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Política do Escárnio: O Riso que Devorou a Pólis

O ano era 2015. Eu estava sentado em casa, dividindo a atenção entre duas telas. Na televisão, o Congresso Nacional transmitia os tumultuados debates que antecederam o impeachment de Dilma Rousseff. Mas o espetáculo real não estava ali; pulsava no vidro do meu celular. Nas redes sociais, o embate político havia adquirido uma linguagem nova. Vídeos virais colocavam óculos pixelados de Thug Life em políticos; nas ruas, presidentes eram transformados em bonecos infláveis gigantes; e figuras até então marginais no debate nacional ganhavam visibilidade embaladas por uma arma de propagação brutal: o meme. O escárnio havia invadido o centro nervoso da vida pública.

Foi nesse clima de efervescência que comecei a ler, quase por acaso, Da Ditadura à Democracia, de Gene Sharp. Até então eu nutria a visão clássica de que a política era, ou deveria ser, o terreno solene da argumentação racional. A sátira me parecia uma ferramenta de cartunistas, não uma tática de disputa política. Mas Sharp descrevia com frieza um repertório de estratégias capazes de corroer regimes autoritários e entre elas aparecia o deboche, usado para desestabilizar a autoridade simbólica do poder. De repente, a teoria iluminou o que eu via na prática: aquilo que parecia apenas humor de internet era, na verdade, uma nova gramática de combate político. Sob os meus olhos nascia aquilo que passei a chamar de Política do Escárnio.

A compreensão teórica teve um efeito inesperado em mim. Em vez de apenas observar o fenômeno, acabei descendo para a arena. Eu, historicamente avesso à espetacularização do debate, passei a usar a mesma munição retórica nas redes. Compartilhava montagens, respondia com ironia ácida e comemorava quando uma caricatura bem colocada desestabilizava um adversário. Havia uma euforia difícil de negar; uma embriaguez quase tribal ao ver o oponente intelectual reduzido a meme. Ríamos juntos, celebrando cada golpe que fazia vacilar a moral do outro lado.

Mas a Política do Escárnio cobra um pedágio moral alto de quem a pratica. Com o tempo, o riso começou a produzir um cansaço estranho. Passei a observar minhas próprias reações e percebi que algo havia mudado no objetivo da conversa pública. Eu já não queria iluminar um conceito, provar um ponto ou chegar a alguma síntese. O impulso dominante era outro: produzir constrangimento, expor o adversário ao ridículo, arrancar aplausos da própria tribo. Não queríamos mais vencer um argumento; queríamos vencer a pessoa.

Essa pequena mudança de objetivo altera profundamente o ambiente político. Quando a humilhação substitui a argumentação como forma dominante de interação, o debate deixa de ser um espaço de busca por verdade ou entendimento. Ele se transforma em um espetáculo de degradação pública. Em vez de cidadãos tentando persuadir uns aos outros, surgem torcidas disputando quem consegue impor a vergonha mais devastadora ao rival.

É nesse ponto que o fenômeno deixa de ser apenas um hábito desagradável de internet e se torna um problema estrutural. O debate público é o mecanismo que permite que conflitos políticos sejam resolvidos sem violência física. Para que ele funcione, existe uma condição mínima: os adversários precisam reconhecer uns aos outros como interlocutores legítimos. A Política do Escárnio destrói exatamente essa condição. Ao transformar o outro em caricatura permanente, ela dissolve a dignidade necessária para que a conversa exista. E quando a dignidade desaparece, o debate deixa de ser possível.

O resultado é um paradoxo inquietante. A sátira sempre foi uma arma legítima contra tiranias, porque ridicularizar o poder pode quebrar o encanto da autoridade. Mas, quando esse mesmo mecanismo se torna o idioma dominante dentro de uma democracia, ele começa a corroer o próprio terreno que torna o dissenso possível. O escárnio deixa de ser uma ferramenta ocasional e passa a ser a lógica inteira da disputa política.

Hoje, meu afastamento das trincheiras digitais não é uma rendição, mas uma recusa consciente dessa lógica. Prefiro expor meus argumentos no ritmo mais lento dos textos longos, onde ainda existe espaço para nuance, dúvida e raciocínio. A reconstrução de um espaço público saudável exige exatamente isso: tempo, sobriedade e respeito à dignidade de quem pensa diferente.

Entramos na última década acreditando que o riso seria a arma mais eficaz de mobilização política. Talvez ainda seja. O problema é que uma sociedade que aprende apenas a rir do inimigo logo descobre que perdeu a capacidade de conversar com qualquer pessoa.

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