1. Introdução
A historiografia brasileira, desde o século XX, consolidou-se fortemente sob a influência das abordagens materialistas e estruturais. O predomínio de interpretações econômicas, políticas e sociais na análise dos processos históricos formou um corpo teórico robusto e coerente, mas que, ao mesmo tempo, contribuiu para afastar o olhar histórico da dimensão subjetiva e simbólica das experiências humanas.
No contexto educacional, essa ênfase materialista — herdada tanto do marxismo quanto do positivismo — reflete-se em práticas de ensino excessivamente descritivas e conteudistas, que tendem a transformar a História em uma sequência de fatos áridos e desconectados do universo sensível dos alunos.
É nesse ponto que a literatura se apresenta não como um adorno didático, mas como um instrumento epistemológico capaz de devolver à História a sua densidade simbólica e humana. A narrativa literária oferece o que a narrativa historiográfica muitas vezes não alcança: o acesso às motivações, às crenças, às emoções e às formas de imaginação que moveram os sujeitos históricos.
2. A historiografia brasileira e sua matriz materialista
A historiografia brasileira foi marcada pela busca de uma explicação científica para o processo histórico. O pensamento de Caio Prado Júnior, em Formação do Brasil Contemporâneo (1942), sintetiza essa visão ao interpretar o Brasil colonial como uma “empresa comercial” voltada à exportação, estruturada sobre bases econômicas de exploração. Da mesma forma, autores como Florestan Fernandes e Sérgio Buarque de Holanda centraram suas análises na formação social e institucional do país, privilegiando estruturas objetivas.
Essa tendência se consolidou também como reação ao romantismo histórico e às narrativas laudatórias do Império, que interpretavam a história nacional sob o prisma heroico. Assim, ao longo do século XX, o enfoque materialista se impôs como o método “sério” e “científico” de se fazer História, reduzindo o campo simbólico — fé, cultura, imaginário — a elementos secundários ou meramente ilustrativos.
O problema, contudo, é que o ensino herdou não apenas o rigor dessas abordagens, mas também sua frieza narrativa. O aluno, diante de uma História que parece movida apenas por forças econômicas e políticas, sente-se afastado da experiência humana que ela deveria evocar.
3. O simbólico e a experiência humana
A História, enquanto ciência humana, não pode prescindir do simbólico. A experiência histórica é, em última instância, uma experiência de sentido.
Entender as Cruzadas apenas como movimentos expansionistas e comerciais, por exemplo, é compreender metade do fenômeno. O outro lado — o das motivações espirituais, do medo do inferno, do desejo de salvação — é o que realmente dá corpo ao imaginário medieval.
Historiadores como Jacques Le Goff e Jean Delumeau contribuíram para recolocar o simbólico no centro da análise, mostrando que a fé, o pecado, o medo e a esperança não são elementos acessórios, mas constitutivos das ações humanas.
Essa virada da história das estruturas para a história das mentalidades permitiu compreender o passado como um território de representações, não apenas de fatos.
4. O ensino da História e a aridez da narrativa factual
Quando o ensino de História reproduz o modelo estruturalista e materialista da historiografia, ele tende a se reduzir a uma pedagogia de memorização. A História torna-se uma sucessão de eventos, datas e leis, desprovida de alma.
Os alunos aprendem o que aconteceu, mas raramente compreendem por que aconteceu — ou, mais profundamente, como as pessoas viveram o que aconteceu.
Essa distância emocional entre o aluno e o passado é um dos maiores obstáculos para a formação de uma consciência histórica. A História, que deveria desenvolver empatia, torna-se um exercício burocrático.
5. A literatura como via de reencantamento
A literatura pode reaproximar a História de sua dimensão humana.
Ao ler um texto literário, o aluno entra em contato não apenas com fatos, mas com a textura sensível da experiência histórica.
A literatura traduz o simbólico em linguagem, dá corpo à fé, ao medo, à esperança — tudo aquilo que os documentos oficiais silenciam.
Estudar a Idade Média a partir de A Canção de Rolando ou A Divina Comédia é compreender o imaginário cavaleiresco, a ideia de penitência e o desejo de redenção.
Estudar a escravidão brasileira com Navio Negreiro, de Castro Alves, ou Úrsula, de Maria Firmina dos Reis, é compreender o horror e a humanidade que os números da estatística não revelam.
Nesse sentido, a literatura não é apenas “complementar” ao ensino histórico, mas coessencial: ela é o lugar onde o simbólico e o material se encontram.
6. Um ensino que forme pela empatia
Um ensino de História que integre a literatura e o simbólico não é apenas mais atraente — é mais formador.
Ele estimula a imaginação histórica, a capacidade de compreender o outro dentro de seu próprio tempo.
Forma sujeitos capazes de perceber que as motivações humanas são complexas, misturando fé e interesse, amor e poder, utopia e pragmatismo.
A História, assim ensinada, volta a ser o que sempre foi: uma narrativa de humanidade, feita de sangue e sonho, dor e esperança.
7. Conclusão
A literatura devolve à História a dimensão que o materialismo historiográfico — ao buscar objetividade — muitas vezes amputou: a do humano.
Incorporar o simbólico, a fé e a imaginação ao ensino da História não significa abandonar o rigor científico, mas reconhecer que compreender o passado exige também compreender o invisível que move o visível.
Em tempos de descrença e superficialidade, essa integração talvez seja a única forma de formar cidadãos capazes não apenas de saber o que aconteceu, mas de entender o que significou.
Referências
- CAIO PRADO JÚNIOR. Formação do Brasil Contemporâneo: colônia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 [1942].
- FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
- HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
- LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Estampa, 1983.
- DELUMEAU, Jean. O Medo no Ocidente (séculos XIV–XVIII): uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
- GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
- CASTRO ALVES. Navio Negreiro e outros poemas. Diversas edições.
- MARIA FIRMINA DOS REIS. Úrsula. São Luís: Typographia do Progresso, 1859.
