Sempre gostei de organizar as coisas dentro da cabeça — talvez porque o mundo pareça cada vez mais desorganizado fora dela. Um dia, percebi que as opiniões também precisavam de alguma arrumação. Dividi-as, então, em três gavetas: os palpites, as opiniões e as opiniões qualificadas. Não sei se está certo, mas é o jeito que encontrei de não enlouquecer no meio do falatório geral.
Na primeira gaveta, guardo as opiniões qualificadas — aquelas ditas com crachá e diploma. São as que vêm acompanhadas de selos, relatórios, laudos e carimbos. O médico que fala de saúde, o engenheiro que entende de pontes, o advogado que cita o artigo certo. Durante muito tempo, o que eles diziam era lei — e quem ousasse discordar precisava, no mínimo, de outro crachá do mesmo tamanho.
Na segunda gaveta, ficam as opiniões propriamente ditas. Essas vêm de gente que estuda, lê, se interessa, reflete. Não é especialista, mas não fala à toa. Pensa antes de abrir a boca, e se abre, o faz com a humildade de quem sabe que amanhã pode mudar de ideia. São opiniões que não pretendem vencer discussões, apenas compreender melhor o mundo — e talvez, de quebra, ajudar alguém a não tropeçar no mesmo erro.
Mas é na terceira gaveta que mora o perigo: o palpite. Ah, o palpite!
Esse, confesso, é o esporte nacional. O brasileiro pode até não ter emprego, mas tem opinião — e sobre tudo. O sujeito fala de economia sem nunca ter lido um balanço, de vacina sem entender o que é uma molécula, de política como se tivesse dormido no Congresso e acordado no Planalto. É uma mistura de coragem e ignorância, temperada com arrogância e servida quente nas redes sociais.
Não me incomoda o palpite sobre o futebol, a novela ou o vestido da cantora no programa de domingo. A vida precisa de leveza. O problema começa quando o mesmo entusiasmo se volta para temas que exigem um mínimo de estudo. Aí, o país inteiro vira uma assembleia de achismos.
E quem tenta falar com base em fatos é logo acusado de “achar que sabe demais”.
Talvez seja o preço de vivermos na era em que todo mundo tem voz — e poucos têm escuta.
O barulho é tanto que, às vezes, dá vontade de fazer como o rei da Espanha fez com Hugo Chávez, no meio de um encontro internacional, cansado das interrupções e dos discursos vazios. Virar-se e dizer, com toda a realeza e toda a paciência esgotada:
Por que não te calas?
