Skip to content Skip to footer

A Arte de Criar o Real

Se há algo que me enche de um orgulho quase infantil é quando alguém lê um dos meus contos, franze o cenho e pergunta, meio desconfiado, de quem estou falando. É como se buscassem, por trás das palavras, o rosto real que teria dado origem à personagem. Para mim, essa suspeita é o melhor elogio: sinal claro de que a ficção respirou, ganhou carne e voz. Confesso, em silêncio, que uma ou outra figura nasceu mesmo de alguém que conheci. Mas, como todo escritor que preza a própria sobrevivência, nego até sob tortura.

Nunca tive vocação para erguer mundos onde dragões voam ou feiticeiros explodem estrelas com as mãos. Admiro quem o faz — há méritos incontestáveis na fantasia —, mas meu temperamento sempre preferiu caminhar com os pés no chão. Gosto das histórias que poderiam ter acontecido na esquina de casa, no banco de uma praça esquecida, num quarto onde a luz invade mais tarde do que deveria. Histórias que carregam a poeira do real.

A fantasia, me dizem, tem regras próprias. Não duvido. Mas também me parece que essas regras, sobretudo nos quadrinhos, se curvam com uma facilidade suspeita: um personagem morre na segunda-feira e ressuscita, glorioso, na quinta; alguém descobre, de súbito, um novo poder que resolve o capítulo; um raio, uma asa, um milagre sempre aparecem a tempo. Tolkien, é verdade, foi um caso à parte. Arda obedece às leis que ele mesmo escreveu — e são leis tão sólidas que até o vento parece respeitá-las. Melhor não insistir nesse assunto, antes que a lebre desperte.

Eu, por outro lado, preciso ver, sentir, estudar. Até para descrever um lugar, gosto de pisar no chão dele, de respirar o ar que meus personagens respirariam. Eles são fictícios, claro, assim como suas desventuras. Mas procuro sempre lhes dar aquilo que nos torna humanos: a contradição. Talvez a mais fundamental de todas as nossas características. Somos seres cheios de fendas; delicados num dia, invejosos no outro; capazes de ternura e crueldade na mesma tarde. Por isso desconfio dos que são bons demais. Às vezes me sinto até mais confortável entre os declaradamente ruins: ao menos deles sabemos o que esperar.

Ainda hei de escrever ficção científica. Não agora. Imagino que só me aventurarei por essas galáxias depois da aposentadoria, quando tiver tempo para estudar o suficiente para não cometer heresias científicas. Tomemos Star Wars como exemplo: sabres de luz são lindos, quase poéticos, mas não fazem o menor sentido físico. Talvez por isso a saga ressoe mais como fantasia espacial do que como ficção científica propriamente dita.

No fim, tudo se resume a isso: tocar as pessoas. Falar de temas que pertencem a todos nós — o medo, a perda, o afeto, o desencontro — e, quem sabe, deixar que o leitor leve consigo alguma centelha útil, alguma palavra que lhe sirva adiante. Se a ficção conseguir isso, já terá cumprido o seu milagre.

Deixe um comentário