O primeiro gesto simbólico da República brasileira foi, curiosamente, um gesto de cópia. Ainda no dia 15 de novembro de 1889, horas depois da queda da família imperial, os novos donos do poder trataram de criar um pavilhão para o regime nascente. A bandeira provisória que hastearam (rapidamente esquecida, mas reveladora) era um eco tropical da bandeira americana: listras, estrelas, composição estrangeira, apenas pintada de verde e amarelo.
Durou pouco. Em menos de um dia, aquela tentativa foi abandonada. No lugar, manteve-se o fundo da antiga bandeira imperial, substituiu-se o brasão da família reinante por um céu artificial (o céu do Rio de Janeiro no instante exato da proclamação) e, atravessando o centro, inscreveu-se parte de um lema positivista: Ordem e Progresso. Um compromisso estético curioso: conservador na forma, importado no conteúdo, e profundamente ambíguo no sentido.
Não se trata aqui de folclore histórico. Aquele gesto inaugural dizia mais do que parecia. Revelava uma disposição íntima das elites que fundaram a República e que, com o tempo, se disseminou entre os setores mais privilegiados da sociedade brasileira: a ideia de que o Brasil só se realizaria plenamente ao se tornar uma versão adaptada de outro país. Uma cópia possível. Um reflexo aceitável. Uma América em verde e amarelo.
Essa mentalidade atravessou o século. Mudaram-se os discursos, os ídolos, as tecnologias, mas não o espelho. O Brasil passou a se medir por uma régua que não foi feita para ele. Tentamos ser aquilo que não somos, e ao falharmos (inevitavelmente) internalizamos o fracasso como identidade. Não porque sejamos incapazes, mas porque estamos sempre tentando chegar a um destino que nunca foi nosso.
É um tipo de colonialismo silencioso, talvez o mais eficaz de todos: o colonialismo mental. Submetemo-nos a uma ideia de sucesso que não nasce da nossa história, da nossa cultura ou das nossas contradições reais. Somos ensinados a nos ver como uma imitação mal-acabada de algo que nos escapa, como se a nossa existência fosse sempre uma versão imperfeita de outra.
Mas o espelho anda rachado.
Em tempos de redes sociais e vazamentos digitais, em que a informação circula com a velocidade de um clique, a exposição de milhares de documentos ligados ao caso Epstein, somada a episódios recentes da política migratória americana, revela algo que durante décadas foi cuidadosamente embalado: a sociedade que nos acostumamos a idealizar está profundamente adoecida.
Não se trata de um escândalo isolado. Trata-se de sintomas. Uma sociedade em que jovens morrem de desespero (por suicídio, por opioides, por colapsos silenciosos) antes mesmo de envelhecer. Uma sociedade em que a expectativa de vida deixou de crescer e passou a encolher. Uma sociedade em que estar entre os 5% mais ricos do planeta não impede que o indivíduo se veja como um fracassado absoluto.
O americano médio vive no topo da pirâmide global de renda e consumo. Ainda assim, sente-se derrotado. Porque ali, o valor de um homem se mede quase exclusivamente pelo seu sucesso financeiro. Fora disso, resta o rótulo de perdedor. Não é surpresa que tantos desistam antes do tempo.
Essa exaustão moral não é acidente. É estrutura. O caso Epstein não cria a doença; apenas a expõe. Ele ilumina um sistema que naturalizou o vazio, o cinismo e a indiferença como custo do sucesso.
Talvez seja justamente aí que se abre uma fresta de libertação para nós.
Perceber a gravidade da crise americana não deveria nos levar ao desprezo, mas à lucidez. O Brasil não é (nem precisa ser) um Estados Unidos fracassado. Somos outra coisa. Temos outros valores, outras dores, outras possibilidades. Precisamos, sim, enfrentar nossas mazelas. Mas com nossos próprios critérios, nossas próprias perguntas, nossos próprios horizontes.
Talvez o verdadeiro progresso comece quando finalmente largarmos o espelho.
