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A Iara da Boa Sorte

Era o começo dos anos 1960 quando Iara desceu do sertão da Fumaça com o marido, João, e os cinco filhos. Vieram a pé em parte da viagem, pegando carona em caminhões, trem e esperança. Diziam que em Barra Mansa havia trabalho, e João, pedreiro de primeira, acreditou que ali poderia recomeçar.

Mas o tempo não ajudou. As fábricas da região não queriam homens de cinquenta anos. Diziam que era velho demais para o serviço pesado, novo demais para se aposentar. João passou a viver de bico, levantando parede para uns, ajeitando telhado para outros, sempre com a promessa de dias melhores que nunca vinham.

Quando começaram a ocupar o que mais tarde seria o bairro Boa Sorte, João não tinha dinheiro para comprar lote nem coragem de voltar para sua terra. Fez o que muitos faziam: fincou estaca e tomou um pedaço de terra à beira do ribeirão Barra Mansa. Em poucos dias, ergueu com as próprias mãos um casebre de pau a pique. Era pequeno, mas cabia a família toda — e, à noite, cabia também os sonhos.

Iara fazia o lugar parecer maior. Cantava desde cedo, quando o sol ainda se espreguiçava nos telhados improvisados. Cantava enquanto lavava roupa nas águas do ribeirão, cercada de outras mulheres, o riso se misturando à espuma. Sua voz tinha algo de doce e antigo, um encanto que parecia vir da mata. Os vizinhos diziam que Iara cantava como quem rezava.

Foi numa noite de março que o céu se abriu em cólera. No Sertão do Hortelã, uma chuva desceu com tanta força que o ribeirão cresceu de repente. Ninguém teve tempo de fugir. A tromba d’água levou galinhas, panelas, sonhos — e levou também o barraco de João e Iara, com eles e as crianças dentro. Na manhã seguinte, o silêncio pesava sobre as margens.

Os vizinhos choraram. Fizeram cruz, acenderam vela, prometeram missa. Mas com o tempo, começaram a dizer que Iara não tinha partido. Que nas noites úmidas, o ribeirão voltava a cantar — não com o som da correnteza, mas com uma voz de mulher, macia e triste, que vinha de dentro d’água.

Diziam que era ela, Iara, que continuava morando ali, não mais em sua casa, mas nas águas. E que seu canto atraía os homens e mulheres que, como ela, vinham buscar um lugar para viver. Gente pobre, encantada pela promessa de Boa Sorte, fincando barracos cada vez mais perto do ribeirão.

Com o passar dos anos, o bairro cresceu, e o canto de Iara continuou. Alguns afirmavam ouvir sua voz ao amanhecer, quando a névoa cobria o vale. Outros garantiam que ela aparecia nas enchentes, flutuando por entre galhos e destroços, chamando pelo nome dos que moravam à beira.

E há quem diga — embora poucos tenham coragem de repetir — que políticos da região, em véspera de eleição, vão até o ribeirão à noite. Levam flores, deixam oferendas, murmuram promessas. Dizem que fazem pacto com Iara, pedindo sorte, votos, poder. E ela, em troca, exige apenas uma coisa: que façam vista grossa para os que vivem encantados pelo seu canto.

Por isso, o ribeirão segue cheio de gente, casas, vozes — e segredos.
E, quando chove forte no Sertão do Hortelã, há sempre quem reze baixinho, temendo ouvir de novo a canção de Iara pedindo de volta a vida que a correnteza levou.

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