Não é novidade pra ninguém que trabalho na SME de Barra Mansa. Pois bem: outro dia, sabendo que escrevo, resolveram me incumbir de uma tarefa terrível — avaliar as redações do concurso da rede municipal, dos alunos do 6º ao 9º ano.
Confesso: poucas coisas me deixam tão desconfortável quanto julgar o que outra pessoa escreve. No fundo, cada texto é uma pequena confissão — e até a pior besteira pode ser muito melhor do que aquilo que tanta gente pensa e não tem coragem de escrever.
Ainda assim, movido mais pelo dever do que pela vontade, fiz o que devia. Li atentamente cada redação. E, para minha surpresa (mesmo com algumas letras dignas de decifração arqueológica), encontrei textos muito bons. Das dezesseis redações que me couberam, eliminei apenas duas: uma por excesso de erros e outra porque o autor — não sei o nome, mas não sei por que tenho quase certeza de que era um menino — começou com “Afinal, […]”.
De resto, estavam todas estruturadas direitinho: introdução, desenvolvimento, conclusão — e quase todas com um impecável “Portanto, […]” fechando o raciocínio. As aulas de redação, percebi, estão funcionando.
O tema proposto era a valorização dos idosos — curiosamente, algo na linha do tema do Enem deste ano. E foi aí que minha mente começou a divagar.
Lembrei-me de um texto meu, Teorias de Bolso, em que digo que a juventude é belíssima, mas em matéria de inteligência é um desastre. Ri sozinho, porque ali estava a prova. Os meninos projetavam nos idosos a imagem que viam nos próprios avós: sabedoria, experiência, bondade, uma certa dureza benevolente. Uma visão linda — e um tanto idealizada.
Fiquei pensando: os canalhas também envelhecem.
Comentei a frase entre risos com os colegas, mas a verdade é que não teria coragem de dizê-la aos meninos. Não se deve roubar tão cedo as ilusões que ainda ajudam a vida a parecer bonita.
Talvez o melhor seja mesmo deixá-los descobrirem sozinhos — como todos nós tivemos de descobrir.

1 Comentário
Ana Claudia
Muito bom.