Eu Não Terei as Mesmas Desculpas

Já faz mais de quinze anos que o Conselho Nacional de Educação emitiu o parecer desaconselhando a distribuição de Caçadas de Pedrinho nas escolas públicas sem mediação crítica. Lembro-me da polarização que se seguiu. De um lado, intelectuais e ativistas que argumentavam que o Estado não deveria endossar, sem contraponto, textos que desumanizassem a criança negra no ambiente escolar. Do outro, a Academia Brasileira de Letras e defensores da literatura, que viam na medida o risco de um anacronismo punitivo. Como se pudéssemos exigir de Lobato a consciência que só se tornou possível décadas após sua morte.

Monteiro Lobato era um homem de seu tempo. Digo isso não para aliviar o racismo que está em suas páginas. Ele está, e não dá para negá-lo. Está nas descrições pejorativas dos personagens negros, na subserviência estereotipada com que construiu Tia Nastácia, no flerte com a eugenia que aparece em outros escritos. Digo como constatação: havia um contexto, um vocabulário, uma estrutura social que ele absorveu e reproduziu. Isso explica. Não absolve.

Mas quem escreve sabe que o contexto não obriga. Que sempre há outra escolha disponível, mesmo quando se retrata um cotidiano. Lobato sabia escrever. Tinha poder sobre a língua e sobre os personagens. O que ele fez com esse poder revela o que ele acreditava; não apenas o que ele via.

Um escritor não apenas retrata o mundo. Escolhe como retratá-lo. E essa escolha é o que sobrevive.

Vivo dizendo que meus valores estão na obra. Que escrever é uma forma de deixar algo de si no mundo. Que meus personagens carregam o motor das minhas convicções mesmo quando meu nome não é mencionado uma única vez.

E é exatamente aqui que começa meu medo.

Não porque queira me comparar a Monteiro Lobato. É precisamente o contrário que me assusta. Lobato era um gênio criador, fundador de toda uma tradição da literatura infantil brasileira e mesmo assim a visão hagiográfica que se teve dele por décadas foi superada. A abordagem contemporânea exige leitura crítica, contextualização, professores preparados para explicar que o mesmo homem que criou o Sítio do Pica-Pau Amarelo era também porta-voz de preconceitos científicos e sociais profundos de sua era.

Se isso aconteceu com Lobato, o que me espera a mim?

Em Rios de Sangue e Ouro, os africanos escravizados são quase um dado. Sua existência é colateral. E isso não foi por acidente; foi uma decisão.

O eixo indígena está largamente presente na saga, muito ligado à camada mítica e simbólica da narrativa. Mas preferi não enfrentar o elemento negro no primeiro romance. A justificativa que me dei era de ordem narrativa: mais dificuldade, mais polêmica potencial, mais risco de errar num território que exige mais do que pesquisa histórica. Exige uma sensibilidade que ainda estou construindo.

Reconheço o que isso significa. Num romance ambientado nas Minas do início do século XVIII, onde o trabalho escravo era a estrutura sobre a qual toda a riqueza e toda a violência daquele mundo se sustentavam, tratar os africanos escravizados como dado de fundo é uma escolha com peso moral. Posso ter razões técnicas. Mas razões técnicas não apagam o efeito.

Como um romance fundacional que pretendo transformar em saga, chegará o momento de dar aos africanos escravizados o lugar que a história lhes deu: não de vítimas passivas do colonizador (embora o sofrimento precise ser nomeado com a seriedade que merece), mas de agentes de seus próprios destinos. Porque negros fazem parte da fundação deste país tanto quanto brancos e povos da floresta. Estavam lá. Construíram. Resistiram. Criaram. Morreram. E se uma saga que pretende reconstituir o Brasil colonial os tratar apenas como pano de fundo, ela estará mentindo sobre o passado, não por anacronismo, mas por omissão.

Isso é mais difícil do que parece. Não a pesquisa. Essa farei, como sempre fiz. O difícil é a responsabilidade específica de escrever, como homem do século XXI, personagens africanos escravizados do século XVIII, sem condescendência, sem vitimização como único traço, sem o erro oposto de apagar o horror em nome de uma agência que romantize o que foi vivido. É um fio muito fino. E eu vou ter que caminhar sobre ele.

Temo não pelo agora. Temo pelo futuro.

Se minha obra sobreviver a mim (e esse é o desejo que me faz escrever), será lida em contextos que não consigo prever, com sensibilidades formadas por debates que ainda não aconteceram, por vozes que ainda não existem. O que parece razoável hoje pode parecer insuficiente daqui a cinquenta anos. O que omito por cautela pode ser lido como cumplicidade. O que incluo com cuidado pode ser julgado como apropriação.

Não terei o manto de proteção da genialidade de Lobato. Não construí uma tradição literária que nenhum cânone possa ignorar. Sou um escritor de alcance modesto, sem a grandeza que gera condescendência póstuma. Se errar, o erro ficará nu. Sem contexto que o abrigue, sem obra monumental que o relativize.

Lobato teve décadas de hagiografia antes do julgamento. Eu não terei essa margem.

A única resposta que encontro não é conforto. É responsabilidade.

Escrever com cuidado não significa escrever com medo. Significa pesquisar mais, ouvir mais, ler os autores negros que escreveram sobre esse período com uma autoridade que eu não tenho e que preciso respeitar antes de tentar minha própria versão. Significa não evitar o difícil por conveniência narrativa, como fiz em Rios de Sangue e Ouro. Significa aceitar que alguns erros vou cometer, porque quem não escreve não erra, e não escrever também é uma escolha moral.

O passado pertence a todos que foram formados por ele. O Brasil colonial com toda a sua brutalidade e toda a sua mistura é patrimônio de uma nação inteira, incluindo seus descendentes de africanos escravizados, que têm muito mais direito sobre aquelas histórias do que eu. Quando me aproximo desse território, preciso saber que estou pisando num território que não me pertence exclusivamente. E que a maneira como pisar vai dizer, mais do que qualquer intenção declarada, quem sou como escritor e como homem.

Nenhum escritor escapa do julgamento que vem depois. A única escolha é o que mereceremos que nos cobrem.

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