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O Homem que Não Admitia Ser Corno

Não vamos usar nomes verdadeiros para não comprometer ninguém.
Comecemos, então, pelo homem que tudo sofreu até se dobrar inteiramente.

João Henrique — ou Joca, como o chamavam os amigos — era, no final dos anos 1980, um empresário respeitado em Barra Mansa. Casado havia mais de vinte e cinco anos, pai de dois rapazes e de uma moça de dezesseis, parecia ter conquistado tudo o que um homem de sua geração poderia desejar: estabilidade, reputação e família.

Mas já não sentia atração pela esposa. Sob o olhar dos outros, Fátima ainda era uma mulher bonita — “jeitosa”, diziam —, mas a rotina havia consumido o casamento. Apesar disso, Joca nunca deixava de “comparecer”. Morria de medo de ser corno.

— Coisa que não admito é ser corno! Jamais! Mato a Fátima e o amante! — repetia nas rodas de amigos, entre goles de cerveja e risadas cúmplices.
— Até admito que os meninos sejam gays. Mas que eu seja corno? Jamais!

Falava isso com certa segurança, porque sabia que os filhos adoravam mulheres. No fundo, era um machista à moda antiga: não suportaria ser traído, que os filhos fossem homossexuais, ou que a filha se casasse sem ser virgem.

Morava no bairro Verbo Divino e mantinha o escritório no centro. Nas horas vagas, gostava de tomar café numa padaria próxima. Foi ali que conheceu Cátia.

A moça — morena cor de “Sonho de Valsa”, corpo voluptuoso, pouco mais de vinte anos — havia começado a trabalhar ali naquela semana. Logo no primeiro dia, travou contato com aquele cliente que, para os outros, era um homem sério e reservado, mas para ela logo se desmanchou em elogios.

Cátia não se incomodou de imediato. Estava acostumada a gracejos.
Mas para João, algo aconteceu. Havia muito tempo não sentia o que estava sentindo. Parecia que suas partes não cabiam dentro das calças. Mudou hábitos. O cafezinho da manhã e da tarde virou pretexto para aparecer a qualquer hora. Passou a se arrumar mais, a usar perfume, a querer parecer mais jovem.

Nos fins de semana, também ia à padaria, só para vê-la. Já sabia onde morava, os dias de folga, os lugares que frequentava. Começou a rondar esses lugares em busca de “encontros fortuitos”.

Os gracejos cresceram e, com eles, o incômodo de Cátia. O cliente era amigo do dono da padaria e, pior, casado. Ela sabia que ceder a João traria problemas.

Mas os meses se passaram, e as investidas se tornaram insistentes: flores, bombons, convites. Quando conseguiu um novo emprego, num consultório do Edifício Benedictus, achou que poderia aceitar. João era bonito, rico, e estava completamente apaixonado.

Engataram um caso. Cátia era um furacão na cama — e João há muito não sentia aquilo. Sempre que podia, estava com ela. Montou-lhe um apartamento no Edifício Pio XII e mergulhou de cabeça na nova vida.

Quando o divórcio saiu, comprou uma casa no bairro Santa Rosa e colocou em nome dela. Estava perdidamente apaixonado.

Fátima, ainda que magoada, aceitou o fim com dignidade.
— Pode ficar tranquila, Fátima — disse João. — Nem vai parecer que saí de casa. Nada vai te faltar, nem pras crianças. Banco tudo: a casa, a faculdade, a pensão. Mas se eu souber que tem macho rondando você, acabou, ouviu?

Ela nada respondeu. Amava o marido, mas sabia que o perdera.

João passou a viver para Cátia. Levava-a para o Santa Helena Country Club, onde era sócio há mais de dez anos. Foi lá que acontecera o baile de debutante da filha. Num final de semana de verão, resolveu levá-la à piscina, “para refrescar e encontrar os amigos”.

Mas a ex-esposa e a filha estavam lá. Não houve cena. Fátima apenas se retirou.
As amigas dela, damas da sociedade barra-mansense, ficaram indignadas. Encheram os ouvidos dos maridos, que passaram a evitar João. A repercussão chegou ao presidente do clube:

— João, você sempre será bem-vindo aqui, mas, por favor, não traga mais sua namorada. Recebi ligações em casa sobre isso.

João ficou revoltado.
Há mais de dez anos era sócio do clube, mas agora se via expulso, como um pária. Decidiu se afastar de todos e viver apenas no círculo de Cátia. Os amigos dela tornaram-se seus amigos: jovens, barulhentos, festeiros. Todo fim de semana havia churrasco e som alto. As reclamações dos vizinhos eram constantes. Vários desses “novos amigos” lhe pediam dinheiro emprestado — e ele raramente negava.

Outro problema era o apetite sexual de Cátia. Quase vinte e cinco anos mais jovem, tinha energia de sobra, e ele, cada vez menos. Recorreu a afrodisíacos, energéticos, médicos. Nada resolvia. Passou a evitar a cama, ficando até tarde no escritório ou na sala, fingindo trabalhar.

Até que um dia, ao chegar em casa mais cedo, com um pacote de viagens para o Nordeste nas mãos, encontrou Cátia na cama com um de seus novos amigos — justamente o que mais lhe devia dinheiro.

O amante fugiu pedindo desculpas. João desabou em prantos.

O mais surpreendente, porém, foi a reação de Cátia.
Queria que ele saísse de casa. Dizia não suportar mais viver com um velho. A casa, afinal, estava em nome dela. João se revoltou, mas não podia fazer nada. Aceitou o erro de ter entregue tudo à amante.

Nas semanas seguintes, tentou reaproximar-se da ex-esposa, mas Fátima, ferida, foi firme:
— Não sou estepe de ninguém.

Procurou os antigos amigos. Todos o ouviram, alguns o consolaram, mas o julgamento silencioso era evidente. Em pouco tempo, toda a cidade sabia: João era corno — não da esposa fiel, mas da amante que sustentava.

O tempo, que dizem curar tudo, pregou-lhe uma peça. A cada dia longe de Cátia, mais crescia o desejo por ela. Até que o orgulho cedeu. Procurou-a de novo. Chorou, implorou, mandou presentes.

Cátia, endividada, resolveu ceder — mas com uma condição:
— Você volta, mas precisa aceitar que eu tenha outros amantes.

João hesitou. Chorou. Mas aceitou.

O homem que dizia nunca admitir ser corno terminou não só traído, mas submisso.
Tudo o que possuía — família, respeito, fortuna — entregou ao fogo de um desejo que confundiu com amor.

E assim, o velho Joca aprendeu, tarde demais, que o pior tipo de traição é aquela que a gente aceita.

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