Aranha, abrindo uma pasta. – US Steel está interessada. Oferece tecnologia, equipamentos, engenheiros. Quer quarenta por cento da empresa.

– Inaceitável – disse Góis Monteiro imediatamente.

– Os alemães – continuou Aranha, ignorando a interrupção – oferecem melhores condições. Krupp está disposta a financiar tudo. Tecnologia de ponta. Mas querem exclusividade em exportações de minério.

– Também inaceitável – disse Macedo Soares.

– E os ingleses?

Aranha riu, um som amargo.

– Os ingleses querem que continuemos comprando aço deles. Não têm interesse em nos ajudar a competir.

Silêncio.

Getúlio, que estivera calado até então, finalmente falou:

– Então não escolhemos nenhum. Ainda não.

Os quatro homens o olharam.

– Continuamos negociando – explicou Getúlio. – Com todos. Fazemos americanos e alemães competirem. Usamos essa competição para melhorar as condições. E quando a guerra começar – porque vai começar –, escolhemos o lado vencedor.

– Guerra? – perguntou Aranha. – O senhor acha que haverá guerra na Europa?

Getúlio sorriu.

– Aranha, Hitler está rearmando a Alemanha. Mussolini invadiu a Etiópia. O Japão devora a China. Claro que haverá guerra. A questão não é se. É quando. E de que lado estaremos.

– E de que lado estaremos? – perguntou Góis Monteiro.

Getúlio levantou-se, caminhou até a janela. Lá fora, o Rio de Janeiro dormia. Mas o mundo não dormia. O mundo se preparava para o maior conflito da história. E o Brasil – pequeno, pobre, irrelevante – teria que escolher.

– Do lado que nos der a siderúrgica – disse Getúlio, finalmente. – Porque sem aço, não somos nada. E com aço… podemos ser tudo.

Os quatro homens ficaram em silêncio, processando as palavras.

Do lado de fora, a noite carioca pulsava. Mas dentro daquela sala, o futuro estava sendo forjado. Aço e poder. Poder e aço. Um não existia sem o outro.

E Getúlio Vargas, o gaúcho astuto que chegara ao poder em uma revolução, sabia disso melhor que ninguém.

Deixe um comentário