Ei, pequeno, faz tempo que não nos falamos — ou talvez eu tenha apenas esquecido de escutar o teu silêncio.
Lembro de ti correndo pelos quintais do tempo, com o rosto sujo de sol e as mãos cheias de mundos invisíveis. Enquanto os outros brincavam de bola, tu construías universos com pedaços de nuvem e nomes inventados.
Naquela época, ninguém te explicou que o que chamavam de “distração” era, na verdade, o esboço da tua vocação.
Hoje eu sei: cada conversa que tinhas com o vento era o ensaio das vozes que um dia eu escreveria; cada história inventada para adiar o sono era um livro esperando nascer.
Eu cresci, sim — mas continuo tentando entender o que você via quando olhava o mundo com tanto espanto.
Você não sabia ainda o peso das horas, nem o nome das saudades, mas já pressentia que viver é também perder um pouco de si em cada passo. Talvez por isso inventasse tanto: para que o real doesse menos e o impossível coubesse inteiro dentro de você.
Sabe, menino, devo-te tudo.
Foi você quem me ensinou que a imaginação é um refúgio, mas também uma ponte — entre o que somos e o que desejamos ser. Sem os teus sonhos, eu não teria as palavras; sem as tuas fantasias, eu não teria coragem de transformá-las em histórias.
Hoje, quando escrevo, é sempre a tua voz que ouço primeiro.
Você ainda sussurra ideias entre as linhas, ainda me segura pela mão quando o mundo parece áspero demais.
E eu sigo escrevendo, como quem tenta, a cada frase, voltar para casa — aquela casa onde tudo era possível.
Obrigado por ter acreditado no invisível.
Sem você, eu jamais teria aprendido a ver o mundo por dentro.
Com saudade e gratidão,
O adulto que você se tornou.

1 Comentário
Ana Claudia
Maravilhosa crônica. Parabéns! Como sempre o seu texto nos leva à reflexão e, desta vez, nos reaproxima da criança que éramos.