Aconteceu há muitos anos com um professor que é amigo meu — e cujo nome, por razões óbvias, não posso revelar. Aliás, nenhum nome pode ser revelado.
Era meados da década de 1990 e as férias de verão apenas começavam. Esse meu amigo morava no bairro Santa Clara e lecionava em várias escolas da cidade. Jovem, solteiro e bonito, fazia muitas alunas suspirarem por ele. Mas devo dizer: sempre foi um homem sério. Jamais deu trela às cartinhas apaixonadas que recebia.
Naquele verão, desceu a serra com a namorada rumo a Angra dos Reis. Era a primeira vez que viajavam juntos e passariam alguns dias em uma casa alugada em Mambucaba, com um grupo de amigos. Seria o merecido descanso após um ano letivo de labuta — mas a viagem, promessa de sossego, transformou-se em verdadeiro inferno. As brigas constantes, alimentadas pelos ciúmes da moça, tornaram a estadia insuportável.
Furioso e humilhado com as cenas que ela fazia diante dos amigos, decidiu voltar para Barra Mansa poucos dias depois do réveillon, trazendo a namorada a reboque. Ela chorava e discutia durante todo o trajeto.
Na rodoviária, ele não suportou mais. Assim que desceu do ônibus, terminou o namoro ali mesmo — outra cena pública. O restante das férias foi de profunda tristeza. Ainda a amava, mas sabia que, se continuasse com ela, seria tragédia certa. Além do mais, tudo o que mais detestava eram escândalos e crises de ciúmes.
Foi no fim das férias que um primo, uns oito anos mais novo, vendo a melancolia em que o professor se encontrava, o convidou para sair. Era um domingo à tarde. Ele pensou:
— Que mal há em dar uma volta? Quem sabe não conheço alguém interessante?
Na segunda voltaria ao trabalho, então resolveu ir.
Por volta das sete da noite, o primo chegou.
— Pra onde vamos? — perguntou o professor.
— Você vai ver. Certeza que vai gostar.
Mas o primo, sendo bem mais novo, acabou o levando para a matinê do Clube Náutico, em Volta Redonda.
— Pelo amor de Deus, primo! Onde você me trouxe? Aqui não é o meu lugar! Vou acabar encontrando alunos meus aqui!
— Relaxa, homem. Ninguém vai te reconhecer. À noite, todos os gatos são pardos.
Longe de relaxar, o professor sentia um frio na espinha. A cada instante imaginava ouvir um “Oi, professor!”. Mas nada como música alta e uma Antártica gelada para acalmar os nervos. De tempos em tempos, ele se pegava olhando discretamente para algumas moças, até se censurar: não era certo.
Pouco antes de as luzes se acenderem, ao som de Saturday Night, viu uma moça linda — e tão deslocada ali quanto ele. Ainda que jovem, aparentava uns dezenove, talvez vinte anos. Alta, morena, de traços finos, cabelos lisos e brilhantes, corpo curvilíneo. A atração foi imediata.
Ela também o percebeu. Retribuiu o olhar. Vários rapazes se aproximavam dela e logo levavam um “toco”. Não podia ser: a beldade parecia interessada logo nele. Seria a cerveja falando mais alto? Mas as evidências eram claras — ela o desejava tanto quanto ele a desejava.
Sem rodeios, aproximou-se do grupo, os olhos fixos na morena.
— Tudo bem?
— Tudo — respondeu ela.
O resto foi conversa para encher o tempo. Descobriu que ela também morava em Barra Mansa. Beijaram-se num canto do clube, trocaram elogios e telefones. Ele quis levá-la para casa, mas ela recusou: estava com as amigas. Ele imaginou que fosse a mais velha do grupo, encarregada de não se afastar das outras.
Voltou para casa animado, conversando com o primo. Não conseguia acreditar na sorte. Sonhou com ela durante a noite. Estava encantado, quase adolescente outra vez. Decidiu não se precipitar: esperaria até sexta-feira para chamá-la para o Gaia — umas cervejas, uns petiscos e, claro, alguns beijos. Por enquanto, o foco seria o início do ano letivo.
Na terça-feira, já em sala de aula, o professor entrou em uma turma da sexta série de uma das escolas públicas onde trabalhava. Como de costume, apresentou-se e pediu que os alunos novos também se apresentassem.
De repente, risinhos no fundo da sala. Um grupo de meninas ria baixinho. Ele caminhou até lá para ver o motivo. Então, o choque: era a morena.
O mundo girou. O sangue sumiu-lhe do rosto. Com a voz trêmula, perguntou:
— Qual é o seu nome?
Era ela. Não havia dúvida. Pediu licença, chamou o disciplinário, foi ao banheiro na sala dos professores e vomitou de nervoso.
Ainda havia uma esperança: talvez fosse uma daquelas alunas multi-repetentes, que chegam à oitava série com idade para aposentar. Correu à secretaria:
— Onde estão as fichas de matrícula da turma 602?
A secretária estranhou a urgência, mas mostrou o arquivo. Ele procurou a pasta pelo nome. Quando abriu, o chão pareceu sumir: a menina tinha completado doze anos no dia em que se conheceram no Náutico.
Pensou que ia desmaiar. O escândalo seria inevitável. Todos na escola saberiam de seu erro.
Disse à secretária que estava passando mal, pediu dispensa e foi direto à sede da FEBAM, na prefeitura. Lá, implorou ao chefe do Departamento de Pessoal que o removesse da escola. Contou-lhe tudo, em voz baixa, temendo o julgamento. O homem, sério, ouvia atentamente. Quando o professor terminou, o chefe ficou alguns segundos em silêncio — e então soltou uma risada estrondosa:
— É uma tragédia mesmo, meu filho! — disse, rindo até doer a barriga. — Vá pra casa. Eu resolvo suas aulas.
O professor foi embora arrasado. Não dormiu à noite. Nos dias seguintes, os cabelos começaram a cair. Imaginava o que diziam dele na escola, os olhares dos colegas, os pais dos alunos… A vergonha era insuportável.
Pediu exoneração da prefeitura, demitiu-se das escolas particulares e mudou-se de estado.
Anos depois, encontrei meu amigo no centro da cidade. Viera passar o Natal com a família, acompanhado da esposa e de dois filhos.
A esposa dele era a morena.
