Há alguns dias, numa mesa de padaria, duas mulheres discutiam sobre política (ou moda?). Uma dizia que Obama foi um estadista elegante; a outraretrucava que Trump parecia sempre mal-ajeitado, com aqueles ternos quadrados e a gravata que quase arrasta no chão. Mas a conversa logo deixou de ser sobre presidentes: virou sobre gente comum.
Percebi ali uma verdade incômoda: nós julgamos mais pela embalagem do que pelo conteúdo. O colega de trabalho que fala baixo, usa roupas alinhadas e sorri com educação pode cometer as mesmas injustiças do chefe grosseiro — mas será sempre lembrado como o “bom moço” do escritório. Já o que não domina o código da aparência, ou que fala de modo ríspido, carrega o rótulo de “vilão”, mesmo quando entrega resultados ou age com mais honestidade.
É assim também no condomínio, na escola dos filhos, na fila do banco. A mãe que comparece às reuniões bem-vestida e com voz doce raramente tem suas falhas lembradas. Já a vizinha de fala alta e expressão dura, ainda que se esforce igualmente, vira alvo de olhares atravessados. A forma suaviza ou agrava a substância.
Obama de terno slim e Trump de gravata comprida são apenas metáforas de um teatro que todos encenamos diariamente. No fundo, não é só a política que se guia por estética: é a vida social inteira. Talvez fosse o caso de nos perguntarmos se não estamos confundindo demais o corte do terno com o caráter de quem o veste.
