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Capítulo 2 – O País em Combustão

Rio de Janeiro, 18 de agosto de 1930 – 14h30

O caixão atravessava a Avenida Rio Branco como uma flecha negra cravada no coração da República. Uma multidão estimada em trezentas mil pessoas – mais de um quarto da população da capital – seguia o cortejo fúnebre de João Pessoa. Mulheres vestidas de preto gritavam como carpideiras profissionais. Homens de terno erguiam os punhos. Estudantes carregavam faixas com dizeres incendiários: VINGANÇA! ABAIXO A REPÚBLICA DOS LADRÕES! MORRA WASHINGTON LUÍS!

O corpo do presidente morto havia sido enviado ao Rio de Janeiro três semanas antes, embarcado do Recife em 31 de julho. Desde então, a cidade fervia. Cada dia de atraso no enterro era calculado. Cada discurso, ensaiado. Cada lágrima, política.

Porto Alegre, Palácio Piratini, 2 de setembro de 1930 – 23h45

A sala estava mergulhada em penumbra, iluminada apenas por uma lâmpada verde sobre a mesa de mogno. Fumaça de charuto pairava no ar como nevoeiro espesso. Getúlio Vargas, presidente do Rio Grande do Sul, estudava um mapa do Brasil desdobrado sobre a mesa, pequenas bandeiras vermelhas marcando posições estratégicas.

– As tropas federais estão concentradas aqui, aqui e aqui – disse o tenente-coronel Pedro Aurélio de Góis Monteiro, apontando para o mapa com um lápis. – Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia. Washington Luís confia que nós não atacaremos. Ele acredita que o funeral de João Pessoa foi apenas teatro.

– Foi teatro – respondeu Getúlio, sem tirar os olhos do mapa. Sua voz era calma, quase entediada. – Teatro necessário.

Oswaldo Aranha, secretário do Interior do Rio Grande do Sul e articulador-chefe da conspiração, caminhou até a janela. Através das cortinas grossas, podia-se ver a sentinela fazendo sua ronda no jardim do palácio. Aranha esperou o soldado desaparecer antes de falar.

– Os tenentes estão impacientes. Juarez Távora me envia telegramas diários do Nordeste. Diz que o povo está pronto. Que os coronéis locais já garantiram neutralidade. Que esperamos demais.

– Juarez sempre foi impaciente – murmurou Getúlio. – Por isso nunca será presidente.

Góis Monteiro esboçou um sorriso. Aranha não.

– Temos um problema em São Paulo – disse Aranha. – O Partido Democrático está conosco, mas Miguel Costa e João Alberto querem garantias. Querem saber qual será o papel deles depois. Querem poder.

– Todos querem poder – disse Getúlio, finalmente levantando os olhos do mapa. – A diferença é que alguns merecem.

Ele caminhou até a janela, mãos nas costas, postura de quem está acostumado a esperar. Durante quinze segundos, ninguém falou. O relógio na parede marcava os segundos com tiques metálicos.

– Quando? – perguntou Aranha.

– Três de outubro – respondeu Getúlio. – Dezessete horas e trinta minutos. Simultâneo. Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraíba. Três frentes. Um país.

– E se Washington Luís resistir? – perguntou Góis Monteiro.

Getúlio virou-se. Seus olhos pequenos e astutos fixaram-se no militar.

– Ele vai resistir. Por isso trouxe você, Góis. Para garantir que a resistência seja… breve.

O silêncio que se seguiu tinha peso.

– Durante a Revolução – continuou Getúlio, a voz agora mais baixa –, faço um jogo duplo. De dia, mantenho a ordem para o governo federal. À noite, introduzo os conspiradores no Palácio. Washington Luís me considera um aliado moderado. Um possível mediador. Ele está errado.

Aranha riu, um som sem alegria.

– E Prestes? – perguntou Góis Monteiro. – Luís Carlos ainda se recusa a participar?

O nome de Prestes – o lendário comandante da Coluna que percorrera vinte e quatro mil quilômetros em dois anos desafiando a República – pairou no ar como fantasma.

– Prestes é comunista agora – disse Getúlio, com desdém. – Vive em Buenos Aires sonhando com revolução agrária. Ele não entende que revolução, a verdadeira, se faz no Palácio do Catete, não no sertão.

Ele voltou para o mapa.

– Temos Juarez Távora no Nordeste, João Alberto em São Paulo, Cordeiro de Farias aqui no Sul, Flores da Cunha mobilizando as brigadas gaúchas. Temos o Partido Democrático, temos os tenentes, temos o clero. – Vargas fez uma pausa. – E temos o sangue de João Pessoa.

– Trinta dias – disse Aranha. – Um mês até começarmos.

– Um mês – confirmou Getúlio. – E depois, o Brasil muda. Ou nós mudamos o Brasil. Dá no mesmo.

Belo Horizonte, Palácio da Liberdade, 10 de setembro de 1930 – 19h00

O presidente de Minas Gerais, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, servia uísque escocês em copos de cristal. Seus convidados – todos homens, todos poderosos, todos conspiradores – aceitaram em silêncio.

– Washington Luís me telefonou ontem – disse Antônio Carlos, sentando-se pesadamente em sua poltrona de couro. – Perguntou se eu tinha notícias sobre movimentações suspeitas. Disse que confia em Minas. Que sempre confiou em Minas.

– O que respondeu? – perguntou Francisco Campos, jovem secretário do Interior, olhos brilhantes de ambição.

– Que Minas é sempre leal – respondeu Antônio Carlos, com um sorriso amargo. – E que a agitação nos jornais é exagero. Que o povo está calmo.

 

– Mentira – disse Virgílio de Melo Franco, diplomata e conspirador, acendendo um cigarro. – O povo não está calmo. O povo está faminto. A crise do café destruiu o interior. Os coronéis estão inquietos. E Washington Luís finge que nada acontece.

– Pior – interveio Campos. – Ele sabe que algo acontece. Simplesmente não acredita que acontecerá com ele.

Antônio Carlos bebeu seu uísque em um gole só.

– São Paulo nos traiu – disse ele, a voz carregada de ressentimento. – Café com leite. Essa era a regra. Um presidente paulista, um presidente mineiro. Sempre. Bernardes foi mineiro, Washington Luís é paulista, o próximo deveria ser mineiro. Mas não. Júlio Prestes. Outro paulista. São Paulo quer tudo.

– Eles querem – concordou Virgílio. – E não terão.

Antônio Carlos caminhou até a janela. Belo Horizonte, a capital planejada, estendia-se sob a noite com suas ruas geométricas e prédios imponentes. Uma cidade moderna para um estado antigo. Uma contradição, como tudo em Minas.

– As tropas? – perguntou ele, sem se virar.

– Prontas – respondeu Campos. – O 12º Regimento de Infantaria resiste, mas será neutralizado. O resto está conosco. Cinco mil homens mobilizados. Mais chegam do interior diariamente.

– Armas?

– Suficientes. Vargas enviou contrabando via Argentina. Também compramos de atravessadores em Santos. É caro, mas temos dinheiro.

Antônio Carlos virou-se.

– E depois? Quando Washington Luís cair, quando Júlio Prestes for impedido de tomar posse, quando Getúlio entrar no Catete… o que acontece com Minas?

A pergunta ficou suspensa. Todos sabiam a resposta. Minas teria traído a República do Café com Leite para salvar seus interesses. Mas Getúlio Vargas não era mineiro. Era gaúcho. E gaúchos não devolviam favores, cobravam juros.

– Cuidaremos de Minas quando o momento chegar – disse Virgílio, sem convicção. – Por enquanto, cuidamos de derrubar Washington Luís.

Antônio Carlos assentiu, mas seus olhos diziam outra coisa. Ele não confiava em Getúlio Vargas. Mas confiar não era necessário. Ganhar era.

Recife, Casa de Detenção, 15 de setembro de 1930 – 03h00

João Duarte Dantas não conseguia dormir.

Fazia quase dois meses desde o assassinato, desde os disparos na Confeitaria Glória, desde o sangue de João Pessoa manchando o mármore. Fazia quase dois meses que ele esperava pela morte.

A cela era pequena, úmida, cheirando a mofo e urina. Ratos corriam pelas paredes. Através das grades, podia-se ouvir os sons noturnos de Recife – latidos distantes, gritos de bêbados, o apito ocasional de um trem.

Dantas tocou a cicatriz na têmpora onde a bala de Antônio o atingira. Quase o matara. Quase. O ferimento fora superficial, o choque traumático severo, mas ele sobrevivera. Para quê? Para esperar em uma cela a vingança que sabia estar vindo?

 

Passos ecoaram no corredor. Botas militares em piso de pedra. Muitas botas. Dantas sentou-se no catre. Seu coração acelerou.

A porta da cela abriu-se com estrondo metálico. Oito homens entraram. Usavam uniformes militares, mas os rostos estavam cobertos por lenços. Cheiravam a pólvora e cachaça.

– João Duarte Dantas – disse o primeiro, voz rouca. – Em nome da Revolução, você foi julgado e condenado.

– Que revolução? – perguntou Dantas, a voz surpreendentemente firme. – A Revolução ainda nem começou.

– Começou quando você matou João Pessoa – respondeu o homem. – Você deu à Aliança Liberal o mártir que precisava. Agora dá a ela justiça.

Dantas riu, um som seco e amargo.

– Justiça? Vocês sabem que matei por honra. Sabem das cartas, da humilhação, de Anaíde. Sabem que João Pessoa era tão corrupto quanto Washington Luís. Mas precisam do mito. Precisam do herói.

– Cale a boca – disse outro homem, avançando.

– Então me matem – disse Dantas, ficando de pé. – Mas saibam: vocês não matam um assassino. Matam uma testemunha. Porque quando esse país descobrir a verdade sobre João Pessoa, sobre as cartas roubadas, sobre a campanha de difamação…

A faca entrou nas suas costas antes que pudesse terminar. Depois veio outra. E outra. E outra.

Quando o corpo de João Duarte Dantas caiu no chão da cela, tinha oito ferimentos. A versão oficial, dias depois, seria suicídio. Ninguém acreditaria. Ninguém precisava. Os oito homens saíram na madrugada, silenciosos como entraram.

No dia seguinte, o jornal Diário de Pernambuco publicaria: ASSASSINO DE JOÃO PESSOA ENCONTRADO MORTO.

João Pessoa (antiga Cidade da Paraíba), 20 de setembro de 1930 – 16h00

O governador interino da Paraíba, Álvaro de Carvalho, olhava pela janela do Palácio do Governo para as ruas abaixo. Multidões se concentravam desde manhã. Havia faixas, gritos, promessas de vingança. A cidade inteira usava braçadeiras negras em homenagem a João Pessoa.

Quatro dias antes, no dia 16 de setembro, o governador assinara decreto mudando o nome da capital. Não seria mais Cidade da Paraíba. Seria João Pessoa. Um monumento vivo. Um lembrete permanente.

– As tropas federais chegam amanhã – disse José Américo de Almeida, secretário da Segurança, entrando na sala. – Washington Luís enviou reforços. Diz que quer garantir a ordem.

– Ordem – riu Álvaro, amargamente. – Ele quer garantir controle. Ele sabe que estamos com Vargas.

– E estamos? – perguntou José Américo.

Álvaro virou-se.

– A Paraíba perdeu seu presidente. Foi humilhada. João Pessoa foi assassinado em Recife, não aqui, mas a responsabilidade moral é de Washington Luís. Ele permitiu que as oligarquias do café pisoteassem os estados menores. Ele quebrou a aliança. – Fez uma pausa. – Sim, estamos com Vargas. Não porque confiamos nele. Mas porque não temos escolha.

José Américo assentiu.

– Juarez Távora está mobilizando o Nordeste. Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba. Oito governos cairão em uma semana quando começar. Os coronéis locais já foram sondados. Metade está conosco. A outra metade é neutra. Ninguém quer defender Washington Luís.

– E as armas?

– Contrabandeadas via portos. Vargas tem dinheiro e contatos. A Coluna Prestes, em 1925, ensinou aos tenentes como mover material sem ser detectado. Estamos prontos.

Álvaro caminhou até sua mesa e abriu uma gaveta. Dentro, um revólver Smith & Wesson, calibre .38. O mesmo modelo usado por João Dantas. Ele o pegou, sentiu o peso.

– Doze dias – disse ele. – Doze dias até três de outubro. Acha que Washington Luís suspeita?

– Suspeita – respondeu José Américo. – Mas não acredita. Ele é como todos os oligarcas. Acha que o mundo não muda porque ele não quer que mude.

Álvaro guardou o revólver.

– O mundo sempre muda – disse ele. – A questão é: somos nós que mudamos o mundo, ou o mundo que nos muda?

São Paulo, Escritório do Partido Democrático, 25 de setembro de 1930 – 21h00

Francisco Morato, líder do Partido Democrático de São Paulo, estava cansado. Sessenta e dois anos, advogado brilhante, político experiente, mas cansado. A reunião com João Alberto Lins de Barros e Miguel Costa se arrastava há três horas.

– Não confiamos em Vargas – dizia Miguel Costa, o ex-comandante da Coluna Prestes, agora reformado e conspirador ativo. – Ele promete reforma. Promete justiça eleitoral. Promete fim das oligarquias. Mas o que fará quando sentar no Catete? Criará sua própria oligarquia.

– Provavelmente – concordou Morato. – Mas o que temos agora? A oligarquia paulista do café. Júlio Prestes é marionete de Washington Luís. São Paulo governa para São Paulo. O resto do país? Irrelevante.

– E você acha que com Vargas será diferente? – perguntou João Alberto, o jovem tenente transformado em político. – Ele é gaúcho. Rio Grande do Sul quer poder tanto quanto São Paulo.

Morato suspirou.

– Não se trata de confiar em Vargas. Trata-se de quebrar o PRP. O Partido Republicano Paulista domina São Paulo desde 1889. Quarenta anos. O Partido Democrático foi criado para ser alternativa. Mas enquanto o PRP controlar a máquina eleitoral, somos nada. Vargas nos dá chance.

– Em troca de quê? – insistiu Miguel Costa.

– Em troca de São Paulo apoiar a Revolução – respondeu Morato. – Discretamente. Sem confronto direto. Deixando as tropas revolucionárias entrarem quando chegarem. E depois… depois negociamos.

Miguel Costa e João Alberto trocaram olhares.

– Os tenentes querem mais do que negociação – disse João Alberto. – Querem transformação. Legislação trabalhista. Educação pública. Fim do voto de cabresto. Não queremos trocar uma oligarquia por outra.

– Então por que apoiam Vargas? – perguntou Morato.

A resposta demorou. Porque todos na sala sabiam: apoiavam Vargas porque a alternativa era continuar com Washington Luís. E continuar com Washington Luís era assistir o país afundar enquanto as oligarquias do café brindavam com champanhe francês.

– Apoiamos porque não há outro caminho – disse finalmente Miguel Costa. – Mas se Vargas nos trair, se transformar a Revolução em farsa, então haverá outra revolução. E dessa vez, não haverá compromisso com oligarcas.

Morato acenou com a cabeça.

– Entendido. Oito dias até começar. São Paulo estará pronto?

– Estará – confirmou João Alberto. – Mas rezem para que valha a pena.

Quando os dois militares saíram, Francisco Morato ficou sozinho em seu escritório. Pela janela, via a Praça da República iluminada por lampiões a gás. Bondes passavam tilintando. O mundo parecia normal. Mas não era.

Em oito dias, tudo explodiria.

E ele, Francisco Morato, líder do Partido Democrático, ajudaria a acender o rastilho.

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 28 de setembro de 1930 – 10h00

O presidente Washington Luís estava sentado atrás de sua enorme mesa de jacarandá, lendo relatórios militares. Ao seu lado, o ministro da Guerra, general Nestor Sezefredo dos Passos, aguardava em silêncio.

– Movimentações em Porto Alegre – lia Washington Luís em voz alta. – Tropas gaúchas mobilizadas. Compras suspeitas de armamento. Reuniões noturnas no Palácio Piratini. – Ele levantou os olhos. – E você me diz que não há razão para preocupação?

– Digo que Vargas está posturando – respondeu Sezefredo. – Ele sempre postura. É gaúcho. Fazem teatrinho. Mas quando chega a hora, recuam.

Washington Luís não pareceu convencido.

– E Minas? Antônio Carlos garante lealdade, mas os relatórios falam em tropas mobilizadas, em armas contrabandeadas.

 

– Antônio Carlos está ressentido – admitiu Sezefredo. – Ele queria que Minas indicasse o sucessor. Mas o senhor escolheu Júlio Prestes, e fez bem. São Paulo é o coração econômico do Brasil. Café é o que mantém o país funcionando. Minas entenderá eventualmente.

– E a Paraíba?

Silêncio.

– A Paraíba nos odeia – disse finalmente Sezefredo. – João Pessoa era deles. Foi assassinado. Por um homem ligado aos coronéis que nos são leais. A Aliança Liberal tranformou o caso em circo. O funeral foi um espetáculo político. Agora a Paraíba quer vingança.

– Vingança contra quem? – explodiu Washington Luís. – Eu não matei João Pessoa! Foi João Dantas, em crime passional! As cartas provam!

– As cartas provam que João Pessoa era humano – disse Sezefredo, cuidadosamente. – Mas o povo não quer humanidade. Quer mártir. E Vargas entregou um.

Washington Luís ficou de pé, caminhou até a janela. O Palácio do Catete, com seus jardins bem-cuidados, parecia uma ilha de serenidade em meio ao caos urbano do Rio.

– Sessenta anos – disse ele, quase para si mesmo. – Advogado, prefeito de São Paulo, governador de São Paulo, presidente da República. Construí estradas. Modernizei o país. Criei a Polícia das Estradas. E agora… conspiram contra mim.

– Senhor presidente – disse Sezefredo, ficando de pé. – As Forças Armadas são leais. Dezessete estados são leais. São Paulo, Rio, Bahia, Pará. Somos mais fortes que a Aliança Liberal. Se Vargas tentar algo, esmagaremos.

Washington Luís virou-se.

– E se não for só Vargas? E se for metade do país?

– Então – disse Sezefredo, a voz agora mais dura – lutaremos. E venceremos. Porque somos o governo legítimo. Porque Júlio Prestes venceu as eleições. Porque a lei está do nosso lado.

Washington Luís olhou para seu ministro da Guerra. Homem leal, soldado competente, mas cego. Cego para a realidade política que fervilhava nas ruas, nos quartéis, nos palácios.

– Deus queira – murmurou Washington Luís.

Mas não acreditava mais em Deus. E cada vez menos, acreditava na vitória.

Porto Alegre, Palácio Piratini, 3 de outubro de 1930 – 17h25

Getúlio Vargas abriu seu diário pela primeira vez. A capa era de couro marrom, as páginas amareladas pelo tempo que ainda não havia passado. Ele molhou a pena no tinteiro, hesitou por um segundo – apenas um – e então escreveu:

“3 de outubro de 1930. Cinco minutos antes do início da revolução.”

Sua mão estava firme. Os olhos, calmos. Ao redor, o Palácio Piratini fervilhava com movimentação militar. Oficiais entravam e saíam com telegramas. Armas eram distribuídas. Tropas formavam-se nos jardins. Mas ali, naquela sala silenciosa, Getúlio escrevia como quem assina um contrato com a história.

“Em caso de fracasso, pelas nossas leis, estou sujeito a pena de até 20 anos de prisão e banimento. Mas não haverá fracasso. O Brasil mudará hoje. E eu com ele.”

Ele fechou o diário, guardou-o na gaveta, e caminhou até a janela. Às 17h30, exatamente, os primeiros disparos ecoaram sobre Porto Alegre. A Revolução de 1930 começara.

Porto Alegre, Quartel da 3ª Região Militar, 3 de outubro de 1930 – 17h30

O general Gil Dias de Almeida, comandante da 3ª Região Militar, estava jantando quando ouviu as explosões. Ele largou o garfo, ficou de pé, caminhou até a janela. Do lado de fora, soldados revolucionários cercavam o quartel. Oswaldo Aranha e Flores da Cunha comandavam o ataque pessoalmente. Metralhadoras disparavam contra as janelas. Granadas explodiam nos muros. O general olhou ao redor. Seus oficiais o observavam, esperando ordens.

– Resistimos? – perguntou o capitão Moreira, mão no revólver.

Gil Dias pensou na conversa que tivera com Getúlio Vargas dias antes. Vargas perguntara, educadamente, se ele resistiria. O general respondera que sim. Que queimaria sua biblioteca se Minas Gerais entrasse em processo revolucionário.

 

Agora, com o quartel cercado, com os disparos atravessando as paredes, com a morte batendo à porta, Gil Dias lembrou-se de Washington Luís dizendo a mesma coisa: Minas nunca fará revolução.

Ambos estavam errados.

– Não – disse o general, tirando a farda. – Não resistimos. Entreguem o quartel. A guerra já está perdida.

Às 18h00, o quartel-general da 3ª Região Militar estava sob controle revolucionário. Três soldados legalistas morreram nos primeiros disparos. Seriam os primeiros de muitos.

Ao amanhecer do dia 4 de outubro, todos os quartéis de Porto Alegre estavam tomados. A capital do Rio Grande do Sul estava dominada. O estado inteiro, sob controle dos insurgentes. E Getúlio Vargas anotava em seu diário:

“A revolução triunfou em Porto Alegre. Agora, marchamos para o Rio de Janeiro.”

Paraíba, Quartel do 22º Batalhão de Caçadores, 4 de outubro de 1930 – 00h30

Houve um erro. Juarez Távora enviava telegramas quinzenais a Porto Alegre, em código, sugerindo datas convenientes para o início da revolução. As datas coincidiam com os dias em que a companhia do capitão Juraci Magalhães estava de prontidão – a única unidade dentro do 22º BC onde havia organização verdadeiramente revolucionária.

Távora recebera telegrama do Sul dizendo que a revolução eclodiria no dia 3 de outubro. Respondeu, sem usar as palavras “movimento” ou “revolução”, que estava pronto e iniciaria a marcha em direção a Recife na madrugada do dia seguinte.

Os conspiradores no Sul entenderam que Juarez deflagraria a revolução às 17h30 do dia 3, simultaneamente com o Sul e Minas. Mas Juarez planejava iniciar às 00h30 do dia 4. O engano quase foi fatal.

 

Quando os telegramas anunciando o início da revolução no Rio Grande do Sul e Minas Gerais chegaram à Paraíba, o oficial de dia – tenente Agildo Barata – interceptou tudo. Percebeu o erro. Percebeu que as tropas governistas já estavam sendo mobilizadas. Não havia tempo para esperar ordens.

Às 00h30 da madrugada, Barata e Juraci Magalhães atacaram o 22º BC, onde estava o general Alberto Lavenère Wanderley, comandante da 7ª Região Militar. O ataque foi brutal e rápido. O general morreu durante as primeiras ações, junto com o tenente Paulo Lobo e dois ajudantes de ordens. Nos combates, foi morto também o coronel Pedro Ângelo Correia.

Mas às 05h00, a capital da Paraíba estava sob controle revolucionário. E Juarez Távora, lendo os telegramas atrasados, murmurou para si mesmo:

– Erros de comunicação ganham guerras. Ou perdem. Tivemos sorte.

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Belo Horizonte, Quartel do 12º Regimento de Infantaria, 3 de outubro de 1930 – 18h00

Em Minas Gerais, a revolução foi diferente. O presidente Olegário Maciel – sucessor de Antônio Carlos – já estava comprometido com o movimento. O jornal oficial do estado, O Minas Gerais, publicou, no próprio dia 3 de outubro, um manifesto conclamando o povo a apoiar a insurreição. Mas o 12º Regimento de Infantaria resistiu.

Tropas legalistas, comandadas por oficiais fiéis a Washington Luís, cercaram o quartel e se prepararam para defender a capital. Durante quatro dias, houve combates nas ruas de Belo Horizonte. Dezesseis soldados morreram. Centenas ficaram feridos.

No final, acuados e sem provisões, os legalistas se renderam. Francisco Campos, secretário do Interior, caminhou entre os corpos nas ruas da capital e pensou: Isto é apenas o começo. E estava certo.

 

Recife, Quartel do 21º Batalhão de Caçadores, 4 de outubro de 1930 – 02h00

O levante em Recife foi o mais difícil. Quando os revolucionários atacaram nas primeiras horas da madrugada, o comando das tropas do governo já estava alertado. A resistência foi feroz. Cento e cinquenta homens morreram nos primeiros combates.

Juarez Távora, chegando de João Pessoa, percebeu que seria inútil insistir na tomada do quartel do 21º BC. Foi então ao encontro dos jovens do 33º Tiro de Guerra, dirigidos pelos sargentos Eli Coutinho e Nélson, e pediu ajuda.

Junto de Afonso de Albuquerque Lima, procurou o capitão de polícia Muniz Faria e ordenou-lhe que seguisse para o quartel da Soledade para reforçar os revolucionários.

Em 8 de outubro, depois de quatro dias de combates sangrentos, Recife caiu. O governo de Pernambuco foi derrubado. E o “Vice-Rei do Norte”, como Juarez Távora ficaria conhecido, telegrafou para Vargas:

“O Nordeste é nosso. Marchamos para a Bahia.”

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 10 de outubro de 1930 – 14h00

Washington Luís lia os relatórios militares com mãos trêmulas. Porto Alegre: tomada. Paraíba: tomada. Minas Gerais: insurreta. Pernambuco: caída. Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí: todos sob controle revolucionário.

Em meados de outubro, a revolução dominava metade do país. Tropas mineiras e gaúchas marchavam para o Rio de Janeiro. Getúlio Vargas aguardava em Curitiba, coordenando os movimentos.

E Washington Luís – o presidente que prometera modernizar o Brasil, que construíra estradas, que defendera a ortodoxia econômica – estava cercado.

– Senhor presidente – disse o general Nestor Sezefredo dos Passos, ministro da Guerra. – Precisamos negociar. As Forças Armadas estão divididas. Metade dos oficiais simpatiza com os tenentes. Não temos condições de resistir.

– Negociar? – explodiu Washington Luís. – Negociar com insurrectos? Com traidores?

– Negociar com a realidade – respondeu Sezefredo, cansado. – A alternativa é um banho de sangue. E você sabe que perderemos.

Washington Luís virou-se para a janela. Os jardins do Catete estavam vazios. As sentinelas, nervosas. A cidade inteira esperava o inevitável.

– Convocarei todos os reservistas – disse ele, a voz agora baixa. – Mobilizarei até o último homem. Se eles querem guerra, terão guerra.

Mas era tarde demais. E Washington Luís sabia.

Ponta Grossa, Paraná, 23 de outubro de 1930 – 21h00

Getúlio Vargas estava em Ponta Grossa, junto com o estado-maior revolucionário, quando as notícias desencontradas começaram a chegar do Rio de Janeiro.

– Movimento militar na capital – disse Oswaldo Aranha, lendo o telegrama. – Generais cercaram o Palácio Guanabara. Washington Luís está isolado. Góis Monteiro sorriu. Mas Getúlio não.

– Que generais?

– Tasso Fragoso, Mena Barreto e o almirante Isaías de Noronha.

Getúlio ficou em pé.

– Enviamos emissários. Em setembro. Para garantir que, se Washington Luís caísse antes de eu chegar ao Rio, o poder não cairia nas mãos de outros. Eles prometeram.

– E se quebrarem a promessa? – perguntou Aranha.

– Então – disse Getúlio, calmamente – continuamos marchando. E tomamos o Rio à força.

Ele caminhou até o mapa desdobrado sobre a mesa. A distância entre Ponta Grossa e Rio de Janeiro era de mil quilômetros. As tropas revolucionárias estavam cansadas, mas determinadas. São Paulo resistia, mas fracamente. A batalha de Itararé – que seria a maior e mais sangrenta da revolução – estava planejada para o dia seguinte. Mas não seria necessária. Porque no Rio de Janeiro, naquele exato momento, o destino de Washington Luís estava sendo selado.

Rio de Janeiro, Palácio Guanabara, 24 de outubro de 1930 – 10h00

Os generais Augusto Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto, junto com o almirante José Isaías de Noronha, subiram as escadas do Palácio Guanabara com botas que ecoavam como condenação.

Washington Luís os esperava na sala de audiências, de pé, trajando terno impecável. Atrás dele, dois seguranças. Ao redor, o silêncio pesado de uma execução.

– Senhor presidente – disse Tasso Fragoso, a voz formal. – As Forças Armadas, representando o sentimento geral da Nação, exigem sua renúncia.

– Renúncia? – Washington Luís riu, um som seco. – Fui eleito constitucionalmente. Júlio Prestes foi eleito constitucionalmente. Vocês são traidores.

– Somos salvadores – corrigiu Mena Barreto. – O país está em guerra civil. Metade dos estados está em rebelião. Continuar seria banho de sangue.

 

– Então que haja sangue! – gritou Washington Luís. – Mas eu não renunciarei. Só sairei daqui preso ou morto.

Os três militares trocaram olhares.

– Que assim seja – disse Tasso Fragoso.

Ele fez um gesto. Soldados entraram na sala. Washington Luís não resistiu. Simplesmente ficou ali, de pé, enquanto o cercavam.

– Em nome das Forças Armadas – disse Tasso Fragoso –, constituímos uma Junta Governativa Provisória. O senhor está deposto. Júlio Prestes está impedido de tomar posse. E Getúlio Vargas será reconhecido como chefe do Governo Provisório.

Washington Luís olhou para os três homens que acabavam de destronar um presidente legítimo, encerrar a República do Café com Leite, e entregar o Brasil a um ditador.

– Vocês não sabem o que estão fazendo – disse ele. – Getúlio Vargas não é salvador. É oportunista. E vocês serão esquecidos pela história enquanto ele será lembrado.

– Talvez – concordou Tasso Fragoso. – Mas a história é escrita pelos vencedores.

Washington Luís foi conduzido ao Forte de Copacabana, onde ficaria preso até novembro. O cardeal Dom Sebastião Leme intercedeu para evitar violência. Júlio Prestes, o presidente eleito que jamais tomaria posse, pediu asilo ao consulado britânico.

E a Junta Governativa Provisória – composta por Tasso Fragoso, Mena Barreto e Isaías de Noronha – assumiu o poder. Por dez dias, os três militares governaram o Brasil, despachando decretos, nomeando ministros, desincorporando reservistas, tentando desesperadamente evitar que Getúlio Vargas tomasse o poder à força. A revolução tinha seu momento. E Vargas, seu destino.

Rio de Janeiro, Estação Central do Brasil, 31 de outubro de 1930 – 15h00

O trem chegou envolto em fumaça e glória. Getúlio Vargas desceu da locomotiva vestido de uniforme militar, chapéu gaúcho largo na cabeça, cercado por três mil soldados gaúchos que o acompanhavam desde Porto Alegre. A multidão – estimada em quinhentas mil pessoas – explodiu em gritos, choro, aclamação.

– Getúlio! Getúlio! Getúlio!

Getúlio Vargas atravessava a Avenida Rio Branco em carro aberto, sorrindo, acenando. Os soldados gaúchos, cumprindo promessa feita meses antes, amarraram seus cavalos no obelisco da avenida. Gesto simbólico. Vitória completa.

E no Palácio do Catete, o general Tasso Fragoso assinava o decreto de transferência de poder.

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 3 de novembro de 1930 – 15h00

Getúlio Vargas subiu as escadas do Palácio do Catete pela primeira vez como presidente.

Não houve cerimônia elaborada. Não houve juramento sobre a Constituição de 1891 – Vargas a revogaria dias depois, governando por decretos. Não houve congresso, senado, ou qualquer instituição republicana.

Apenas Getúlio Vargas, a Junta Militar, e o poder.

Tasso Fragoso estendeu a mão.

– Chefe do Governo Provisório – disse ele, formalmente. – O Brasil é seu.

Getúlio apertou a mão, sorriu aquele sorriso enigmático que se tornaria marca registrada.

– Não – disse ele, suavemente. – O Brasil não é meu. Eu é que sou do Brasil.

E então, em discurso proferido às 15h30, diante de uma multidão reunida na Esplanada do Castelo, Getúlio Vargas apresentou seu programa de governo. Falou de justiça social, legislação trabalhista, reforma eleitoral, fim das oligarquias. Falou do novo Brasil que nasceria das cinzas da República Velha. Falou de revolução.

E o povo – faminto, cansado, iludido – acreditou.

A Revolução de 1930 terminara. A Era Vargas começara.

E o Brasil – para o bem ou para o mal – nunca mais seria o mesmo.

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