Skip to content Skip to footer

Capítulo 3 – O Moinho e a Reconciliação

Barra Mansa, Estado do Rio de Janeiro, 15 de outubro de 1932 – 09h00

O sino da Matriz de São Sebastião bateu nove vezes, e o som atravessou o Vale do Paraíba como um decreto do próprio céu. João Fernandes Magalhães estava parado no pátio do Moinho Barra Mansa, imóvel como as engrenagens que aguardavam para serem ligadas, observando os últimos preparativos da cerimônia de inauguração. Tinha trinta e oito anos, diploma de engenharia pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, e uma meticulosidade que beirava o obsessivo. Seus sapatos pretos brilhavam mesmo com a poeira que se levantava do chão de terra batida. Seu terno cinza estava impecavelmente alinhado. Ele não sorria.

Não havia motivo para sorrir. A Revolução Constitucionalista havia terminado há apenas treze dias. Os paulistas haviam se rendido em 2 de outubro, assinando a Convenção Militar de Cruzeiro que pôs fim a 87 dias de combates. Mais de 900 mortos oficialmente, talvez 2.200 segundo estimativas não oficiais. O país ainda cheirava a pólvora e ressentimento.

E ali, em Barra Mansa, cidade centenária que celebrava sua emancipação no dia seguinte em que São Paulo depunha as armas, inaugurava-se um moinho de farinha. Progresso e reconciliação forçada. Futuro construído sobre sangue ainda fresco.

Magalhães puxou o relógio de bolso. Nove horas e cinco minutos. A cerimônia começaria em cinquenta e cinco minutos. Ainda havia tempo para verificar tudo mais uma vez.

O edifício era imponente. Cinco andares, janelas altas, uma ponta que se erguia como um dedo apontando para Deus. À frente, o pátio estendia-se até a Ferrovia Oeste de Minas e a Central do Brasil, cuja linha cortava a cidade como uma cicatriz de progresso.

Caminhões Ford Modelo AA estavam estacionados em fila, oito ao todo, com as laterais pintadas em verde e amarelo. Nas carrocerias, sacos de farinha empilhados: marcas Montanha, Serrana, Corcovado. Publicidade. Teatro. O futuro tinha sempre que parecer promissor, mesmo quando o presente era um campo de ruínas.

Operários de macacão azul e chapéu de palha alinhavam-se em duas filas paralelas, como soldados aguardando inspeção. Eram sessenta homens ao todo – metade contratados localmente, metade trazidos do Rio de Janeiro. Magalhães conhecia todos pelo nome, função e salário. Eficiência exigia conhecimento.

Bandeirolas verdes e amarelas tremulavam na fachada, presas em cordas que iam de janela a janela. Ao centro do pátio, um palanque de madeira fora montado durante a madrugada: três degraus, corrimão de ferro, mastro com a bandeira nacional.

Tudo calculado. Tudo planejado. Tudo perfeito. Mas Magalhães não conseguia afastar a sensação de que algo estava errado.

Isimbardo Peixoto, prefeito de Barra Mansa, chegou às 9h15 em um Packard preto reluzente. Trinta e seis anos, bigode aparado com precisão, terno de linho branco que contrastava com a gravata preta – luto pelo país que quase se despedaçara. Atrás dele, o secretário municipal carregava uma pasta de couro com os discursos datilografados.

Peixoto fora jornalista, escritor, poeta, advogado. Havia sido nomeado interventor pelo governador. Sobrevivera à República Velha, à Revolução de 1930, e agora sobrevivia a Getúlio Vargas. Homens assim não sobreviviam por idealismo. Sobreviviam por pragmatismo.

Ele desceu do carro, ajeitou o chapéu panamá, e caminhou até Magalhães com passos medidos.

– Bom dia, engenheiro – disse ele, estendendo a mão. – Tudo pronto?

– Tudo pronto, senhor prefeito – respondeu Magalhães, apertando a mão firme e seca de Peixoto.

– E o povo? Virá?

– Virá. O Grupo Escolar Fagundes Varella traz duzentas crianças. A banda marcial da Polícia Militar está a caminho. As Damas de Caridade confirmaram presença. E, claro, os operários e suas famílias.

Peixoto assentiu, mas seus olhos percorriam o pátio com desconfiança.

– E os paulistas? – perguntou ele, baixando a voz. – Temos muitos barra-mansenses com parentes em São Paulo. A guerra acabou há treze dias. As feridas ainda sangram.

Magalhães hesitou. Ele sabia disso. Durante julho, agosto e setembro, Barra Mansa havia sido ocupada por tropas federais. O general Góis Monteiro montara seu Quartel General na cidade, usando os antigos depósitos de café como estrebaria. A cidade odiava Getúlio Vargas. Mas fingia não odiar.

– Os paulistas estarão aqui – disse Magalhães, finalmente. – Porque precisam. Porque o Moinho é emprego. E emprego, senhor prefeito, cala ressentimentos.

Peixoto sorriu, um sorriso sem alegria.

– Falou como engenheiro. Prático. Funcional. – Ele deu um tapinha no ombro de Magalhães. – Mas política não é engenharia, meu amigo. Política é teatro. E hoje, nós faremos o melhor espetáculo que esta cidade já viu.

Às 9h30, começaram a chegar. Primeiro, as crianças. Duzentos uniformes escolares – meninos de calça curta e camisa branca, meninas de saia azul-marinho e laço no cabelo. Carregavam pequenas bandeiras do Brasil feitas de papel crepom e madeira. A professora à frente, Dona Zélia Jardim Geraidine, vinte e quatro anos, cabelos presos em coque apertado, batia palmas para manter a ordem.

– Silêncio! Fila! Comportem-se como cidadãos brasileiros!

As crianças obedeceram, mais ou menos. Algumas riam. Outras cutucavam os colegas. Mas todas agitavam as bandeirinhas, criando um mar verde e amarelo que ondulava ao vento.

Depois vieram as senhoras. Vinte mulheres entre as Damas de Caridade, vestidas de preto ou cinza, chapéus com véus, sombrinhas de renda. Viúvas da guerra? Mães de mortos? Magalhães não perguntou. Preferiu não saber.

Em seguida, a banda marcial. Vinte músicos da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, uniformes azuis impecáveis, instrumentos polidos. O maestro – capitão Augusto Meirelles – cumprimentou Peixoto com continência militar. Depois posicionou os músicos ao lado do palanque.

E finalmente, o povo. Centenas deles. Operários e suas famílias, comerciantes, fazendeiros do interior, gente curiosa, gente que não tinha nada melhor para fazer em um sábado de manhã. Encheram o pátio. Espremeram-se entre os caminhões.

Magalhães olhou ao redor e pensou: Isto é o Brasil. Farrapo costurado com linha fraca. Mas ainda em pé.

O sino da matriz bateu dez vezes. A banda marcial atacou o Hino Nacional e o Hino à Barra Mansa, composto pelo professor Henrique Braune Zamith para a comemoração do centenário da cidade.

Todos ficaram de pé. Homens tiraram os chapéus. Mulheres baixaram as sombrinhas. Crianças pararam de rir. E, por alguns minutos, Barra Mansa fingiu fazer parte de uma nação unida.

Mas Magalhães, observando os rostos ao redor, via algo diferente. Via lágrimas em alguns olhos – eram de emoção patriótica ou de luto por filhos mortos em São Paulo? Via mandíbulas cerradas – eram de orgulho ou de raiva contida? Via silêncio – mas era o silêncio de reverência ou de ressentimento?

Quando o hino terminou, o aplauso foi educado. Não entusiástico. Educado.

Isimbardo Peixoto subiu ao palanque. Peixoto abriu a pasta de couro, retirou três folhas datilografadas, ajeitou os óculos, e começou:

– Senhores e senhoras. Cidadãos de Barra Mansa. Brasileiros.

A voz era firme, pausada, projetada. Político experiente.

– Em três de outubro de mil novecentos e trinta e dois, celebramos cem anos da emancipação político-administrativa de nossa amada cidade. Cem anos desde que, em três de outubro de mil oitocentos e trinta e dois, o regente do imperador Dom Pedro Segundo decretou a criação da Vila de São Sebastião de Barra Mansa. Aplausos. Moderados.

– Cem anos de trabalho, de fé, de progresso. Cem anos de brasileiros construindo o Brasil.

Mais aplausos.

– Mas hoje – continuou Peixoto, e sua voz baixou levemente – celebramos também o fim de um período difícil. Treze dias atrás, cessaram as hostilidades que opuseram irmãos brasileiros. São Paulo depôs as armas. O governo federal aceitou a paz. E o Brasil, ferido mas não quebrado, olha para o futuro.

Silêncio.

Magalhães observou os rostos. Alguns aprovavam. Outros franziam as sobrancelhas. Outros simplesmente olhavam para o chão.

– Não falaremos de culpas – disse Peixoto, cuidadosamente. – Não falaremos de vencedores ou vencidos. Falaremos de reconciliação. De trabalho. De progresso.

Ele apontou para o Moinho atrás de si, o edifício imenso erguendo-se contra o céu azul.

– Este Moinho – disse ele, a voz agora mais forte – é símbolo dessa reconciliação. Iniciou suas atividades em mil novecentos e trinta, produzindo farinha de trigo das marcas Montanha, Serrana e Corcovado. Emprega sessenta homens. Alimenta famílias. Fortalece a economia local. E mais importante: une. Une o interior ao litoral. Une o Rio de Janeiro a São Paulo. Une o Brasil.

Aplausos agora. Mais entusiastas.

– Porque o futuro do Brasil – continuou Peixoto – não será construído com balas. Será construído com trabalho. Com farinha. Com pão. Com suor honesto de homens honestos.

Ele fez uma pausa. Bebeu um gole d’água. Depois concluiu:

– Barra Mansa completa cem anos. E começa, hoje, seu segundo século. Um século de paz. De progresso. De unidade nacional.

Ele levantou uma pequena bandeira nacional de crepom que havia pegado das mãos de uma aluna.

– Viva Barra Mansa! Viva o Brasil!

A multidão explodiu:

– Viva! Viva!

Mas Magalhães, observando atentamente, notou que alguns apenas moviam os lábios. Fingindo. Sempre fingindo.

Peixoto desceu do palanque sob aplausos e acenou para Magalhães subir. O engenheiro hesitou. Não gostava de falar em público. Preferia números, plantas, engrenagens. Coisas que não mentiam. Mas subiu.

A multidão o observava. Centenas de pares de olhos. Esperando. Magalhães puxou um papel do bolso interno do paletó. Três parágrafos. Curto. Técnico. Sem emoção.

– Senhores – começou ele, voz mais baixa que a de Peixoto. – O Moinho Barra Mansa é uma instalação do Moinho Fluminense, empresa fundada em mil oitocentos e oitenta e sete pela Princesa Isabel. A primeira fábrica está no bairro da Saúde, no Rio de Janeiro. Esta é nossa segunda unidade. Ele fez uma pausa. Olhou para o papel. Continuou:

– A capacidade de moagem é de duzentas toneladas de trigo por dia. O trigo é importado da Argentina através do porto de Angra dos Reis e chega aqui pela Ferrovia Oeste de Minas. A farinha produzida será distribuída para todo o Estado do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Silêncio. Ninguém aplaudiu. Era informação técnica demais.

Magalhães sentiu o peso do silêncio e tentou humanizar:

– Este Moinho representa empregos. Sessenta diretamente. Talvez duzentos indiretamente. Representa desenvolvimento. Representa…

Ele procurou a palavra certa.

– …futuro.

Aplausos educados.

– Obrigado – disse ele, rapidamente, e desceu do palanque.

Peixoto o esperava embaixo, sorrindo.

– Engenheiros – murmurou ele. – Ótimos com máquinas. Péssimos com palavras.

Magalhães não respondeu.

Padre Sebastião Costa, pároco da Matriz, subiu ao palanque vestido em batina preta e estola. Tinha setenta anos, mãos trêmulas, voz cansada. Mas ainda poderosa.

– Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo – começou ele, fazendo o sinal da cruz.

A multidão respondeu em uníssono:

– Amém.

– Senhor nosso Deus – continuou o padre –, abençoai este Moinho. Abençoai os homens que aqui trabalharão. Abençoai a farinha que aqui será produzida. Que ela alimente o corpo e que o trabalho honesto alimente a alma.

Ele pegou um recipiente de prata cheio de água benta e um aspersório. Desceu do palanque, caminhou até a porta principal do Moinho, e aspergiu água nas paredes de tijolo.

– Abençoado sejas, edifício do trabalho.

Aspergiu os caminhões.

– Abençoados sejais, instrumentos do progresso.

Aspergiu os operários.

– Abençoados sejais, trabalhadores do Brasil.

E finalmente, voltou ao palanque, fez o sinal da cruz sobre a multidão, e disse:

– Que Deus abençoe Barra Mansa. Que Deus abençoe o Brasil. Que Deus nos dê paz.

A multidão murmurou:

– Amém.

Mas a última palavra – paz – ecoou no pátio com peso de oração desesperada.

A banda atacou novamente o Hino Nacional. E então, espontaneamente, a multidão aplaudiu. Não porque precisava. Não porque foi ordenada. Mas porque, por um breve momento, acreditou. Acreditou que o Moinho era mais que um edifício. Acreditou que era símbolo. Acreditou que o Brasil, ferido e ressentido, poderia se curar.

Magalhães, observando da lateral do palanque, sentiu algo incomum: esperança. Não durou muito.

As pessoas dispersaram-se em pequenos grupos. Comentavam sobre o Moinho, sobre os salários prometidos, sobre como seria trabalhar ali. Alguns tinham esperança. Outros, apenas necessidade. No Brasil de 1932, as duas coisas eram frequentemente idênticas.

Isimbardo Peixoto caminhou até Magalhães, que permanecia parado no centro do pátio como uma estátua esquecida.

– Foi um sucesso – disse o prefeito, estendendo a mão.

Magalhães apertou-a mecanicamente.

– Foi teatro – respondeu ele.

Peixoto riu, um som genuíno.

– É a mesma coisa, meu amigo. Política é teatro. Progresso é teatro. E você, engenheiro, é um ator melhor do que imagina.

Ele ajeitou o chapéu panamá, fez um gesto de despedida, e caminhou até o Packard que o aguardava. O motorista abriu a porta traseira. Peixoto entrou, e o carro partiu deixando uma pequena nuvem de poeira suspensa no ar. Magalhães ficou sozinho no pátio. Ou quase.

Próximo aos caminhões Ford, três homens conversavam em voz baixa. Magalhães os reconheceu: Antônio Ferreira, mestre de obras da construção do Moinho; Paulo Guimarães, encarregado da seção de moagem; e Joaquim Costa, supervisor de manutenção. Todos veteranos, todos competentes, todos com famílias para alimentar.

Magalhães aproximou-se.

– Cavalheiros – cumprimentou ele.

Os três viraram-se, removeram os chapéus.

– Senhor Magalhães – disse Antônio, o mais velho dos três. – Bela cerimônia.

– Necessária – respondeu Magalhães. – O prefeito precisava dela. A cidade precisava dela.

– E nós? – perguntou Paulo, o mais jovem, com certa amargura na voz. – Nós precisávamos dela?

Magalhães estudou o rapaz. Talvez vinte e oito anos. Magro, nervoso, olhos fundos de quem dormiu pouco nos últimos meses.

– Você tem parentes em São Paulo – disse Magalhães. Não era pergunta. Era constatação.

Paulo hesitou, depois assentiu.

– Dois irmãos. Lutaram com o Batalhão Piratininga. Um voltou. O outro… – Ele não terminou.

Silêncio pesado desceu sobre o grupo.

– Sinto muito – disse Magalhães, e era sincero.

– Não foi culpa sua – disse Paulo, enxugando os olhos rapidamente. – Não foi culpa de ninguém. Ou foi culpa de todos. Não sei mais.

Joaquim Costa, o supervisor de manutenção – homem de quarenta anos, mãos grossas de quem trabalha com ferro – pousou a mão no ombro de Paulo.

– O que foi, foi – disse ele, voz grave. – Agora temos que pensar no que vem. E o que vem é trabalho. Segunda-feira, este Moinho começa a operar em força total. E nós estaremos aqui.

– Por quê? – perguntou Paulo, quase agressivo. – Por que continuamos? Por que fingimos que está tudo bem? Meu irmão morreu por uma constituição que Getúlio prometeu e não entregará. Morreu por nada.

– Morreu pelo que acreditava – corrigiu Antônio, o mestre de obras. – E isso não é nada.

Paulo olhou para o chão, mandíbula cerrada.

Magalhães respirou fundo.

– Eu não tenho respostas – disse ele, finalmente. – Não tenho discursos bonitos como o prefeito. Não tenho fé inabalável como o padre. Sou apenas engenheiro. E o que sei é isto: máquinas funcionam. Engrenagens giram. Trigo vira farinha. E farinha alimenta pessoas. Isso eu entendo.

Ele apontou para o Moinho.

– Segunda-feira, aquelas máquinas começarão a funcionar. Duzentas toneladas de trigo por dia serão moídas. Farinha será produzida. Caminhões levarão essa farinha para padarias, mercados, casas. E pessoas comerão pão. – Fez uma pausa. – Não é heroico. Não é revolucionário. Mas é real.

Paulo levantou os olhos.

– E isso basta?

– Não sei – respondeu Magalhães, honestamente. – Mas é o que temos.

Os quatro homens ficaram em silêncio por um longo momento. Ao redor, o pátio esvaziava-se. As bandeirolas tremulavam ao vento. O sol estava alto.

– Segunda-feira – disse Joaquim, finalmente. – Seis da manhã. Aqui.

– Estarei aqui – disse Paulo, voz cansada mas firme.

– Todos estaremos – concordou Antônio.

Eles apertaram as mãos de Magalhães e partiram, caminhando juntos pela rua de terra em direção ao centro da cidade. Magalhães os observou até desaparecerem na curva.

Deixe um comentário