Outro dia, em meio a uma reunião, depois de ouvir sobre mais um desmando — desses que desmontam qualquer ilusão de que instituições sempre funcionam bem —, deixei escapar:
— Talvez alguns aqui não saibam, mas eu sou totalmente contrário à ideia de democracia liberal. Para mim, ela é uma ilusão inventada para manter uma elite confortável no poder. Ainda assim, acredito na democracia, mas como lugar da construção de consensos…
Minha fala saiu com certo tom de protesto eloquente, desses que a gente solta quando não aguenta mais engolir calado. Vi alguns olhos brilhando em concordância, outros meio perdidos. E fiquei me perguntando: será que entenderam mesmo o que eu disse?
Porque, no fundo, a maioria das pessoas pensa a democracia como um instrumento prático: uma eleição a cada quatro anos, votos contados, quem tem mais votos governa. Um mecanismo para evitar violência, ditaduras, golpes. E, claro, é isso também. Mas apenas isso?
Eu, que tenho uma vocação inata para complicar a vida — como se vivesse à procura de razões para enlouquecer —, acho essa visão limitada, quase ingênua. Só porque a maioria escolheu algo, isso é bom? A história está cheia de exemplos de maiorias que consagraram injustiças: leis segregacionistas, perseguições, exclusões de minorias. Quando a política se reduz à soma de votos, o que temos é uma versão polida da “ditadura da maioria”.
Acredito em outra coisa. Acredito que a democracia só faz sentido se for mais do que uma disputa aritmética de forças. Quando pessoas civilizadas se sentam à mesa, dispostas a dialogar, argumentar, ouvir — não apenas a vencer —, surge a possibilidade de algo novo: uma decisão que não é vitória de uns sobre outros, mas construção comum. Nesse nível, eu não preciso garantir minha hegemonia sobre ninguém; precisamos, sim, encontrar pontos de convergência que tornem possível a vida em comum.
Sei, porém, que esse ideal de consenso é visto por muitos como utopia. Chantal Mouffe, por exemplo, diria que não existe consenso neutro, que toda negociação é sempre atravessada por disputas de poder, e que o conflito nunca desaparece — apenas muda de forma. E, convenhamos, ela tem razão. Já vi mesas redondas de “debate” em que o mais articulado engole o outro, e o consenso final mais parece resultado da força retórica do que de um verdadeiro acordo.
Ainda assim, insisto: sentar e conversar é o passo mais humano que podemos dar. O conflito é inevitável, mas a democracia que apenas contabiliza votos é míope; ela fecha os olhos para o que existe entre uma eleição e outra. A democracia que sonhamos — ou que pelo menos eu insisto em sonhar — é a que acontece ali, no intervalo entre o choque dos interesses, quando a palavra circula, quando alguém se deixa tocar pelo argumento do outro.
Pode ser ingenuidade minha. Mas acredito que a construção de consensos, mesmo que sempre provisórios, seja a maior prova de que a humanidade não está condenada a viver debaixo da lei do mais forte — seja o tirano de um só, seja a tirania disfarçada da maioria.
E, no fundo, é por isso que continuo abrindo a boca em reuniões, mesmo que nem todos entendam. Talvez, quem sabe, a insistência no diálogo plante uma dúvida, uma fresta. E já seria suficiente para manter viva a esperança de que a democracia pode ser mais do que um ritual de urna: pode ser também mesa de conversa.
