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Capítulo 8 – O Vale do Progresso

Barra Mansa, 28 de outubro de 1937 – 10h00

O sol da manhã batia forte sobre o pátio da Siderúrgica Barra Mansa, e o capitão Mário Pinto dos Reis, prefeito interventor do município, suava dentro do uniforme militar impecavelmente engomado. Tinha cinquenta e seis anos, postura ereta de quem nunca esqueceu o treinamento no Exército, e aquele tipo de ambição controlada que caracterizava os homens de Vargas. Interventor. Não eleito. Nomeado. Mas isso não importava. Em 1937, ninguém era eleito. Todos eram escolhidos.

Ao seu redor, o pátio da nova fábrica fervilhava com a mesma energia nervosa que marcara as inaugurações anteriores. Bandeirolas verde e amarelas tremulavam entre os galpões de estrutura metálica. Uma banda marcial tocava marchas patrióticas. Operários de macacão azul alinhavam-se em formação militar. E no centro do pátio, um palanque de madeira aguardava os discursos que transformariam tijolo e ferro em símbolo de progresso.

Mário Pinto ajeitou o quepe, verificou o relógio de pulso – presente de Góis Monteiro quando assumira a prefeitura –, e permitiu-se um breve momento de satisfação. Três fábricas. Em um único ano. Em sua gestão.

A primeira fora em fevereiro: a segunda unidade da Nestlé. O pátio menor, a cerimônia mais modesta, mas o simbolismo imenso. A gigantesca produção de leite dos fazendeiros de Barra Mansa finalmente tinha destino certo. Produtos que iriam para todo o Brasil. Dezenas de empregos diretos. Centenas indiretos.

Depois, em agosto, a Metalúrgica Barbará. Essa fora maior. Fornos de fundição, oficinas mecânicas, depósitos que se estendiam por dois hectares. Centenas de funcionários. Produção de tubos de ferro fundido.

E agora, outubro. A Siderúrgica Barra Mansa. Pioneira. Revolucionária. A primeira siderúrgica privada da região. Capacidade inicial de produção: quinhentas toneladas de aço por mês. Centenas de operários. Investimento de dois milhões de cruzeiros.

Três fábricas. Um ano. Uma gestão.

Mário Pinto sorriu. Não era sorriso modesto.

– Senhor prefeito – disse Álvaro Mendes, secretário municipal de Obras, aproximando-se. Tinha cinquenta anos, barriga proeminente, rosto avermelhado de quem bebia mais do que deveria. Mas era leal. E lealdade, em 1937, valia mais que competência. – Está na hora.

Mário Pinto acenou com a cabeça. Subiu ao palanque com passos medidos, militares. A banda calou. Os operários se perfilaram. O silêncio desceu sobre o pátio como ordem de comando.

Ele abriu a pasta de couro, retirou três folhas datilografadas – discurso preparado por Mendes, revisado por ele próprio, aprovado tacitamente pelo governador –, e começou:

– Senhores. Cidadãos de Barra Mansa. Brasileiros.

A voz era firme, projetada, treinada para quartéis e paradas militares.

– Em fevereiro deste ano, inauguramos a segunda unidade da Nestlé. Em agosto, a Metalúrgica Barbará. E hoje, vinte e oito de outubro, inauguramos a Siderúrgica Barra Mansa. Três fábricas. Um ano. Uma cidade que não para de crescer.

Aplausos. Entusiasmados desta vez. O progresso era visível. Os empregos eram reais.

– Barra Mansa – continuou Mário Pinto, e sua voz subiu levemente – não é mais apenas uma cidade agrícola. Não é mais apenas ponto de passagem entre Rio e São Paulo. Barra Mansa é futuro. É indústria. É modernidade.

Mais aplausos.

– O presidente Getúlio Vargas – e aqui ele fez uma pausa calculada, deixando o nome reverberar – prometeu industrializar o Brasil. Prometeu acabar com a dependência de produtos estrangeiros. Prometeu transformar este país agrário em potência industrial. E nós, aqui em Barra Mansa, cumprimos nossa parte.

Ele apontou para o edifício da siderúrgica atrás de si: paredes de tijolo, chaminé alta, janelas amplas por onde se via o brilho dos fornos.

– Esta fábrica produzirá quinhentas toneladas de aço por mês. Aço brasileiro. Para construir pontes brasileiras. Para erguer um Brasil brasileiro.

A multidão explodiu em aplausos e vivas. Alguns operários assoviaram. A banda atacou o Hino Nacional.

Mário Pinto desceu do palanque sob aclamação. Álvaro Mendes o esperava com copo de água e sorriso satisfeito.

– Excelente, capitão. Excelente.

– Foi adequado – respondeu Mário Pinto, bebendo a água em um gole só. – Nem mais, nem menos do que o momento exigia.

Barra Mansa, Palácio Barão de Guapy, 28 de outubro de 1937 – 14h30

O gabinete do prefeito cheirava a móveis novos e verniz fresco. A prefeitura fora reformada seis meses antes – parte da campanha de modernização que Mário Pinto implementara desde que assumira. Paredes caiadas, piso de tábua corrida, ventilador de teto girando lentamente, criando brisa artificial em tarde sufocante.

Mário Pinto estava sentado atrás de sua mesa de jacarandá – menor que a de Getúlio, mas imponente para Barra Mansa –, revisando relatórios fiscais. Ao redor, seis homens: seus assessores, correligionários, a pequena corte que todo interventor cultivava.

Álvaro Mendes, secretário de Obras, fumava charuto grosso, recostado em poltrona de couro. Joaquim Ferreira, chefe de gabinete, datilografava furiosamente em máquina Remington. Paulo Guimarães, tesoureiro municipal, conferia números em livro-caixa. E três vereadores indicados – porque em 1937 vereadores não eram eleitos, eram escolhidos – conversavam em voz baixa sobre impostos e licenças.

– Três fábricas – disse Álvaro Mendes, soltando fumaça pela janela aberta. – Em um ano. O governador vai notar.

– Já notou – respondeu Mário Pinto, sem levantar os olhos dos relatórios. – Recebi telegrama de felicitações ontem à noite. Assinado por ele pessoalmente.

– E o Catete? – perguntou Paulo Guimarães, olhando por cima dos óculos de leitura. – Getúlio sabe?

– Getúlio sabe de tudo – disse Mário Pinto, finalmente levantando os olhos. – A questão é: ele se importa?

Silêncio.

Joaquim Ferreira parou de datilografar.

– Ouvi rumores – disse ele, cuidadosamente. – No Palácio Guanabara. Quando estive lá mês passado entregando relatórios ao governador.

Todos viraram-se para ele.

– Que tipo de rumores? – perguntou Mário Pinto.

Joaquim hesitou. Rumores, em 1937, eram perigosos. Poderiam ser verdade. Poderiam ser armadilha. Poderiam ser teste de lealdade.

– Sobre siderurgia – disse ele, finalmente. – Grande siderurgia. Estatal.

 

O ar na sala pareceu esfriar apesar do calor.

– Explique – ordenou Mário Pinto.

– A Comissão Nacional de Siderurgia – continuou Joaquim, escolhendo as palavras como quem atravessa campo minado – está estudando localizações para uma usina estatal. Dizem que o presidente Vargas está pessoalmente interessado. Que os militares pressionam. Que há negociações com americanos e alemães.

– Localizações onde? – perguntou Álvaro Mendes, apagando o charuto.

– Várias – respondeu Joaquim. – Itabira, em Minas, por causa do minério. Santa Cruz, no Rio, por causa do porto. E…

Ele fez uma pausa.

– E?

– E o Vale do Paraíba.

Silêncio absoluto. O ventilador de teto girava, criando som hipnótico. Pela janela, ouvia-se o tráfego distante das Ferrovias Oeste de Minas e Central do Brasil.

Mário Pinto levantou-se, caminhou até a janela, mãos cruzadas nas costas.

– O Vale do Paraíba – repetiu ele, mais para si mesmo que para os outros. – Barra Mansa?

– Não especificaram – disse Joaquim. – Mas faz sentido. Ferrovia conectando Rio, São Paulo e Minas. Rio Paraíba do Sul para água e refrigeração. Terras planas. Proximidade dos grandes centros.

– E nós – acrescentou Álvaro Mendes, voz carregada de excitação mal contida – já temos infraestrutura. Três fábricas. Operários treinados. Fornecedores locais. Seríamos a escolha óbvia.

Mário Pinto virou-se.

– Aqui na sede ou em Volta Redonda – disse ele, calmamente.

Os homens se entreolharam.

Volta Redonda. Distrito de Barra Mansa. Pequeno, rural, insignificante. Mas estrategicamente localizado. Terras planas às margens do Paraíba. Espaço para expansão. Longe o suficiente da cidade para não incomodar, perto o suficiente para aproveitar a infraestrutura.

– Se for Volta Redonda – disse Paulo Guimarães, ajustando os óculos –, ainda é jurisdição nossa. Impostos municipais. Empregos locais. Seria… transformador.

– Seria revolucionário – corrigiu Joaquim. – Uma usina estatal do tamanho que comentam? Cinco mil operários? Dez mil? Barra Mansa dobraria de tamanho.

– Triplicaria – disse Álvaro Mendes.

Mário Pinto voltou para sua mesa, sentou-se, entrelaçou os dedos.

– São rumores – disse ele, voz agora cautelosa. – Apenas rumores. O governo não tem recursos para um empreendimento dessa magnitude. As negociações com estrangeiros devem estar travadas. E mesmo que conseguissem financiamento, levaria anos para construir.

– Mas se for verdade? – insistiu Joaquim Ferreira.

Mário Pinto estudou seus homens. Ambição. Esperança. Ganância. Medo. Todas as emoções que moviam a política brasileira.

– Se for verdade – disse ele, finalmente – precisamos estar preparados. Precisamos garantir que Barra Mansa seja a escolha. Ou pelo menos, que nos beneficiemos da escolha.

– Como? – perguntou Paulo Guimarães.

– Continuamos fazendo o que estamos fazendo – respondeu Mário Pinto. – Mais fábricas. Mais infraestrutura. Mais modernização. Mostramos ao governo federal que Barra Mansa não é cidade do interior esquecida. É polo industrial em crescimento. É investimento seguro.

Ele fez uma pausa.

– E cultivamos contatos. No Palácio Guanabara. No Catete. No Ministério da Guerra. Com Góis Monteiro, Macedo Soares, Osvaldo Aranha. Fazemos amigos. Porque quando a decisão for tomada – se for tomada –, queremos estar do lado certo.

Os homens assentiram.

Álvaro Mendes acendeu outro charuto, sorrindo.

– Capitão Mário Pinto – disse ele, em tom quase reverente. – O homem que transformou Barra Mansa em potência industrial.

– Ainda não – disse Mário Pinto. – Mas talvez. Se tivermos sorte. Se jogarmos certo. Se os deuses da política forem bondosos.

Ele olhou pela janela. Lá fora, Barra Mansa estendia-se sob o sol de outubro. Casarões coloniais. Ruas de paralelepípedo. Igreja matriz. Ferrovia. E agora, fábricas. Três delas. Em um ano.

O futuro batia à porta. Mário Pinto só precisava abrir.

Barra Mansa, Fazenda Retiro, 28 de outubro de 1937 – 18h30.

O sol descia sobre o Vale do Paraíba como brasa apagando-se lentamente. Do outro lado do Rio Paraíba do Sul, a Fazenda Retiro estendia-se em colinas suaves. E entre as duas propriedades, o rio corria, indiferente aos sonhos humanos.

Sávio Gama estava sentado na varanda da casa-grande da Fazenda Retiro, local onde costumava ir para recarregar as forças, copo de uísque na mão, olhando para o rio. Tinha trinta anos, fortuna construída na construção civil, conexões políticas que chegavam até o Catete. Era amigo pessoal de Getúlio Vargas. Ou pelo menos se considerava.

E agora, em 1937, Sávio Gama tinha um sonho.

– Aqui – disse ele, apontando para as terras planas às margens do rio. – Imagine. Fornos gigantescos. Chaminés fumegando dia e noite. Trens carregados de minério chegando de Minas. Aço saindo para todo o Brasil.

 

Ao seu lado, Henrique Costa, advogado e conselheiro, fumava cachimbo e observava a paisagem com ceticismo calculado.

– É um belo sonho, Sávio – disse ele. – Mas continua sendo sonho. O governo não tem dinheiro. Dizem que as negociações internacionais estão paradas. E mesmo que tivessem dinheiro, por que escolheriam aqui?

– Porque eu vou convencê-los – respondeu Sávio, simplesmente.

– Como?

Sávio virou-se, e seus olhos tinham aquele brilho de quem vê além do visível.

– Eu o trarei aqui. Mostrarei esta terra. Mostrarei o rio. Mostrarei o potencial. E então…

Ele fez uma pausa dramática. – Farei ele ver.

Henrique riu, som cético.

– Como?

– Vargas é um homem prático – explicou Sávio. – Mas acredita em destinos. Em sinais. Em momentos providenciais. Se eu criar o cenário certo, no momento certo, ele verá o que precisa ver. E acreditará que foi ideia dele.

– Isso é manipulação – disse Henrique.

– Isso é política – corrigiu Sávio. – A melhor política. Aquela em que todos acreditam ter vencido.

Ele bebeu o uísque, saboreando o gosto e o momento.

– Mas isso é para depois – continuou. – Para 1938, talvez 1939. Quando as negociações internacionais avançarem. Quando o dinheiro estiver garantido. Por enquanto, continuamos preparando o terreno.

– E se escolherem outro lugar? – perguntou Henrique. – Itabira. Santa Cruz. São Paulo.

Sávio sorriu.

– Não escolherão. Porque nenhum outro lugar tem o que temos aqui.

– E o que temos?

– Conexões – respondeu Sávio. – Getúlio me deve favores. Góis Monteiro confia em mim. Macedo Soares tem raízes neste lugar. E mais importante: temos a localização perfeita. Não a melhor. Mas a perfeita. E em política, perfeição supera excelência.

Os dois homens ficaram em silêncio, observando o rio. Lá embaixo, pescadores lançavam redes. Crianças brincavam na margem. Bois pastavam nas várzeas. Tudo pacífico. Tudo pastoral. Tudo prestes a mudar.

– Quando isso acontecer – disse Henrique, finalmente –, se acontecer, Barra Mansa nunca mais será a mesma.

– O Brasil nunca mais será o mesmo – corrigiu Sávio Gama.

E bebeu o resto do uísque, olhando para o futuro que ainda não existia, mas que ele, de alguma forma misteriosa, já conseguia ver.

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