Volta Redonda, canteiro de obras da CSN, 14 de novembro de 1941 – 12h30
O sol do meio-dia caía vertical sobre o canteiro quando Heitor Carneiro da Silva e Silva encontrou Henrique Weissmann estudando plantas na mesa improvisada sob a lona que servia de escritório de campo. Ao redor, o barulho ensurdecedor das obras: guindastes levantando vigas de aço, britadeiras perfurando rocha, caminhões Ford despejando concreto, gritos de encarregados comandando turmas de operários.
Hans – sempre Hans em sua mente, nunca Henrique, nunca completamente Henrique – não levantou os olhos quando Heitor aproximou-se. Estava calculando carga estrutural do alto-forno número 1, verificando se as especificações americanas condiziam com a realidade brasileira. Os números não mentiam. As pessoas, sim. Mas os números, nunca.
– Weissmann – disse Heitor, jogando o capacete amarelo sobre a mesa, cobrindo parcialmente os desenhos técnicos. – Você trabalha demais.
Hans finalmente levantou os olhos. Heitor estava suado, camisa grudada no corpo, rosto avermelhado pelo sol e pelo esforço. Mas sorria. Sempre sorria. Hans invejava aquela capacidade.
– O cronograma é apertado – respondeu Hans, voz neutra, sem emoção. – Vargas quer a usina operacional em 1946. Faltam menos de cinco anos. Cada dia conta.
– E cada homem quebra se não descansar – retrucou Heitor, pegando o capacete de volta e colocando-o na cabeça. – Amanhã é sábado. Às três da tarde tem jogo. Engenheiros contra operários. Você joga?
Hans hesitou. Futebol. Brasileiros já se destacavam. O ritual que unia classes, que transformava estranhos em companheiros, que criava laços impossíveis de formar em mesas de trabalho ou canteiros de obra. Perigoso. Muito perigoso para um espião que precisava permanecer invisível.
– Não sei se…
– Não é pedido – interrompeu Heitor, mas o tom era amigável, paternal. – É ordem. Você está aqui há sete meses. Trabalha bem. Muito bem. Mas ninguém te conhece. Você não conversa no refeitório. Não bebe com os outros. Não participa de nada. Os homens estão comentando.
Hans sentiu algo gelado descer pela espinha. Os homens estão comentando. Quatro palavras que podiam significar o fim. Suspeita. Investigação. Descoberta.
– Comentando o quê? – perguntou, mantendo a voz controlada.
– Que você é metido – disse Heitor, encolhendo os ombros. – Que se acha superior. Que não quer se misturar com eles. Besteira, claro. Eu sei que você é só… reservado. Mas eles não sabem. E em obra grande como essa, com milhares de homens trabalhando juntos, não ter amigos é perigoso. Cria ressentimento. E ressentimento cria problemas.
Hans processou rapidamente. Heitor tinha razão. Invisibilidade absoluta chamava atenção tanto quanto visibilidade excessiva. O espião perfeito não era aquele que ninguém via, mas aquele que todos viam e ninguém suspeitava. Precisava se misturar. Precisava ter amigos. Ou pelo menos, a aparência de amigos.
– Não jogo futebol há anos – disse ele, finalmente.
– Não precisa ser Leônidas da Silva – riu Heitor, referindo-se ao famoso jogador brasileiro conhecido como “Diamante Negro”. – Só precisa aparecer. Correr atrás da bola. Suar a camisa. Mostrar que é gente como a gente.
Hans fechou os desenhos técnicos lentamente, como quem fecha um caixão.
– Está bem. – disse ele. – Estarei lá.
Heitor bateu no ombro dele com força amigável que quase o derrubou.
– Ótimo! Três da tarde. Campo improvisado perto do alojamento dos operários. Não se atrase. E use roupa velha. Vai sair todo sujo. O campo é mais terra que grama.
Quando Heitor saiu, Hans ficou sozinho com seus pensamentos e suas plantas. Através da abertura da lona, podia ver a construção crescendo como organismo vivo. Estruturas metálicas erguendo-se contra o céu. Concreto sendo derramado em formas gigantescas. O futuro nascendo de aço e suor.
E ele, Hans Albrecht Krueger, espião alemão disfarçado de engenheiro brasileiro, ajudando a construir a usina que um dia talvez precisasse destruir. A ironia não lhe escapava. Nunca escapava.
Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 14 de novembro de 1941 – 22h00
Naquela noite, Hans não conseguiu dormir. Deitado no beliche estreito – sempre o de cima, sempre encostado na parede, sempre com saída visível –, fumava cigarro atrás de cigarro, olhando para o teto rachado iluminado pela lua que entrava pela janela sem cortina. Futebol.
A palavra ecoava em sua mente como acusação. Ele sabia jogar. Claro que sabia. Mas não da forma que Heitor imaginava. Não da forma brasileira, improvisada, caótica, cheia de dribles e ginga. Ele jogara futebol na Alemanha. Na Universidade de Munique. Com amigos ingleses.
Amigos.
A palavra doía como ferida antiga mal cicatrizada. Thomas, James, Richard. Estudantes de Cambridge que faziam intercâmbio em Munique. Os amigos da foto com Greta que jogara no oceano. 1923. Hans tinha vinte e dois anos. Eles, vinte e um, vinte e dois. Jovens. Cheios de vida. Cheios de futuro.
Jogavam futebol nos jardins da universidade aos sábados. Futebol inglês. Ordenado. Disciplinado. Passes precisos. Estratégia clara. Nada de improviso brasileiro. Tudo calculado.
Hans era bom. Muito bom. Centroavante. Alto – um metro e oitenta e dois –, forte, rápido. Finalizava bem. Thomas dizia que ele poderia jogar profissionalmente se quisesse. Hans ria. Ele seria engenheiro, não jogador de futebol. Mas gostava. Gostava da simplicidade. Das regras claras. Do objetivo definido: fazer o gol. Nada de política. Nada de mentiras. Apenas a bola, o campo, e o adversário.
E então veio Greta.
Hans apagou o cigarro no cinzeiro improvisado – a lata de sardinha vazia. Acendeu outro imediatamente. Sempre outro. Sempre mais um.
Greta aparecera num sábado de setembro. Convidada de Thomas. Amiga de sua irmã. Dezenove anos. Vestido branco de verão. Cabelos loiros trançados. Sentou-se na grama para assistir ao jogo. E quando Hans marcou o gol da vitória – chute cruzado, ângulo impossível, goleiro sem chance –, ela aplaudiu. E sorriu. E Hans, ainda ofegante da corrida, suado, sujo de terra, olhou para ela e pensou: É ela. É a mulher da minha vida.
Estava certo. E estava errado. Porque ela era a mulher de sua vida. Mas não ele, o homem da vida dela.
Hans virou-se no beliche, encarando a parede de madeira mal pintada. Através dela, ouvia roncos de outros engenheiros. Vida simples. Sono tranquilo. Consciência limpa. Coisas que Hans nunca teria novamente.
Amanhã jogaria futebol. Com brasileiros. Por ordem. Por necessidade. Por sobrevivência. Não por prazer. Nunca mais por prazer. Porque Greta destruíra essa possibilidade. Junto com todas as outras.
Volta Redonda, campo improvisado, 16 de novembro de 1941 – 15h00
O “campo” era várzea aplainada entre o alojamento dos operários e a margem do Rio Paraíba do Sul. Não tinha grama. Era terra batida, pedras, alguns tufos de capim teimoso. As traves eram feitas de madeira de construção sobressalente. Não havia rede. Não havia linhas marcadas. Apenas dois montes de pedras indicando os limites laterais.
Mas tinha gente. Muita gente.
Hans – vestindo calça velha de brim, camisa branca surrada, chuteiras improvisadas (botas de trabalho com travas pregadas) – chegou às 14h50. Heitor já estava lá, organizando os times. Ao redor, mais de duzentos homens. Operários, engenheiros, técnicos americanos curiosos, até alguns moradores de Volta Redonda que ainda não fora engolida pela CSN.
– Weissmann! – gritou Heitor, acenando. – Vem cá!
Hans atravessou a multidão. Sentiu os olhares. Avaliação. Julgamento. O alemãozinho metido. O catarinense esquisito. O engenheiro que não fala com ninguém.
– Você joga onde? – perguntou Heitor.
– Centroavante – respondeu Hans. Não havia motivo para mentir sobre isso.
Heitor sorriu.
– Perfeito. Nosso centroavante habitual quebrou a perna semana passada. Acidente com viga de aço. Você é o substituto.
Ele apresentou o resto do time dos engenheiros. Onze homens – o jogo seria com onze de cada lado, sem substituições, até alguém não aguentar mais. Variedade. Jovens e velhos. Gordos e magros. Brasileiros de todos os cantos: paulistas, cariocas, mineiros, um baiano, até um gaúcho que falava com sotaque que Hans mal entendia.
Do outro lado, os operários. Mais jovens. Mais magros. Mais rápidos. E, Hans notou imediatamente, muito mais habilidosos. Muitos haviam crescido jogando futebol nas ruas, várzeas, campos de terra como aquele. Era parte de suas vidas. Para os engenheiros, era recreação. Para os operários, era arte.
Às 15h00 exatas, o apito soou. Não havia juiz oficial. Era um dos encarregados de obra, homem de cinquenta anos chamado Zé Ferreira, respeitado por todos. Ele apitaria o jogo. E suas decisões seriam finais.
A bola – feita de couro costurado, meio murcha, pesada – foi colocada no centro do campo. Hans posicionou-se como centroavante. Do outro lado, o zagueiro central dos operários o encarou. Era homem enorme. Talvez um metro e noventa. Cem quilos de músculo puro. Pedreiro. Mãos como pás. Olhos que diziam: Você vai sofrer, engenheirinho. Apito. O jogo começou.
Hans não tocou na bola nos primeiros dez minutos. Os operários dominavam completamente. Dribles. Passes rápidos. Ginga. Os engenheiros corriam atrás da bola como crianças atrás de borboleta. Sem ordem. Sem estratégia. Caos puro.
Aos doze minutos, o primeiro gol dos operários. Chute de fora da área. O goleiro dos engenheiros – homem de quarenta anos, barriga pronunciada, reflexos lentos – nem viu a bola passar.
1 a 0.
A torcida dos operários explodiu. Gritos. Assobios. Provocações:
– Engenheiro não sabe nem chutar!
– Volta pra prancheta!
– Bando de perna-de-pau!
Heitor, jogando como meio-campo, estava vermelho de esforço e frustração.
– Weissmann! – gritou ele. – Faz alguma coisa!
Hans finalmente conseguiu receber um passe. Era ruim. Alto demais. Mas ele dominou com o peito – movimento que aprendera com os ingleses em Munique. A bola caiu perfeitamente aos seus pés.
O zagueiro enorme avançou. Hans não driblou. Não tinha habilidade brasileira para isso. Mas tinha força. E timing. Quando o zagueiro chegou perto, Hans protegeu a bola com o corpo – outro ensinamento inglês. Girou. E chutou.
Forte. Rasteiro. Cruzado.
A bola passou raspando a trave esquerda por dentro. O goleiro operário – jovem de vinte anos, rápido como gato – voou. Mas não alcançou. Entrou.
1 a 1.
Silêncio. Três segundos de silêncio absoluto. E então, explosão. Os engenheiros gritaram como se tivessem ganhado a Copa do Mundo. Heitor correu, abraçou Hans com força que quase o derrubou.
– Filho da puta! Que golaço!
Era a primeira vez que Heitor falava palavrão na frente dele. Sinal de aceitação. Intimidade. Hans não sorriu. Não conseguia. Mas sentiu algo. Algo pequeno. Quente. Que não sentia há anos.
Pertencimento.
O jogo continuou. Os operários voltaram a dominar. Mas agora os engenheiros tinham esperança. E Hans. Eles passavam a bola para ele. E ele, usando tudo que aprendera em Munique – proteção de bola, passes curtos, finalização precisa –, criava chances.
Aos trinta minutos, segundo gol dos operários. Falha da defesa dos engenheiros. 2 a 1.
Aos trinta e oito, Hans empatou novamente. Passe de Heitor. Hans dominou, girou, chutou. Mesmo movimento. Mesma precisão. 2 a 2.
A torcida dos operários começou a respeitar. Não gostavam. Mas respeitavam.
– Esse alemão sabe jogar!
– Cuidado com ele!
Primeiro tempo terminou 2 a 2.
Os engenheiros sentaram-se na sombra escassa de árvore solitária. Suados. Sujos. Felizes.
– Weissmann – disse o goleiro barrigudo, ainda ofegante. – Você disse que não jogava há anos. Mentira. Você joga bem pra caralho.
Hans bebeu água de cantil de alumínio. Estava cansado. Muito cansado. Tinha quarenta anos. Não era mais jovem. O corpo cobrava.
– Joguei na universidade – disse ele, meio verdade. – Faz tempo.
– Onde? – perguntou outro engenheiro, paulista magro de vinte e cinco anos chamado Roberto.
Hans hesitou. Cuidado. Sempre cuidado.
– Nos Estados Unidos – mentiu. – Carnegie Tech. Havia muitos ingleses lá. Aprendi com eles.
Era plausível. Henrique Weissmann estudara nos Estados Unidos segundo documentos falsos. Ninguém verificaria. Ninguém suspeitaria.
– Ingleses – disse Heitor, rindo. – Por isso você joga sem ginga. Tudo certinho. Mas funciona. Dois gols. Continua assim no segundo tempo.
Hans acenou. E pela primeira vez desde que chegara a Volta Redonda, sentiu-se parte de algo. Não era confortável. Era perigoso. Laços eram perigosos para espiões. Mas era… necessário. E talvez, apenas talvez, um pouco bom.
Os operários voltaram mais agressivos. O zagueiro enorme marcava Hans com violência. Empurrões. Cotoveladas. Pisões. O juiz improvisado deixava passar. Era jogo de várzea. Duro. Brutal. Parte das regras não-escritas.
Hans aprendeu rápido. Revidava. Não com violência – não queria chamar atenção. Mas com astúcia. Quando o zagueiro empurrava, Hans deixava-se cair. Não teatralmente. Naturalmente. E ganhava faltas.
Aos quinze minutos, falta perigosa. Vinte metros do gol. Heitor ia cobrar.
– Deixa eu chutar – disse Hans.
Heitor piscou, surpreso.
– Você?
– Confie.
Heitor entregou a bola. Hans posicionou-se. O goleiro operário organizou a barreira. Quatro homens. Gritando instruções.
Hans respirou fundo. Lembrou Munique. Lembrou Thomas ensinando cobrança de falta. Não olhe para onde vai chutar. Engane o goleiro. Pareça que vai cruzar. Depois, chute no canto oposto.
Hans correu. Olhou para a direita. O goleiro acompanhou. E então Hans chutou para a esquerda. Alto. Com curva. A bola passou por cima da barreira. Caiu. E entrou, tocando suavemente a rede invisível.
3 a 2 para os engenheiros.
A explosão foi ensurdecedora. Os engenheiros invadiram o campo. Abraços. Gritos. Lágrimas de alegria. Era apenas jogo. Mas para eles, naquele momento, era Copa do Mundo.
Os operários ficaram em silêncio. Chocados. Derrotados.
Hans não comemorou efusivamente. Apenas acenou, agradecendo os abraços. Mas por dentro, sentiu algo que não sentia desde antes de Greta. Desde antes de tudo desmoronar.
Alegria.
Não durou. Nunca durava. Mas existiu. Por alguns segundos. Existiu.
O jogo continuou. Os operários empataram aos vinte e oito minutos. 3 a 3. Nos últimos dez minutos, ambos os times estavam exaustos demais para atacar efetivamente. O jogo terminou empatado. Quando o apito final soou, não houve tristeza. Houve alívio. E respeito mútuo.
Volta Redonda, botequim “O Paraibano”, 16 de novembro de 1941 – 19h00
A tradição era antiga como o próprio futebol brasileiro: o time perdedor pagava a bebida. Mas como houve empate, decidiram que engenheiros e operários beberiam juntos. E ambos pagariam.
O botequim “O Paraibano” era estabelecimento improvisado perto do canteiro. Paredes de madeira. Teto de zinco. Chão de terra batida. Mas tinha o essencial: cachaça barata e muita.
Hans queria recusar. Heitor não deixou.
– Você vem – disse ele, não era pedido. – Você marcou três gols. Os homens querem te conhecer. Recusar seria insulto.
Hans foi.
A cachaça era terrível. Pior que schnapps barato. Queimava a garganta como ácido. Mas todos bebiam. E Hans bebeu também. Porque era esperado. Porque era necessário. Porque, pela primeira vez, queria.
Na mesa comprida de madeira tosca, engenheiros e operários misturavam-se. As diferenças de classe temporariamente esquecidas pela camaradagem do futebol e da bebida. O zagueiro enorme que marcara Hans – revelou chamar-se João Batista, mas todos chamavam apenas de “Batistão” – sentou-se ao lado dele.
– Você joga bem, alemão – disse ele, voz rouca de cachaça e respeito. – Pensei que ia ser moleza. Mas você aguenta pancada.
– Aprendi com ingleses – disse Hans, mantendo a mentira. – Eles jogam duro.
– Ingleses – cuspiu Batistão. – Inventaram o futebol, mas não sabem jogar. Tudo certinho. Sem alma. Mas você… você tem algo mais. Não sei o quê. Mas tem.
Desespero, pensou Hans. Solidão. Necessidade de pertencer. Mas não vou dizer isso.
– Experiência – disse ele, simplesmente.
Batistão riu, bateu nas costas de Hans com força que quase o fez engasgar com a cachaça.
– Experiência! Boa! Você é velho mesmo. Quantos anos?
– Trinta e seis.
– Porra! Velho pra caralho! Eu tenho vinte e quatro. Quando tiver sua idade já vou estar aposentado. Com barriga igual do Heitor.
Heitor, que ouvia, protestou:
– Ei! Respeita os mais velhos!
Risadas. Todos riam. E Hans, pela primeira vez desde que assumira a identidade de Henrique Weissmann, pela primeira vez desde que matara o verdadeiro Weissmann e afundara seu corpo em uma represa escura, pela primeira vez desde Greta, sorriu.
Genuinamente.
Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 16 de novembro de 1941 – 23h30
Hans voltou bêbado. Não completamente. Controlava-se. Sempre se controlava. Mas o suficiente para sentir a cabeça leve, os movimentos ligeiramente descoordenados, a língua um pouco solta.
Entrou no alojamento em silêncio. Os outros engenheiros já dormiam. Roncos. Respirações profundas. Sono de trabalhador honesto. Hans subiu no beliche superior. Deitou-se. Olhou para o teto rachado.
E então, sozinho no escuro, permitiu-se sentir.
Fora bom. O jogo. A bebida. As risadas. A sensação de pertencer, mesmo que falsamente, mesmo que temporariamente. Fora… humano.
Desde Greta, Hans não se sentira humano. Sentira-se máquina. Engrenagem. Ferramenta. Do Partido. Da Abwehr. Do Reich. De causas maiores que ele. Mas naquela tarde, por três horas, jogando futebol em campo de terra, suando, sangrando (machucara o joelho numa queda, não doía muito, mas sangrava), chutando, marcando gols…
Fora apenas Hans. Não Krueger, o espião. Não Richter, o comerciante morto. Não Weissmann, o engenheiro fantasma. Apenas… Hans. O homem que existia antes de tudo desmoronar.
Mas então a realidade voltou. Como sempre voltava. Porque Hans Albrecht Krueger não existia. Estava morto. Ele era Henrique Weissmann. Engenheiro metalúrgico. Espião infiltrado. E aquela tarde de futebol, aquela sensação de pertencimento, aquelas risadas no botequim…
Eram mentira. Como tudo em sua vida.
Hans virou-se para a parede. Fechou os olhos. E dormiu. Mas pela primeira vez em anos, não sonhou com Greta. Sonhou com o jogo. Com o gol. Com o sorriso de Heitor. Com o respeito de Batistão.
E quando acordou de manhã, com dor de cabeça da cachaça e dor no joelho da queda, sentiu algo perigoso. Algo que um espião nunca deveria sentir.
Esperança.
