Ninguém, absolutamente ninguém, acreditaria se não fosse verdade. O ano era 1970 e Sr. José, metalúrgico da Companhia Barbará, carregava nos ombros a rotina miserável de todo operário: o sino da fábrica ditava suas manhãs, o ferro moldava seu corpo, e o suor escorria até no silêncio das noites abafadas. Morava com a esposa, Dona Ambrosina, e três meninas numa casinha miserável enfiada entre a Vila Operária e a Vila Elmira.
Era uma casa sem luz elétrica, um caixote cercado de eucaliptos que, à noite, sussurravam como almas penadas. No escuro, a lamparina ardia feito vela de velório. Era esse o lar do Sr. José: um pedaço de escuridão com cheiro de querosene.
Naquela noite de janeiro, depois do jantar ralo — feijão ralo, angu mais ralo ainda —, José já estava deitado, só de cueca, roncando um sono sempre leve, sempre desconfiado. Foi quando ele viu. Na janela aberta, um vulto peludo, alto, mais alto do que qualquer cristão que ele conhecesse. Olhava para dentro como quem escolhe a vítima no açougue.
Dona Ambrosina não viu nada, continuava sonhando com panelas cheias, com roupas novas para as meninas. José, não. José estava diante do demônio. A garrucha em cima do guarda-roupa, inalcançável. Restava-lhe apenas o corpo e a coragem.
E José tinha coragem. Saltou pela janela com um grito selvagem, um grito que faria corar os generais da época. Caiu em cima da coisa peluda, e no chão rolou o homem e a besta, a besta e o homem, como dois amantes furiosos. Dona Ambrosina acordou no sobressalto e correu à janela. O que viu foi o marido em transe, agarrado a um monstro que guinchava como porco degolado.
As meninas choravam, acendiam lamparinas com mãos trêmulas. E lá fora, o espetáculo dantesco: José enforcando o bicho com um mata-leão de operário. O monstro reagiu, arranhou-lhe as costelas, rasgou-lhe a carne até o osso. O sangue escorreu quente, e José gritou. A luta terminou com o bicho fugindo ereto, como homem.
José ficou no chão, arfando. O sangue lhe dava uma dignidade trágica. Um herói sem medalha, um Cristo operário crucificado na terra batida.
A ferida demorou a fechar, mas não foi só a carne que se transformou. Desde aquela noite, toda sexta-feira, fosse lua cheia ou lua nova, o Sr. José mudava. Era outra pessoa. Tomava banho de regra, fazia a barba com navalha, passava perfume barato. Dona Ambrosina engomava a roupa, e ele se vestia como príncipe de subúrbio.
E então saía. Saía para uivar, não para a lua, mas para as ruas. O lobisomem da Barbará vagava até as casas de tolerância, onde gastava o pouco que tinha. Uivava entre mulheres pintadas, bebia até a vergonha, e só voltava de madrugada, arrastando a carcaça, mais bicho do que homem.
E Dona Ambrosina chorava. Chorava porque seu marido fora mordido pelo diabo, mas, no fundo, sabia: o diabo já morava nele muito antes daquela noite.
