Por muitos anos, antes mesmo de Bal se tornar caçador, um grupo de lobos passou a rondar o acampamento. Onde a tribo ia, eles vinham atrás.
Não se aproximavam do fogo. Não mostravam os dentes. Permaneciam à distância, sentados, deitados, às vezes quase invisíveis entre as sombras. Esperavam apenas o que sobrava das carcaças trazidas…
João Athaíde de Castro e Melo orgulhava-se do nome que carregava. Em Porto Felicidade, ele não era apenas um sobrenome: era uma referência, quase uma unidade de medida moral. Bastava pronunciá-lo para que surgissem histórias repetidas, polidas, transmitidas como certezas, sobre o homem que dera forma à cidade quando ela ainda mal passava de um…
Era agosto de 1932 quando João saiu de casa, na Rua Duque de Caxias. Mirrado, ao menos aos olhos de Dona Matilde, parecia pequeno demais para aquela guerra que não escolhera. Não era uma guerra contra estrangeiros, mas contra parentes. Em Cruzeiro havia primos seus que haviam sido recrutados do outro lado, pelas lideranças paulistas.…
Antônio Gonçalves de Carvalho nunca iludira com promessas de fidelidade a Dionísia, embora ela fosse, inegavelmente, sua escrava preferida — aquela a quem ele dedicava mais tempo e atenção, e cuja beleza exótica o prendia. Antônio jamais admitira que qualquer outro homem sequer se aproximasse dela. Contudo, em sua volúpia desenfreada e egoísta, ele não…
Era o barulho seco de um impacto (como metal rasgando o ar) seguido de um grito feminino que se desmanchava na escuridão. Flávio despertou sobressaltado, o peito arfando, a pele ensopada. Que pesadelo mais estranho. E tão absurdamente vívido. Piscou algumas vezes até reconhecer o contorno familiar da cabeceira. Cinco da manhã de uma segunda-feira.…
Era estranho ver-se ali, estendido no caixão, como quem comparece ao funeral de um amigo íntimo, desses cuja ausência dói antes mesmo de consolidar-se. A cena era a mesma que tantas vezes testemunhara em vida. “Em vida”… a palavra lhe riscou o pensamento como ironia. Vivera aqueles rituais tantas vezes; agora os repetia, mas de…
Era meados da década de 1940 em Barra Mansa, quando a cidade oscilava entre dois mundos: o das roças cansadas e o das chaminés que começavam a cuspir fumaça no horizonte.
A Vila Nova, ainda um bairro afastado, mais ligado às fazendas do que ao centro urbano, surgia como um corpo estranho a meio caminho…
A exaustiva viagem de volta pela trilha da Mantiqueira, a mesma que os havia levado a Ayuruoca, consumiu Padre Matias em uma mistura de apreensão e alívio. Cada passo do cavalo que carregava o santo oco era um martírio silencioso, e cada sombra que se alongava ao entardecer trazia consigo o temor gélido dos vigilantes…
Na tarde morna de 24 de dezembro de 1969, Margarida caminhava devagar pela rua de terra, levando contra o peito um saco de papel leve como uma promessa. Tinha acabado de completar dez anos. Terceira de sete filhas — Violeta, Camélia, Margarida, Azaleia, Rosa, Magnólia e a pequena Melissa ainda ensaiando o primeiro balbucio —…
Há quem diga que, nas madrugadas de sexta-feira, quando o sino da Matriz de São Sebastião bate doze vezes, uma mulher de branco cruza em silêncio o portão de ferro do cemitério municipal. O vento se agita, os cães se calam, e o som de passos leves percorre as ruas do centro. Chamam-na Dama do…
A noite caíra pesada sobre Ayuruoca, e com ela, o peso da convocação de Joaquim Gonçalves de Toledo sobre a alma de Antônio de Carvalho. Com o coração aos pulos, um misto de medo e uma estranha resignação, Antônio dirigiu-se à casa do superintendente. Cada passo na escuridão parecia ecoar a iminência de um julgamento.…
Aconteceu no final dos anos de 1970. Manuel era um mineiro miúdo, de fala mansa e passos curtos, que descia de Arantina toda semana no trem de Minas. Vinha com um balaio de queijos e doces, que vendia nas lojas do centro de Barra Mansa e nas casas das senhoras piedosas, sempre dispostas a ajudar…
