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O Sabor do Propósito

O escritor moçambicano Mia Couto disse certa vez que “cozinhar é um modo de amar os outros”. Concordo plenamente. Cada prato que preparo é mais do que comida: é gesto de afeto. Talvez por isso amigos e familiares sempre me perguntem por que não transformo esse hobby em negócio. Costumo responder com ironia: “Trabalhe com o que ama e nunca mais você vai amar o que você ama.”

A frase, embora bem-humorada, toca em uma ferida aberta do nosso tempo: a dificuldade de conciliar paixão e trabalho. Afinal, quantas vezes a rotina engole aquilo que deveria ser prazeroso? O que era amor vira obrigação, o que era arte se torna fardo.

Vivemos, muitas vezes, presos a um ciclo cruel: oito horas de sono, dez horas de labuta sem brilho, seis horas de ansiedade pela chegada do fim de semana. É uma engrenagem que vai triturando aos poucos a vitalidade, até que o trabalho, em vez de ser espaço de construção, vira território de sobrevivência.

É verdade que, para nós homens, esse fardo costuma ser mais leve. A ausência histórica da dupla jornada — o peso de conciliar carreira e responsabilidades domésticas — nos deu certa vantagem. Enquanto muitas mulheres precisaram dividir suas forças em mil papéis, bastava a nós homens encontrar propósito na vida familiar ou no simples sustento.

Mas propósito não é luxo feminino ou masculino: é necessidade humana. Sem ele, o trabalho perde sabor. Nem salário, nem status, nem reconhecimento bastam quando falta um sentido maior.

Talvez aí resida a grande lição: a vida, como a cozinha, precisa de tempero. Um prato sem sal é apenas alimento, mas não é experiência. Do mesmo modo, uma carreira sem propósito pode até sustentar, mas não alimenta a alma.

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