Capítulo 34 – A Última Carta

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 27 de outubro de 1942 – 05h00

Hans acordou antes do despertador. Como sempre. O corpo treinado pela Abwehr não precisava de despertador. O relógio biológico funcionava com precisão militar, mesmo após anos fingindo ser civil.

A escuridão ainda dominava o quarto. Roncos de Roberto e dos outros três engenheiros preenchiam o silêncio. Sons de homens que dormiam tranquilos. Consciências limpas. Futuros garantidos.

Hans não tinha nenhum dos dois.

Levantou-se silenciosamente. Vestiu-se no escuro. Calça de brim, camisa branca de trabalho, botas. Os movimentos eram automáticos. Repetidos há mais de um ano. Henrique Weissmann se preparando para mais um dia de trabalho na Companhia Siderúrgica Nacional.

Mas seria o último.

Pegou a mochila de lona em seu armário. Dentro, tudo o que importava: envelope grande com a confissão e os documentos que incriminavam Adler; dinheiro – três mil cruzeiros, mil dólares; Walther PPK com silenciador e dois carregadores extras; passaporte falso argentino.

Hans guardou a mochila novamente no armário. Mas agora trancou com cadeado. Durante o dia, ficaria ali. Segura. Mais tarde, pegaria e fugiria.

Saiu do alojamento. O ar da madrugada era frio. Outubro no Vale do Paraíba. O céu estava limpo. Estrelas ainda visíveis. Lua minguante baixa no horizonte.

Caminhou até o refeitório. Café preto. Pão com manteiga. Sentou-se sozinho, como sempre. Outros engenheiros e operários do turno da manhã chegavam aos poucos. Bocejando. Conversando baixo. Reclamando do frio.

Hans comia mecanicamente. A mente processava o plano. Pela centésima vez. Procurando falhas. Encontrando dezenas. Mas não havia escolha. Era fugir ou morrer.

Isso ele não permitiria.

Às 05h45, terminou o café. Saiu. Caminhou até o ponto de registro. Fila de trabalhadores. Cada um batia o cartão no relógio mecânico. Click. Click. Click. Som reconfortante de rotina. De normalidade. De vidas que seguiam previsíveis.

Hans pegou seu cartão. Número 1847. Henrique Weissmann de Almeida. Engenheiro Metalúrgico. Inseriu no relógio. O carimbo desceu.

27/10/1942 – 06h00

Última marcação. Último dia de Henrique Weissmann.

Volta Redonda, canteiro de obras da CSN, 27 de outubro de 1942 – 06h15

O turno começou como qualquer outro. Hans recebeu ordens de Heitor: verificar soldas no setor B do alto-forno. O mesmo forno que quase explodira nove dias antes. Ironia não lhe escapou.

Pegou capacete amarelo. Prancheta. Caminhou até o setor indicado. Ao redor, o canteiro acordava. Milhares de trabalhadores movendo-se como organismo vivo. Guindastes levantando vigas. Caminhões despejando concreto. Soldadores faiscando. Barulho ensurdecedor de progresso.

Hans trabalhou mecanicamente. Verificou soldas. Anotou especificações. Conferiu medidas. Tudo perfeito. Tudo profissional. Henrique Weissmann fazendo seu trabalho impecavelmente. Pela última vez.

Mas a mente estava longe. Processando detalhes da fuga.

Às 12h00. Fim do primeiro turno. Saio do canteiro. Almoço. Vou até a agência dos Correios em Barra Mansa. Envio confissão e documentos para o DOPS.

Às 09h30, vigiava enquanto fingia trabalhar. Identificou três agentes do DOPS disfarçados. Um fingindo ser operário – novo demais, mãos limpas demais, olhos observadores demais. Outro fingindo ser técnico americano – sotaque forçado, uniforme limpo demais. Terceiro nem se esforçou muito – terno escuro, boné puxado, fumando encostado em caminhão, olhos fixos em Hans.

Amadores, pensou Hans. Ou confiantes demais. DOPS deveria treinar melhor seus homens.

Mas eram três. Talvez mais que não identificara. Fugir seria difícil. Mas treinara para isso. Abwehr ensinara técnicas de evasão. Despistar. Confundir. Desaparecer.

Seria suficiente? Teria que ser.

Volta Redonda, canteiro de obras, 27 de outubro de 1942 – 12h00

O apito do término do primeiro turno soou. Hans guardou a prancheta. Tirou o capacete. Caminhou até o vestiário. Lavou mãos e rosto. Depois, em vez de ir ao refeitório, saiu do canteiro.

Os vigias notaram imediatamente. O falso operário o seguiu. Discretamente. Vinte metros atrás.

Hans caminhou até pequeno restaurante no centro de Volta Redonda. “Bar do Zé”. Estabelecimento popular. Comida simples. Operários da CSN frequentavam. Nada suspeito em Henrique almoçar ali.

Entrou. O vigia ficou do lado de fora. Esperando.

Hans pediu almoço. Sentou-se em mesa nos fundos. De costas para porta. Posição vulnerável. Mas intencional. Queria parecer relaxado. Confiante. Inocente.

Comeu lentamente. A comida não tinha gosto. Tudo era cinza. Mecânico. Mas forçou-se a terminar. Precisava de energia. O dia seria longo.

E então, enquanto mastigava arroz sem sabor, o pensamento chegou. Súbito. Devastador.

E se não acreditarem na inocência de Isabel?

Hans parou. O garfo congelado a meio caminho da boca.

E se lerem a confissão e pensarem que ela foi cúmplice? Que sabia desde o início? Que ajudou?

O DOPS não era conhecido por sutileza. Nem por justiça. Eram conhecidos por eficiência brutal. Prender. Torturar. Arrancar confissões. Verdadeiras ou falsas, não importava.

O estômago de Hans revirou. Largou o garfo. Não conseguia mais comer.

Precisava de algo mais. Algo que garantisse que entenderiam: Isabel era inocente. Vítima. Não cúmplice.

E então a solução chegou. Clara. Óbvia.

Mudança de plano. Isabel entregará a confissão. Mais seguro para ela. Se Isabel entrega, estará protegida. Eles não poderão acusá-la de cumplicidade se ela própria os alertar.

Fazia sentido. Frio. Calculado. Mas fazia.

Hans respirou fundo. O plano refinado. Melhor. Mais seguro para Isabel.

Precisava acreditar nisso. Porque se não acreditasse, não conseguiria embarcar naquele trem. Não conseguiria abandoná-la.

Pagou a conta. Saiu. O vigia o seguiu de volta ao alojamento.

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 27 de outubro de 1942 – 13h30

Hans foi ao quarto. Pegou a mochila que guardara no armário e trancou-se no banheiro coletivo. Cabine no final. Porta com tranca precária. Mas suficiente para privacidade temporária.

Sentou-se no vaso fechado. Tirou papel e caneta do bolso. Papel simples. Comum. Comprado em armazém dias antes. Começou a escrever. Bilhete para Isabel.

Isabel,

Preciso que você vá hoje à estação de Barra Mansa.

Vou partir no último trem. À meia-noite.

Não volto.

Não posso explicar por carta.

Só preciso vê-la.

Se você não for, entenderei.

Mas peço que vá.

Henrique

Hans releu. A letra tremia levemente. Não por medo. Por emoção que tentava suprimir e falhava. Dobrou a carta. Guardou em envelope simples. Escreveu na frente: Isabel de Azevedo.

Depois pegou segunda folha. Esta seria diferente. Mais longa. Mais completa. A verdade. Toda ela.

Terminou de escrever

Hans dobrou a carta. Mãos tremiam violentamente agora. Guardou em segundo envelope. Colocou na mochila junto de confissão e documentos: plantas da rede de espionagem, nomes de agentes, endereços de bolthholes, códigos, tudo.

Saiu do banheiro. Roberto estava no quarto, se arrumando.

Terno branco. Gravata vermelha. Cabelo brilhando com brilhantina.

— Weissmann! — sorriu Roberto. — Vai sair hoje? Finalmente? Achei que ia hibernar aqui até a guerra acabar.

Hans forçou sorriso:

— Não hoje. Mas você vai, certo? Buscar Carmem?

— Claro! Toda terça e quinta. Saio do trabalho. Pego Carmem. Por quê?

Hans pegou o primeiro envelope. Estendeu para Roberto:

— Preciso que entregue isto a Isabel. Hoje. Quando for buscar Carmem.

Roberto pegou. Olhou. Depois olhou para Hans com expressão estranha:

— Carta? Você e Isabel brigaram?

— Não exatamente. Apenas… preciso dizer algo. E não posso pessoalmente. Hoje não.

Roberto estudou Hans. Percebia que algo estava errado. Mas não pressionou. Amizade às vezes era sobre não fazer perguntas certas.

— Está bem. Entrego. Mas você devia falar pessoalmente. Cartas são… frias.

— Obrigado, Roberto. Você é… é bom amigo.

Roberto piscou. Hans nunca dissera isso antes. Nunca demonstrara afeto. Era sempre distante. Educado. Mas frio.

— Ei, você está bem? Parece que vai chorar ou algo assim.

— Estou — mentiu Hans. — Apenas cansado. Trabalho demais.

— Durma mais, trabalhe menos — aconselhou Roberto, ajeitando gravata. — A vida é curta demais para ser só trabalho.

Roberto saiu. Hans ficou sozinho. Olhou ao redor. Quarto que dividira por mais de um ano. Beliche onde dormira. Armário onde guardara vidas falsas.

Tudo ficaria para trás. Como tudo sempre ficara.

A tarde passou lentamente. Eternamente. Cada minuto pesava como hora. Cada hora como dia.

Volta Redonda, centro do distrito, 27 de outubro de 1942 – 16h00

Hans saiu do alojamento quando anoitecia. Vestiu roupas civis – calça escura, camisa branca. Boné puxado sobre os olhos. Mochila com tudo que importava nas costas.

Caminhou até centro de Volta Redonda. O distrito crescia rapidamente. Rua principal calçada com paralelepípedos. Comércio em expansão. Padaria. Açougue. Armazém. Barbearia. Pequeno hotel. Tudo novo. Tudo alimentado pela CSN.

Procurou o que precisava: carro de aluguel. Não muitos em Volta Redonda. Mas alguns homens tinham carros de aluguel. Ford velhos. Qualquer coisa com motor e rodas.

Encontrou um.

Homem de cinquenta anos. Barriga proeminente. Bigode grisalho. Fumando cigarro barato. Olhos espertos de quem faz negócios na margem da legalidade.

— Boa noite — disse Hans. — Preciso de carro. Esta noite. Às vinte e três horas.

O homem estudou Hans. Depois:

— Para onde?

— Barra Mansa. Estação ferroviária.

— Vai viajar?

— Sim.

— Duzentos cruzeiros.

Caro. Muito caro. Mas Hans não negociou. Tempo era mais valioso que dinheiro.

— Está bem. Mas não quero ser deixado em frente à estação. Me deixe na Capela de São Benedito.

— Por quê?

— Discrição.

O homem encolheu ombros. Não se importava. Contanto que pagasse.

— Às vinte e três horas. Aqui. Traga dinheiro.

Hans assentiu. Saiu. Começou mapear seus vigias.

O falso operário estava ali. Encostado em poste. Fingindo ler jornal. Sem ler realmente. Olhos fixos em Hans.

Hans caminhou casualmente. Parou em padaria. Comprou pão. Conversou com atendente. Depois continuou. Virou esquina. Esperou.

O vigia apareceu trinta segundos depois. Previsível.

Hans mapeou rota. Duas ruas. Três becos. Quatro saídas possíveis. Memorizou tudo. Abwehr ensinara bem: sempre conheça terreno antes de fugir.

Voltou ao alojamento. Jantou no refeitório. Não comeu muito. Estômago revirado de ansiedade.

Às 20h00, recolheu-se. Os outros engenheiros jogavam cartas. Rindo. Bebendo cachaça escondida. Vida normal. Vida que Hans nunca teria.

Deitou-se no beliche. Fingiu dormir. Esperou.

Barra Mansa, Grupo Escolar Fagundes Varella, 27 de outubro de 1942 – 17h00

Isabel terminava de organizar carteiras quando Roberto bateu na porta da sala.

— Isabel! — sorriu ele. — Vim buscar Carmem. E tenho algo para você.

Isabel levantou olhos. Roberto entrou. Estendeu envelope.

— De Henrique. Pediu que entregasse.

Isabel ficou imóvel. Olhando envelope como se fosse bomba. Não queria pegar. Não queria abrir. Porque sabia: cartas traziam despedidas. Sempre traziam.

— Ele está bem? — perguntou, voz tremendo.

— Acho que sim — Roberto hesitou. — Mas estava… estranho. Diferente. Triste. Não sei.

Isabel pegou envelope. Lentamente. Como se queimasse.

— Obrigada, Roberto.

— Quer que espere? Caso precise de algo?

— Não. Pode ir. Carmem deve estar esperando.

Roberto saiu. Isabel ficou sozinha na sala. Trinta carteiras vazias. Quadro-negro com lição de matemática pela metade. Cheiro de giz e infância.

E envelope nas mãos. Tremendo.

Parte dela queria jogar fora. Não ler. Fingir que não existia. Porque enquanto não lesse, Henrique ainda era dela. Ainda havia futuro. Ainda havia esperança.

Mas outra parte – a parte que amava verdade mais que conforto – precisava saber.

Abriu. Leu.

Vou partir no último trem. À meia-noite.

Não volto.

As palavras perfuravam. Cada uma era faca. Pequena. Precisa. Letal.

Preciso que você vá hoje à estação de Barra Mansa.

Isabel leu três vezes. Depois dobrou a carta. Guardou no bolso do vestido. Sentou-se em uma das carteiras de aluno. Pequena demais para ela. Joelhos batendo em madeira.

Sentimentos confusos. Raiva. Amor. Medo. Esperança. Desespero.

Ele está fugindo. Obviamente fugindo.

Se eu não for, nunca saberei. Nunca terei respostas. Passarei vida inteira imaginando.

Mas se for… se for, posso ser presa. Pode ser armadilha. Pode ser perigo.

Isabel ficou sentada ali até escurecer completamente. Até zelador bater na porta:

— Professora Isabel, vou fechar escola.

Ela se levantou. Saiu. Vagou pelas ruas de Barra Mansa. Chegou em casa às 19h00.

Família jantando. Pai. Mãe. Irmão.

— Isabel! — chamou mãe. — Onde estava? O jantar está esfriando!

— Desculpe. Trabalho atrasado.

Sentou-se. Comeu mecanicamente. Não saboreou nada.

Carlos Alberto a observava. Irmão mais novo. Mas protetor. Percebia que algo estava errado:

— Você está bem?

— Estou — mentiu. — Apenas cansada.

Terminou jantar rapidamente. Subiu para quarto. Trancou a porta. Sentou-se na cama.

Pegou a carta novamente. Releu.

Meia-noite. Estação. Não volto.

Uma decisão precisava ser tomada. Ir ou não ir. Saber ou não saber. Amar ou proteger-se.

Isabel olhou pela janela. Lua minguante. Estrelas. Noite tranquila. Enganosamente tranquila.

Se eu for, tudo muda. Para sempre. Não há volta.

Mas se não for… se não for, morro um pouco.

Fechou olhos. Respirou fundo.

Vou.

Decisão tomada. Irrevogável. Insana. Mas tomada.

Agora apenas esperaria. Até todos dormirem. E então, sairia. Como fantasma. Como ladra na própria casa. Para encontrar homem que amava e não conhecia.

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 27 de outubro de 1942 – 22h30

Hans esperou até roncos encherem o quarto. Roberto. Os outros três. Todos dormindo profundamente. Trabalhadores exaustos. Sono pesado. Sem sonhos.

Hans levantou-se silenciosamente. Pegou mochila do armário. Verificou conteúdo pela última vez: confissão, documentos, dinheiro, arma, carta.

Tudo ali. Tudo pronto.

Vestiu-se no escuro. Roupas escuras. Boné. Invisibilidade improvisada.

Saiu do quarto. Corredor vazio. Banheiro ao final. Saída de emergência lateral. Porta que dava para área externa.

Abriu lentamente. Rangeu levemente. Hans congelou. Esperou. Nenhum som. Ninguém acordou.

Saiu. Noite fria. Silenciosa. Apenas som distante de rio e vento.

Caminhou rente à parede. Sombras protegendo. Chegou à cerca que delimitava alojamento. Arame farpado no topo. Mas Hans conhecia ponto fraco. Poste solto. Espaço suficiente para passar.

Silencioso. Treinamento Abwehr valendo cada segundo. Do outro lado, mato. Área não construída entre alojamento e linha férrea. Hans mergulhou na escuridão. Galhos arranhando. Espinhos rasgando calça. Não importava.

Atravessou. Chegou à linha do trem. Trilhos refletindo luz lunar. Seguiu paralelo por cem metros. Depois virou. Cruzou linha. Outro lado. Mais mato. Mais espinhos.

Emergiu no centro de Volta Redonda. Ruas desertas. Comércio fechado. Apenas poste de iluminação ocasional. E lá, esperando onde combinado: Ford preto. Motor ligado. Faróis apagados.

Hans aproximou-se. Bateu na janela. O motorista – mesmo de antes – abriu porta:

— Entre. Rápido.

Hans entrou. Fechou porta. Carro arrancou imediatamente. Sem faróis. Apenas luz da lua guiando.

— Alguém te seguiu? — Hans perguntou.

— Não.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Carro ganhou velocidade. Deixou Volta Redonda. Estrada de terra. Buracos. Solavancos. Quarenta minutos até Barra Mansa.

Hans olhou pela janela. Paisagem escura passando. Fazendas dormindo. Vale do Paraíba sob noite sem lua cheia.

Última vez, pensou. Última vez que vejo isto. Amanhã estarei longe. Talvez morto.

Mas pelo menos verei Isabel uma última vez. Direi adeus. Entregarei cartas. E então… então desaparecerei. Como sempre fiz. Como sempre farei.

Barra Mansa, Rua Eduardo Junqueira, 27 de outubro de 1942 – 23h30

Isabel esperou até casa mergulhar em silêncio absoluto. Pai roncando. Mãe respirando profundamente. Carlos Alberto no quarto ao lado. Todos dormindo.

Levantou-se. Fantasma em própria casa. Vestiu-se no escuro. Vestido escuro. Casaco. Sapatos baixos para não fazer barulho. Nada que chamasse atenção. Nada que gritasse “fugindo à meia-noite”.

Pegou bolsa pequena. Dentro, apenas lenço e a carta de Hans. Nada mais. Nada que precisasse.

Caminhou até a cozinha. Janela que dava para o quintal. Sempre aberta. Família nunca trancava. Barra Mansa era cidade segura. Não havia ladrões. Não havia perigo.

Exceto perigo que Isabel corria voluntariamente.

Abriu janela lentamente. Passou. Pés tocando grama úmida de sereno. Fechou janela. Atravessou quintal. Portão lateral. Rua deserta.

Caminhou rápido. Mas não correu. Correr chamava atenção. Caminhar rápido era apenas mulher atrasada. Normal. Invisível.

Quinze minutos até estação. Ruas vazias. Apenas ocasional cachorro latindo. Vento frio. Isabel tremendo. Não de frio. De medo. De antecipação. De amor desesperado.

Chegou à estação às 23h45. Edifício quase escuro. Apenas pequena luz sobre bilheteria. Plataforma iluminada fracamente. Onde trens paravam.

Isabel parou. Respirou. Coração martelando.

Ainda posso voltar. Ainda posso fingir que nunca li carta. Que nunca vim. Que…

Mas não podia. Nunca pudera. Desde momento que conhecera Hans – Henrique – seja quem fosse, estava condenada. Amar era condenação. Sempre fora.

Entrou na estação. Três pessoas somente. Caminhou até a plataforma. Vazia. Apenas ela. E sombras. E medo.

Esperou.

Barra Mansa, 27 de outubro de 1942 – 23h40

O Ford parou discretamente em frente à pequena capela. Construção simples. Pintada de branco. Cruz no topo. Silenciosa na noite.

— Aqui — disse Hans.

Motorista olhou ao redor. Desconfiado:

— Tem certeza?

— Tenho. Prefiro caminhar.

Hans estendeu duzentos cruzeiros. Motorista pegou. Contou. Assentiu.

— Boa sorte. Seja lá o que estiver fazendo.

— Obrigado.

Hans desceu. Fechou a porta. O carro partiu silenciosamente. Desapareceu na noite.

Hans ficou parado. Avenida Joaquim Leite. Completamente deserta. Apenas postes de luz isolados. Sombras longas. Silêncio absoluto.

Começou a caminhar. Lentamente. Cada passo medido. Olhos varrendo ao redor. Procurando vigias. Procurando armadilhas. Procurando qualquer coisa fora do lugar.

Passou pela Praça da Liberdade. Igreja Matriz de São Sebastião à esquerda. Imponente. Sombria. Silenciosa. Deus dormindo. Ou assistindo. Não sabia qual.

Continuou. Comércio fechado. Vitrines escuras. Manequins fantasmagóricos. Sorveteria Polar. Onde comprara sorvete com Isabel. Onde pela primeira vez sentira-se quase normal. Quase feliz.

Tudo termina onde começou, pensou Hans. Cinema. Sorvete. Amor. E agora… despedida.

Virou à direita. Calçada contínua. Hotel São Pedro à frente. Onde Becker e Kohler hospedaram-se. Onde tudo começara a desmoronar.

E finalmente, estação ferroviária.

Hans parou. Do lado de fora. Observando. Checando. Garantindo que não era armadilha.

Nenhum carro suspeito. Nenhum movimento. Apenas silêncio. E escuridão. E medo.

Respirou fundo. Última verificação. Mochila nas costas. Arma na cintura. Carta no bolso interno.

Tudo pronto. Tudo ou nada. Última jogada. Última carta. Último trem.

Hans caminhou em direção à entrada da estação.

E então parou.

Porque pela porta envidraçada da estação viu algo. Alguém. Sombra movendo-se na plataforma. Silhueta feminina. Inconfundível. Vestido. Cabelos soltos ao vento.

Isabel.

Ela veio, pensou Hans. Coração explodindo. Ela realmente veio.

E pela primeira vez em anos, Hans Albrecht Krueger sentiu algo que não sentia desde Greta: medo de perder. Porque quando não se tem nada, não se teme perda. Mas quando se tem tudo… quando se tem alguém que ama incondicionalmente, apesar de mentiras e traições…

Medo era paralisante.

Hans respirou fundo. Ajeitou boné.

E caminhou para dentro da estação. Para Isabel. Para despedida. Para fim de Henrique Weissmann.

O último trem ainda não chegara. Mas Hans sabia: quando chegasse, carregaria apenas um deles. Isabel ficaria. Com verdade. Com futuro.

E Hans partiria. Para Argentina. Para exílio. Para vida de fantasma permanente. Mas pelo menos partiria sabendo que Isabel estava segura. Que entregaria confissão. Que seria vista como heroína. Não cúmplice.

Era tudo que importava. Era tudo que Hans poderia dar. Último presente de homem que amou quando não devia. Quando não podia. Quando não tinha direito.

Mas amou mesmo assim.

Deixe um comentário