Skip to content Skip to footer

Teorias de Bolso

Outro dia, tive a infeliz ideia de reler alguns textos que escrevi antes dos trinta. Descobri duas coisas: primeiro, que a juventude é mesmo linda. Segundo, que ela é uma desgraça em matéria de inteligência.

É curioso como o tempo é um ladrão que, ao mesmo tempo, devolve o que rouba. Ele leva o frescor do corpo, o entusiasmo das ideias, a pressa dos sonhos — mas, em troca, entrega algo que a juventude só fingia possuir: uma pontinha de sabedoria. É um mau negócio, mas é o único disponível.

Fico imaginando se, aos sessenta, terei a mesma vergonha alheia dos textos que escrevi aos quarenta e cinco. E se, aos oitenta, lerei meus escritos de agora e direi: “Nossa, como eu era pretensiosamente inteligente!”. Espero que sim — seria triste envelhecer sem se envergonhar do próprio passado.

Aliás, talvez a lucidez seja isso: rir de quem fomos, sem rancor. É um tipo de perdão cronológico.

Mas a reflexão não é apenas sobre o tempo. É sobre os vários “eus” que ele fabrica e espalha pela vida. Cada década é uma versão diferente da gente, com teorias próprias e certezas de bolso. A juventude, por exemplo, acredita que entende o mundo. Tem soluções simples para problemas complexos. Acha que política é uma questão de boa vontade e que o amor é uma força cósmica, quase uma entidade independente — dessas que resolvem tudo com um olhar.

A maturidade chega quando a gente percebe que nem os heróis das histórias têm toda essa pureza. O primeiro sinal de envelhecimento, aliás, é começar a concordar com os vilões. A gente começa a entender por que o lobo quis comer a vovozinha, ou por que o capitão Ahab surtou com a baleia. A verdade é que o mundo cansa.

Talvez por isso, quando escrevo, meus personagens fiquem meio tortos. Nenhum totalmente bom, nenhum totalmente mau. O Joaquim, por exemplo — tem dias em que me apaixono por ele, e dias em que quero entrar nas páginas e matá-lo com as próprias mãos. Mas acho que é assim que funciona a maturidade: ela ensina que o amor e o ódio moram na mesma casa, dividem a mesma conta de luz e às vezes até o mesmo espelho.

O jovem quer salvar o mundo.
O adulto quer só chegar em casa.
E o velho — ah, o velho já sabe que os dois queriam apenas descansar.

Talvez a sabedoria seja isso: aprender a rir do próprio entusiasmo. E, se possível, anotar o motivo — antes que a idade leve também a lembrança.

1 Comentário

  • Rosalina
    Posted 9 de novembro de 2025 at 12:58

    Li muitas verdades neste texto!!!! Voltei no tempo, nas minhas idéias e refleti o meu presente!!!!!

Deixe um comentário