A plataforma da estação de Barra Mansa cheirava a carvão e a despedida.
Era sábado, quinze de janeiro de 1944, e o trem para o Rio de Janeiro esperava com a impaciência das máquinas: vapor vivo, rodas paradas, como um cavalo que morde o freio. Na plataforma, a aglomeração habitual de mães e noivas e manos mais novos que vieram ver partir os convocados da FEB. Vozes. Choro. Alguém rezando em voz alta que logo foi engolido pelo barulho.
Olegário estava parado diante de Ana Maria como se estivesse aprendendo o rosto dela de cor.
Tinha dezenove anos e era bonito da maneira que os homens bonitos não sabem que são. Alto, magro, pele de mulato claro, os olhos de um castanho que chegava ao dourado quando o sol batia direito. Ajudante de pedreiro. Mãos grandes, calo na palma, unhas sempre com um fio de argamassa no canto. Filho único de mãe viúva que havia enterrado dois anos antes, quando a febre levou ela numa semana.
Ele era sozinho no mundo. Mas tinha Ana Maria.
Ela tinha dezessete anos e olhos grandes demais para o rosto pequeno, olhos que pareciam guardar tudo que viam. Pele negra, cabelo preso com um laço branco que ela havia colocado de manhã sem saber bem por que — talvez porque era a cor das cartas, talvez porque era a cor das bandeiras de paz que ela havia visto nas figuras dos livros da escola.
Os olhos de Ana Maria estavam marejados. Ela não chorava. Segurava.
— Você vai voltar — ela disse. Não era pergunta.
— Vou voltar pra você — disse Olegário.
— Jura.
— Juro.
Ele disse isso com a seriedade de quem não faz promessas à toa e sabia que estava fazendo uma que talvez não pudesse cumprir. Era patriotismo do tipo que não veio com festa. Veio com o papel de convocação, veio com o silêncio de uma manhã de domingo quando ele leu o nome dele na lista afixada na porta da prefeitura. Não havia entusiasmo. Havia apenas a aceitação de quem aprendeu cedo que o mundo pede coisas e a gente dá.
— Vou te escrever todo dia — disse Ana Maria.
— Eu sei.
— Todo dia, Olegário. Sem falta.
— Eu sei — ele repetiu, e havia ternura nisso, a ternura de quem conhece o outro de verdade.
O apito do trem.
Eles se beijaram. Um beijo que durou o tempo que os beijos de despedida duram. Um pouco mais do que o necessário, um pouco menos do que o desejado. Quando ele se afastou, Ana Maria segurou a mão dele por um segundo, dois, e depois soltou.
Olegário subiu. A janela. O rosto dele apareceu no vidro embaçado. Ela ficou na plataforma até a máquina virar fumaça lá longe na curva dos morros.
A Vila Militar no Rio de Janeiro era um outro mundo.
Mundo de bota e ordem do dia, de tiro e formatura, de sol cedo e sol tarde e cansaço que apagava o pensamento. Olegário aprendeu a marchar, a montar e desmontar o fuzil, a obedecer antes de entender. Era bom soldado não por gosto, mas por disciplina interior. A mesma que o fazia chegar antes dos outros nas obras, a mesmo que o fazia carregar mais tijolo do que o dobro seu peso.
Compunha o 1º Regimento de Infantaria.
Na tenda, seu colega de beliches era José Amâncio, um caboclo miúdo de Vassouras que ria muito e dormia pouco e sabia ler e escrever com letra caprichada de quem havia frequentado escola de padre. José Amâncio havia sido escrevente numa farmácia antes da convocação. Tinha um caderninho de endereços que guardava no bolso do peito como quem guarda coisa sagrada.
Todo dia chegava a carta de Ana Maria.
Olegário mal assinava o próprio nome. Aprendera as letras tarde, com Ana Maria, e o que sabia ler era pouco e lento, como quem caminha num terreno que conhece mas não domina. Então havia o arranjo: todo dia José Amâncio lia a carta de Ana Maria para ele. Em voz baixa, sentado na beira do beliche, enquanto Olegário ficava parado de olhos fechados ouvindo as palavras dela como quem ouve música.
As cartas eram longas. Ana Maria escrevia com a cabeça e com o coração ao mesmo tempo, uma mistura de notícia miúda e sentimento grande. Escrevia sobre a rua, sobre a chuva de março, sobre o cachorro da vizinha que havia tido filhotes, sobre o pai que havia arrumado trabalho na companhia, sobre a missa de domingo onde todo mundo perguntava por ele. Escrevia: tenho saudade do seu cheiro. Escrevia: às vezes acordo achando que você ainda tá aqui, na casa ao lado e aí lembro.
Olegário ouvia tudo de olhos fechados. Quando José Amâncio terminava, ficava quieto por um momento.
— Escreve pra ela — dizia ele então.
E José Amâncio pegava o papel e a caneta e Olegário ditava. Ditava da maneira que sabia: sem floreio, sem metáfora, mas com uma precisão de sentimento que José Amâncio reconhecia como rara. Olegário dizia: fala pra ela que aqui o calor é diferente do calor de Barra Mansa. Fala que o rancho é ruim mas a camaradagem é boa. Fala que penso nela quando acordo e quando deito e no meio do dia quando o sargento não tá gritando. Fala que vou voltar.
José Amâncio escrevia e acrescentava, discretamente, uma ou outra palavra mais bonita. Quando Olegário dizia saudade, José Amâncio às vezes escrevia uma saudade que pesa no peito como pedra boa. Olegário nunca reclamou. Talvez soubesse. Talvez não se importasse. O sentimento era verdadeiro, a letra era do outro, mas a voz era dele.
As cartas de Ana Maria, Olegário guardava numa lata de biscoito amanteigado que havia ganhado de um sargento americano. Toda noite a lata ficava debaixo do travesseiro.
Mas uma carta. A de quinze de março, a primeira que ela havia mandado depois do embarque ser confirmado nos jornais, a carta em que ela escrevia eu sei que você vai voltar porque Deus não é capaz de tanta crueldade. Essa carta Olegário dobrou em quatro e colocou no bolso esquerdo da farda. Junto ao peito.
A última carta de Olegário chegou em Barra Mansa no dia vinte e cinco de setembro.
Era uma segunda-feira. Ana Maria esperava às dez horas na porta de casa, como sempre, com o mesmo vestido de chita florido que havia passado com capricho porque havia aprendido que o carteiro notava as coisas e ela não queria que ninguém dissesse que ela havia desleixado por causa da guerra. O carteiro entregou o envelope, tocou o chapéu, seguiu.
Ana Maria leu na calçada, de pé, ao sol de setembro.
Na carta, Olegário dizia (José Amâncio escrevia) que o tempo estava bom, que o rancho havia melhorado, que havia aprendido algumas palavras em inglês com os americanos, que guardava a foto dela no espelho do cantil.
No dia seguinte, nada.
No dia seguinte, nada.
Ana Maria continuava às dez horas na calçada. O carteiro passava, ela seguia com os olhos, ele seguia sem parar.
Uma semana depois, uma nota pequena na segunda página do jornal (três parágrafos sem nome, sem detalhe, com a contenção característica das notícias militares em tempo de guerra) confirmava que os recrutas haviam embarcado para a Itália e estavam em águas seguras.
O coração de Ana Maria apertou de um jeito que ela nunca havia sentido. Não era dor. Era a diferença entre esperar alguém que pode chegar e esperar alguém que pode não chegar.
Continuou escrevendo todo dia. Endereçava para a Cruz Vermelha, como havia sido orientada. Não sabia se chegavam. Escrevia assim mesmo.
Na Itália, o inverno caía sobre o vale do Rio Sercchio como uma sentença.
Olegário aprendera que a guerra não era como os filmes do Cine Éden em Barra Mansa. Não havia música de fundo, não havia o herói saindo ileso do meio da fumaça. A guerra era frio e lama e o som do obuseiro que você ouvia antes de sentir, e o silêncio depois que era pior do que o barulho. Era dormir com bota porque nunca se sabia. Era comer quando havia e não pensar em comida quando não havia.
Os americanos gostavam dele.
Gostavam da velocidade com que ele se movia no terreno, da maneira que ele rastejava na lama sem barulho, como se o corpo soubesse instintivamente o que a mente ainda estava calculando. Um sargento do Texas havia lhe dado o apelido de Shadow (sombra). Os alemães do outro lado, quando corria o rumor da infantaria brasileira, tinham um outro entendimento. Havia algo nos brasileiros que não seguia a lógica da guerra europeia. Uma disposição que parecia vir de um lugar que os manuais militares não cobriam.
José Amâncio estava sempre ao lado dele.
À noite, quando havia sossego suficiente, José Amâncio lia para ele as cartas que haviam chegado pelo correio de campanha. Muitas vezes atrasadas semanas, meses, chegando em lotes, fora de ordem. Olegário ouvia e reconstituía Ana Maria em sequência própria, montando uma cronologia afetiva que às vezes divergia do calendário real. Não importava. Cada carta era ela. Cada carta era Barra Mansa e a estação e o laço branco no cabelo.
A lata de biscoito havia sobrevivido à travessia do Atlântico. À noite dormia debaixo do cotovelo.
A carta do bolso estava gasta nas dobras. Olegário a abria às vezes. Não lia, porque não podia, porque as letras eram pequenas e a luz era ruim e porque, talvez, não precisasse ler. Sabia o que estava escrito. José Amâncio havia lido tantas vezes que as palavras de Ana Maria eram agora um território familiar, como o caminho entre a estação e a casa dela, que ele fazia de olhos fechados.
Eu sei que você vai voltar porque Deus não é capaz de tanta crueldade.
Olegário morreu numa tarde de fevereiro de 1945, numa encosta com nome que nenhum dos dois jamais havia ouvido.
Não foi no auge do combate. Foi na descida, quando o pior havia passado e o perigo parecia ter recuado. É sempre assim, os veteranos sabem, é no depois que a guerra cobra. Um tiro vindo de uma posição que havia sido dada como tomada e não estava. Um erro de informação. Olegário caiu para o lado, devagar, como quem se senta.
José Amâncio estava a três metros.
Chegou antes que o corpo tocasse o chão. Olegário estava vivo ainda. Por quanto tempo, José Amâncio sabia e não disse. Ficou segurando a mão dele. Não havia nada a fazer que os dois não soubessem. Na encosta, o barulho do combate se afastava como maré.
Olegário disse alguma coisa. José Amâncio se inclinou.
— Fala que vou voltar — disse Olegário. E depois disse o nome dela.
Ficou quieto. A mão afrouxou.
José Amâncio ficou ali por um tempo que não soube medir. Depois, devagar, abriu o bolso esquerdo da farda de Olegário e retirou a carta. O papel estava gasto, quase transparente nas dobras, com a fragilidade de coisa muito manuseada. Colocou de volta. Fechou o botão. Não havia nada que precisasse fazer com ela. Era dele. Estava no lugar certo.
Na encosta, com o barulho da guerra se afastando, José Amâncio ficou segurando a mão do amigo um pouco mais.
Em Barra Mansa, naquela mesma tarde, Ana Maria estava na calçada às dez horas. Esperando.
