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Entre a Cidade dos Homens e a Cidade de Deus

Desde que o homem começou a organizar-se em sociedade, uma pergunta o acompanha como uma sombra luminosa: onde está a felicidade?
Durante séculos, ela foi compreendida como um caminho, não um destino. Os antigos falavam em virtude; os medievais, na construção do Reino de Deus; e mesmo os pensadores modernos, como Tocqueville, viam na busca por uma sociedade justa a alegria de participar de algo maior do que si mesmo.

Mas, em algum ponto da história, algo mudou.
A felicidade deixou de ser a consequência de uma vida orientada ao Bem e passou a ser uma meta individual, algo que se compra, se exibe e se mede. A transcendência foi substituída pela performance. Trocamos o horizonte comum pelo espelho.

Santo Agostinho, ao escrever A Cidade de Deus, traçou o mapa espiritual dessa tensão que ainda nos define. Para ele, existem duas cidades que coexistem no tempo e dentro de nós:
a Cidade dos Homens, fundada no amor de si até o desprezo de Deus; e a Cidade de Deus, fundada no amor de Deus até o desprezo de si.

Ambas estão misturadas, tanto na história quanto no coração humano. A primeira busca poder, glória e posse — mas colhe inquietação. A segunda vive de fé, esperança e caridade — e encontra paz mesmo em meio ao caos.

Quando olhamos o mundo atual, é difícil negar: somos mais Cidade dos Homens do que Cidade de Deus. Vivemos sob o império do “eu”, cercados por informações, mas famintos de sentido.
Como advertiu Hannah Arendt, deixamos de agir juntos — reduzimos a vida ao ciclo de trabalhar, consumir e descansar.
Fromm disse que preferimos “ter” a “ser”. E Charles Taylor observou que, ao perdermos o horizonte do transcendente, achatamos a alma sob o peso do imediato.

No entanto, a Cidade de Deus ainda respira. Ela aparece nos gestos que transcendem o egoísmo: no médico que se doa, no professor que acredita, no artista que cria beleza, no cidadão que age com justiça mesmo quando ninguém vê.
São lampejos do eterno em meio ao provisório, fagulhas do Reino em meio às ruínas.
Esses atos lembram que a felicidade não se encontra no fim da estrada, mas no processo de construir algo que nos ultrapassa.

Reacender a memória da Cidade de Deus não é desejar uma teocracia, mas reencantar a vida — devolver-lhe o sentido do mistério, da reverência, do amor ao bem. É compreender que o homem não vive apenas de necessidades, mas de significados; que uma sociedade justa nasce de corações dispostos a servir, e não apenas a possuir.

Talvez a tarefa de nosso tempo seja essa: reaprender a ser felizes construindo o que não veremos pronto. Servir ao invisível com gestos visíveis; reencontrar, na simplicidade dos dias, o perfume do sagrado que o mundo ainda exala.

E então, leitor:

onde, em meio à poeira da história e à pressa do mundo moderno, você ainda reconhece os sinais da Cidade de Deus?

1 Comentário

  • Rosalina
    Posted 15 de novembro de 2025 at 13:53

    Bem, eu ainda prefiro e oro para que esteja sempre ficada na Cidade de Deus ainda que a correria do mundo moderno tente nos direcionar para uma cidade dos homens. Nesta cidade dos homens, vejo através do viver inocente das crianças e suas indagações, os sinais da Cidade de Deus.

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