Volta Redonda, escritório central da CSN, 8 de setembro de 1942 – 10h00
A sala de reuniões estava tensa. Macedo Soares sentado à cabeceira da mesa de mogno. À sua direita, Guilherme Guinle, presidente da CSN, com expressão preocupada. À esquerda, três representantes militares – coronel da guarnição federal destacada para proteger a obra. E no centro, sozinho, Batistão.
João Batista da Silva não usava macacão de trabalho. Vestira sua melhor roupa – calça de brim limpa, camisa branca engomada, sapatos engraxados. Cabelos penteados. Postura ereta. Dignidade de homem que sabia estar lutando por causa justa.
Nas mãos, um documento: estatuto da Associação Profissional dos Trabalhadores nas Indústrias Metalúrgicas de Barra Mansa.
Macedo Soares falou primeiro, voz controlada, mas firme:
– Senhor João Batista, entendo suas preocupações. As condições de moradia dos operários não-técnicos são… inadequadas. Reconheço isso.
– Então por que não melhoram? – Batistão não gritou. Sua voz era calma, mas carregada de frustração acumulada. – Há seis meses que nos prometem casas. Há seis meses nos dizem que vão construir vila operária. Mas apenas constroem para os engenheiros. Para os americanos. Para os técnicos.
– Porque – interveio Guinle – os recursos são limitados. A prioridade é a usina. Os fornos. A produção. Quando começarmos a operar, quando houver receita, investiremos em infraestrutura social.
– Quando? – perguntou Batistão. – Mil novecentos e quarenta e cinco? Mil novecentos e quarenta e seis? E até lá, vivemos como animais?
O coronel militar bateu na mesa:
– Cuidado com o tom, operário. Está falando com autoridades.
Batistão virou-se para ele, olhos queimando:
– Estou falando com homens. Como eu. Que comem. Que dormem. Que têm famílias. A diferença é que vocês dormem em camas. Nós, em esteiras. Vocês comem bem. Nós, o resto.
Silêncio pesado.
Macedo Soares respirou fundo:
– O que você quer exatamente?
Batistão abriu o documento. Leu:
– Primeiro: construção imediata de alojamentos dignos para operários não-técnicos. Com água quente. Banheiros adequados. Ventilação. Segundo: melhoria na alimentação. Carne três vezes por semana. Frutas. Verduras frescas. Terceiro: equipamentos de segurança adequados. Botas. Capacetes. Luvas. Quarto: assistência médica expandida. Há um médico para seis mil trabalhadores. Insuficiente.
– E se recusarmos? – perguntou Guinle.
Batistão não hesitou:
– Cruzamos os braços pacificamente. Uma semana. Catorze de setembro. Segunda-feira. Até que nos ouçam.
O coronel levantou-se, furioso:
– Greve em plena guerra? Em obra estratégica nacional? Isso é sabotagem! Traição!
– Isso é direito – corrigiu Batistão, mantendo calma sobrenatural. – Não somos comunistas. Não queremos revolução. Queremos dignidade.
Macedo Soares estudou Batistão longamente. Via um homem honesto. Corajoso. Perigoso. Porque homens honestos e corajosos inspiravam outros. E trabalhadores inspirados eram força impossível de controlar.
– Vou considerar suas demandas – disse Macedo Soares, finalmente. – Apresentarei ao Conselho Diretor. Terá resposta até sexta-feira.
– E a greve?
– Suspensa até receberem resposta. Mas se convocarem greve sem aguardar… as consequências serão severas.
Não era ameaça velada. Era promessa clara.
Batistão assentiu. Levantou-se. Apertou mão de Macedo Soares. Não ofereceu a mão aos outros. Saiu com a dignidade intacta.
Quando a porta fechou, o coronel explodiu:
– Esse homem é um comunista! Obviamente! Precisa ser preso!
– Não temos provas – disse Macedo Soares.
– Então arranjaremos – respondeu o coronel, friamente. – O DOPS está monitorando. Se ele der um passo errado…
Deixou a frase inacabada. Mas todos entenderam.
Volta Redonda, alojamento dos operários, 10 de setembro de 1942 – 23h30
Batistão dormia quando bateram à porta. Não era batida educada. Era martelada violenta. Madeira tremendo. Uma voz gritando:
– Polícia! Abra!
Batistão acordou instantaneamente. Coração disparado. Olhou ao redor. Barraco de madeira. Quatro colegas dividindo espaço minúsculo. Todos acordando assustados.
– O que…?
A porta foi arrombada. Três homens entraram. Não eram policiais uniformizados. Eram do DOPS. Terno escuro. Revólveres. Brutalidade treinada.
Era o Delegado Álvaro Moreira comandava.
– João Batista da Silva?
– Sou eu – Batistão levantou-se. Apenas shorts. Descalço. Desarmado. – O que querem?
– Você está preso. Atividades subversivas. Incitação à greve. Sabotagem nacional.
– Tenho direitos! Habeas corpus! Advogado!
Álvaro sorriu. Sem humor. Sem humanidade.
– Estado de guerra, João Batista. Os direitos estão suspensos. Vem conosco. Quieto. Ou seus amigos também vêm.
Batistão olhou para colegas. Aterrorizados. Encolhidos em beliches. Sabendo que resistência significava morte.
– Vou – disse ele. – Mas vocês vão se arrepender. Não sou comunista. Sou trabalhador. E trabalhadores têm memória longa.
Álvaro deu-lhe um soco no estômago. Batistão dobrou-se. Caiu. Foi arrastado para fora. Jogado em um caminhão fechado. Levado um para lugar desconhecido. E desapareceu.
Volta Redonda, canteiro de obras, 14 de setembro de 1942 – 06h00
Hans chegou para o trabalho e percebeu imediatamente: algo errado. Os operários estavam reunidos em grupos. Conversando baixo. Olhando ao redor nervosamente. Medo evidente.
Aproximou-se do grupo. Reconheceu alguns. Amigos de Batistão.
– O que aconteceu?
O operário mais velho, cinquenta anos, olhos vermelhos de não dormir, sussurrou:
– Levaram Batistão. Ontem à noite. DOPS. Não sabemos onde está.
Hans sentiu algo gelado.
– E a greve?
– Cancelada – disse outro operário, mais jovem, voz tremendo. – Quem vai liderar? Quem vai arriscar? Batistão tinha coragem. Nós… nós temos famílias.
– Mas as demandas…
– Esquece – interrompeu o mais velho, amargamente. – Batistão era único com coragem para enfrentar. Agora… agora só nos resta trabalhar. Calar. Sobreviver.
Hans afastou-se. Sentiu uma mistura de alívio e culpa. Alívio porque a greve cancelada significava menos tensão, menos vigilância. Culpa porque Batistão – homem honesto lutando por justiça – fora destruído.
E eu vou destruir mais, pensou Hans. Se executar plano de Adler, cem, duzentos homens como Batistão morrerão. Por minha mão.
Aquele pensamento revirou seu estômago. Mas engoliu. Continuou trabalhando. Como sempre. Porque decidir ainda era luxo que não podia ter.
Barra Mansa, Praça da Matriz, 27 de setembro de 1942 – 19h30
O domingo terminava. Céu alaranjado. A última luz do dia banhando a Igreja Matriz. Isabel e Hans sentados em um banco. Silêncio confortável. Mãos entrelaçadas.
Mas Hans sabia: precisava falar. Em duas semanas ele precisava descer para o Rio de Janeiro. E ele… ele não saberia o que fazer.
– Isabel – disse ele, rompendo silêncio. – Nos dias 9 e 10 não poderei te ver.
Isabel virou-se. Olhos cor de mel encontrando olhos azuis-acinzentados dele.
– Por quê?
– Preciso ir ao Rio. Assunto… profissional.
Mentira. Mas necessária. Ou não? Deveria mentir para mulher que amava? Porque amava. Percebera há semanas. Não era como Greta. Era diferente. Mais profundo. Mais real. Greta fora obsessão. Isabel era… paz.
– Profissional – repetiu Isabel, voz neutra. – Sempre profissional.
– É importante – insistiu Hans. – Macedo Soares precisa que eu…
– Henrique.
Ela falou seu nome – nome falso, mas que Hans começara a aceitar como real – com firmeza que o silenciou.
– Quantas vezes você foi ao Rio desde que nos conhecemos?
Hans hesitou.
– Três… quatro vezes.
– Cinco – corrigiu Isabel. – Cinco sábados. Sempre o primeiro sábado do mês. Sempre sem explicação. Sempre voltando no domingo à noite. Preocupado. Diferente.
Hans empalideceu. Ela notara. Claro que notara. Isabel não era tola. Era inteligente. Observadora. Professora treinada para perceber padrões.
– Eu…
– O que você faz no Rio, Henrique?
Voz dela não era acusatória. Era cansada. Triste.
– Trabalho – disse Hans, fracamente.
– Mentira.
A palavra caiu como um martelo. Hans ficou mudo.
Isabel soltou a mão dele. Virou-se completamente. Olhos brilhando. Não de raiva. De dor.
– Eu te amo, Henrique. Amo desde o primeiro dia no cinema. Quando você sorriu para mim. Quando falou de aviões. Quando me tratou como… como pessoa. Não como mulher bonita. Não como troféu. Mas como igual.
Ela respirou fundo.
– Mas você… você tem segredos. Vejo em seus olhos. Em seu silêncio. Às vezes você está comigo, mas não está. Está longe. Em um lugar que não posso alcançar. Em um passado que não posso conhecer.
Lágrimas começaram a descer. Isabel não as enxugou. Deixou cair.
– Quem foi ela, Henrique?
Hans piscou.
– Quem?
– A mulher que te destruiu. Porque algo te destruiu. Alguém te destruiu. Vejo nos seus olhos. Dor antiga. Nunca cicatrizada. E você… você tem medo de me amar completamente porque tem medo que eu faça o mesmo.
Hans não conseguia respirar. Como ela sabia? Como via através dele tão claramente?
– Isabel…
– Não minta – pediu ela, a voz quebrando. – Pelo amor de Deus, Henrique, não minta mais. Não precisa me contar tudo. Não precisa me contar nomes. Mas… me diga que há futuro. Me diga que seus segredos não vão nos destruir. Me diga…
Ela soluçou.
– Me diga que me ama.
Hans ficou paralisado. Mente gritando: Não diga! Não se comprometa! Espião não ama! Henrique é máscara! Hans Krueger é real! E Hans Krueger não merece amor!
Mas o coração, estúpido e teimoso, falou mais alto. Hans puxou Isabel. Segurou o rosto dela entre as mãos. Olhou nos olhos cor de mel que viam através de todas as máscaras. E beijou-a.
Não foi beijo tímido. Não foi beijo educado. Foi beijo desesperado. De homem afogando agarrado à tábua de salvação. De espião encontrando humanidade. De Hans Krueger descobrindo que ainda tinha alma.
Quando se separaram, ambos ofegantes, lágrimas misturadas, Hans sussurrou:
– Eu te amo.
Três palavras. Simples. Devastadoras.
– Te amo, Isabel. Não sei se mereço. Não sei se posso. Mas te amo. E… e vou contar tudo. Algum dia. Quando puder. Quando for seguro. Mas agora…
Ele segurou as mãos dela.
– Agora só precisa confiar. Confiar que há um futuro. Que meus segredos não vão nos destruir. Que sou… que sou um homem bom. Tentando ser.
Isabel estudou-o. Longa. Intensamente. Depois, lentamente, assentiu.
– Confio.
Duas palavras que quebraram a última resistência de Hans. Ele a puxou novamente. Abraçou-a forte. O rosto enterrado em cabelos castanhos que cheiravam a shampoo de rosas. E permitiu-se sentir.
Amor. Medo. Esperança. Desespero. Tudo misturado. Tudo esmagador.
E tomou a decisão. Finalmente. Não executaria o plano de Adler. Não mataria aqueles trabalhadores. Não destruiria a usina. Não serviria ao Reich que o usara como ferramenta descartável por anos.
Serviria a Isabel. Serviria ao futuro que ela oferecia. Serviria a Henrique Weissmann, que aos poucos tornava-se mais real que Hans Krueger.
Mas não podia simplesmente recusar Adler. Isso significaria morte. Dele. De Isabel. Adler não toleraria traição. Então precisava ser esperto. Fingir obediência. Preparar sabotagem. Mas… garantir que fosse descoberta antes de detonar. Alertar autoridades. Salvar vidas. E destruir Adler no processo.
Traição completa. Do Reich. De tudo que fora.
Mas pela primeira vez, Hans não se importava. Porque Isabel valia mais que qualquer causa. Qualquer pátria. Qualquer missão.
Barra Mansa, Avenida Joaquim Leite, 3 de outubro de 1942 – 14h00
A cidade inteira celebrava. Cento e dez anos de emancipação político-administrativa. Barra Mansa, a antiga Vila de São Sebastião.
A Avenida Joaquim Leite estava decorada. Bandeiras coloridas. Bandeirolas. Palco montado em frente ao Cine Theatro Éden. Banda municipal tocando marchas. Famílias inteiras nas ruas. Crianças correndo. Vendedores ambulantes gritando. Festa popular. Alegria genuína.
Hans e Isabel caminhavam de mãos dadas. Ele vestindo terno claro. Ela, vestido azul-claro que realçava seus olhos. Pareciam um casal perfeito. Feliz. Normal.
E pela primeira vez, Hans sentia-se assim. Normal. Não um espião. Não um impostor. Apenas Henrique Weissmann, engenheiro, namorado de Isabel de Azevedo, cidadão de Barra Mansa.
– Feliz? – perguntou Isabel, sorrindo.
– Muito – respondeu Hans. Era verdade.
Passaram por barraca de algodão-doce. Isabel queria. Hans comprou. Ela comeu como criança, rindo quando o açúcar grudou no nariz. Hans limpou com seu lenço. Um gesto íntimo. Carinhoso.
– Sabe – disse Isabel, depois de terminar algodão-doce – quando te conheci, pensei que você era homem mais sério e triste que já vira.
– E agora?
– Agora – ela inclinou cabeça, estudando-o – vejo sorrisos. Raros. Mas reais. Você está… descongelando.
Hans riu. Som que surpreendeu até ele mesmo.
– Descongelando. Boa metáfora.
– Sou professora – sorriu Isabel. – Metáforas são minha especialidade.
Passaram resto da tarde na festa. Assistiram ao desfile cívico. As crianças do Grupo Escolar Fagundes Varela – alunos de Isabel – marchando com uniformes impecáveis. Isabel acenou. Eles acenaram de volta, gritando “Professora Isabel!”
Comeram pastel. Beberam guaraná. Assistiram apresentação de capoeira – arte marcial brasileira disfarçada de dança. Hans ficou fascinado. Movimentos fluidos. Violência escondida em beleza. Como tudo no Brasil. Paradoxos constantes.
Quando o sol começou a descer, sentaram-se em um banco na Praça da Matriz. A última luz dourada banhando a igreja. O sino tocando seis horas. Dia perfeito terminando.
– Henrique – disse Isabel, apoiando cabeça em ombro dele. – Obrigada.
– Por que?
– Por hoje. Por estar aqui. Por… por me amar.
Hans beijou topo da cabeça dela.
– Obrigado a você. Por me ensinar a viver novamente.
Ficaram assim. Silenciosos. Conectados. Enquanto Barra Mansa celebrava e Hans Albrecht Krueger tomava decisão final e irreversível: trairia o Reich. Ficaria com Isabel. E pagaria o preço que viesse. Porque pela primeira vez em anos, tinha algo mais importante que a missão. Tinha amor. E amor valia qualquer sacrifício.
