Na tarde morna de 24 de dezembro de 1969, Margarida caminhava devagar pela rua de terra, levando contra o peito um saco de papel leve como uma promessa. Tinha acabado de completar dez anos. Terceira de sete filhas — Violeta, Camélia, Margarida, Azaleia, Rosa, Magnólia e a pequena Melissa ainda ensaiando o primeiro balbucio — sentia-se, naquele instante, como se carregasse o mundo nas mãos.
O ano tinha sido generoso. Pela primeira vez desde o sarampo que quase a arrancara da vida, conseguira frequentar a escola sem interrupções. Aprovada. O diploma do primeiro sucesso escolar não vinha em papel timbrado, mas no sorriso miúdo da mãe quando recebera a notícia.
Alguns meses antes começara a trabalhar na casa de Dona Fátima. A patroa dizia “ajudar”, mas Margarida, com seus nove anos recém-fugidos, já sabia fazer de tudo: varrer, lavar, encerar com o corpo inclinado como gente grande. Era o seu pequeno tributo à sobrevivência da casa.
As irmãs mais velhas também rendiam o que podiam. Violeta trabalhava no Centro Social e trazia todos os dias a sobra da sopa — fio de vida para o café da manhã. Quando não havia sopa, Margarida fazia o trajeto de mais de um quilômetro até a escola, rezando para que o desjejum ainda não tivesse acabado. Se chegasse tarde, restava esperar a merenda, que para ela tinha gosto de banquete. Os meses de férias eram um vale árido que não tinha fim.
A rotina familiar seguia uma coreografia ensinada pela necessidade: pela manhã, a mãe cuidava de Magnólia e Melissa enquanto as outras estudavam; à tarde era Azaleia quem vigiava as pequenas; à noite, Margarida assumia as irmãs enquanto a mãe preparava a ceia magra que o pai, quando aparecia, comia primeiro.
O pai… ah, o pai. Homem de braços fortes e coração fraco. Trabalhador, sim, mas como se trabalhasse apenas para alimentar seus próprios demônios. A cachaça era sua missa diária, e as mulheres da rua escura seu feriado. A violência era visita constante, acordada por qualquer choro, qualquer ruído, qualquer fiapo de contrariedade que o mundo se atrevesse a lhe oferecer. A mãe, ainda apaixonada, suportava tudo com silenciosa teimosia — e por isso sofria mais do que dizia.
Naquele dia, porém, Margarida voltava da casa de Dona Fátima com uma espécie de júbilo secreto. A patroa a fizera ajudar nos preparativos da ceia: pernil perfumado, peru dourado, legumes colorindo tigelas como pinturas. Os cheiros se infiltraram nela como um sonho proibido. Era tortura e encanto.
Mas o verdadeiro milagre veio quando Dona Fátima pediu que ela trocasse o presépio antigo por um novo, comprado em Aparecida. O velho, gasto e quebrado, foi colocado num saco para ser jogado no rio.
— Dona Fátima… posso ficar com ele? — Margarida perguntou, segurando o saco como se segurasse a própria fé.
— Claro, minha filha — respondeu a patroa, com um sorriso distraído.
E assim Margarida caminhava para casa com o coração cheio de uma alegria que nem sabia nomear. Imaginava o rosto da mãe ao ver o presépio. Naquela noite não haveria presentes — nunca houve — e o jantar seria apenas uma galinha magra, cujas partes boas iriam para o pai. Mas ela levaria, enfim, um enfeite sagrado, uma luz.
Pelo caminho rezou baixinho para o Menino Jesus:
que houvesse comida,
que a mãe tivesse saúde,
que as irmãs rissem,
e que o pai… bem, que o pai fosse menos sombra.
Ao chegar em casa, montou o presépio num banquinho na sala estreita e acendeu uma vela. As irmãs se ajoelharam ao redor, como se a luz tremulante fosse um sol doméstico capaz de iluminar tudo.
Depois, como era seu turno, foi buscar água no poço e deu banho nas duas menores. Vestiu-as com as roupas mais limpas que tinham e amarrou em seus cabelos as fitas vermelhas compradas com suas moedinhas guardadas. Não havia luxo maior que cuidar das irmãs — era sua maneira infantil de desafiar o mundo.
Todas foram juntas à missa. Ao passarem em frente ao bar, viram o pai encostado ao balcão, tão bêbado quanto um peru de Natal prestes ao corte. A mãe apenas abaixou a cabeça e seguiu.
Na volta, ele ainda não estava em casa. O medo e o alívio se misturaram na sala como fumaça. O bar já estava fechado; a mãe, inquieta, sabia onde ele estaria.
Foi perto da meia-noite que ele entrou cambaleando. E então o Natal desabou. A reclamação tímida da esposa virou bofetada. O presépio, que Margarida havia montado com devoção, saiu voando quando o pai jogou o banquinho para apoiar as pernas. As imagens se quebraram no chão como ossos frágeis.
Margarida juntou os cacos em silêncio, chorando com a delicadeza dos que não aprenderam a odiar.
— Por que está chorando? — rugiu o pai.
— Por nada, pai…
— Vou lhe dar um motivo.
A bofetada que veio lhe tirou o chão e o fôlego.
Naquela noite, nem a fome resistiu ao desgosto.
Dormiu abraçada aos pedaços do Menino Jesus, rezando por um mundo possível.
Quando acordou, o pai já tinha ido embora. A mãe passava café ralinho na cozinha e lhe examinou o rosto.
— Está um pouco inchado, mas melhora — disse, tentando consolar.
— Mãe… até quando ele vai ser assim?
— Um dia, minha filha… um dia ele se arrepende.
Margarida então perguntou pelos cacos. A mãe apontou para a sala.
No canto, o banquinho. Sobre ele, o presépio.
O pai, antes de desaparecer novamente, havia colado cada pedaço com um cuidado inesperado. As pequenas rachaduras — como as da família — continuavam lá, mas agora sustentadas por algo que lembrava remorso.
Margarida sorriu pela primeira vez naquele Natal.
E então vieram as vozes.
Cantoria juvenil se aproximando da casa.
Palmas no portão.
Eram os amigos de Violeta, do grupo de jovens da Igreja. Tinham ouvido os gritos na noite anterior e resolveram trazer alegria, comida, afeto — e sobretudo esperança.
A casa, tão pequena e tão farta de dores, encheu-se naquele instante de algo que Margarida, muito mais tarde, chamaria de milagre.
Naquele 25 de dezembro, pela primeira vez, sentiu que a salvação podia vir também pelas mãos dos vivos.
