Santos, Rua XV de Novembro, 15 de abril de 1937 – 10h00
O escritório de Oswaldo Richter – Importação e Exportação ficava no terceiro andar de um edifício comercial no centro de Santos, com vista para o porto. Sala pequena mas adequada: mesa de mogno, arquivo metálico, máquina de escrever Remington, telefone preto reluzente. Na parede, calendário da Hamburg-Süd, companhia de navegação alemã. Discreta propaganda.
Hans Albrecht Krueger – agora Oswaldo Richter em todos os documentos – sentava-se atrás da mesa, revisando relatórios. Importação de máquinas industriais da Alemanha. Exportação de café brasileiro. Negócios legítimos que mascaravam a espionagem ilegal.
O disfarce era perfeito.
Parou em um relatório. Cia. Brasileira de Metalurgia produzia tubos de ferro fundido por centrifugação – tecnologia brasileira inventada por Demètre Sensaud de Lavaud e Fernando Arens em 1909, patenteada, revolucionária. Hans, como “importador”, tinha desculpa perfeita para visitar fábricas, estudar processos, fazer perguntas técnicas. Ninguém suspeitava. Comerciantes fazem essas coisas.
Bateram à porta. Hans guardou os relatórios na gaveta, trancou.
– Entre.
Friedrich Adler entrou, terno branco de linho, chapéu panamá na mão. Fechou a porta, sentou-se sem ser convidado.
– Oswaldo – disse ele, em português. Nunca falavam alemão em público. Nem em privado, se possível. Precaução. – Como vão os negócios?
– Bem – respondeu Hans, também em português. Seu sotaque era quase imperceptível. Quase três meses no Brasil, falando apenas português, haviam aperfeiçoado o disfarce. – Visitei três fábricas esta semana. A Companhia Brasileira de Metalurgia, em São Paulo. Interessante.
Adler acenou, indicando que continuasse.
– A tecnologia de centrifugação é brasileira – explicou Hans, mudando para alemão agora que estavam a sós. – Inventada aqui. Primeiro no mundo. A máquina primitiva foi testada em Santos em 1915. A produção comercial começou logo depois. Hoje, a patente é usada globalmente. Até na Alemanha, sob licença.
– E isso nos interessa por quê?
– Porque Baldomero Barbará – empresário, industrial – adquiriu a patente em 1929. Fundou a Cia. Mineira de Metalurgia em Caeté, Minas Gerais. Em 1932, incorporou a Cia. Brasileira de Metalurgia dos inventores originais e criou a BARBARÁ S.A.
Hans abriu a gaveta, mostrou recortes de jornais, fotografias, anotações técnicas.
– E agora, em 1937, Barbará está construindo nova fábrica. Localização: Barra Mansa, Estado do Rio de Janeiro. Próxima dos dois maiores centros consumidores: Rio e São Paulo. A inauguração será em agosto.
Adler estudou os documentos. Seus olhos astutos processavam informações como máquina.
– Barra Mansa – murmurou. – Interessante. Muito interessante.
– Por quê?
– Porque – disse Adler, acendendo cigarro – Barra Mansa não é apenas cidade em crescimento. É localização estratégica. Vale do Paraíba. Ferrovia conectando os três estados mais importantes. Rio Paraíba do Sul. E…
Ele fez uma pausa, fumou, continuou:
– O Vale do Paraíba está sendo estudado pela Comissão Nacional de Siderurgia como possível local para uma usina estatal. A grande usina. O projeto que Vargas promete há anos.
Hans sentiu adrenalina. Era a primeira vez desde que chegara ao Brasil.
– Tem certeza?
– Absoluta. Engels – nosso homem na AEG – obteve relatórios técnicos. Três locais finalistas: Itabira (Minas), Santa Cruz (Rio), e o Vale do Paraíba.
– Então devemos vigiar Barra Mansa.
– Exatamente. E você, Oswaldo, tem a desculpa perfeita. Visitará a inauguração da Metalúrgica Barbará em agosto. Como importador interessado em tecnologia metalúrgica. Observará. Aprenderá. Reportará.
Hans assentiu. Missão clara. Objetivo definido.
– Mais alguma coisa?
Adler apagou o cigarro no cinzeiro de vidro.
– Sim. Cuidado. O DOPS – Departamento de Ordem Política e Social – está mais ativo. Vargas reprimiu comunistas em 1935. Agora vigia alemães também. Somos suspeitos. Mantenha o disfarce impecável. Seja Oswaldo Richter. Sempre.
Hans tocou no passaporte brasileiro dentro da gaveta da mesa. Oswaldo Richter. Nascido em Blumenau, Santa Catarina. Filho de imigrantes alemães. Comerciante respeitável. Cidadão brasileiro.
– Sou Oswaldo Richter – disse ele. – Hans Krueger morreu em Hamburgo.
Adler sorriu.
– Bom. Mantenha assim.
Barra Mansa, Companhia Metalúrgica Barbará, 24 de agosto de 1937 – 14h00
A cerimônia de inauguração foi menor que a do Moinho em 1932, mas mais técnica. Menos teatral, mais industrial. Cem convidados: empresários, engenheiros, políticos locais. Baldomero Barbará – argentino naturalizado brasileiro, sessenta e seis anos, bigode bem aparado, olhos de quem construiu império do nada – discursava no palanque improvisado.
Hans estava no fundo, anotando tudo em caderneta pequena. Oswaldo Richter, comerciante curioso, fazendo seu trabalho.
– Esta fábrica – dizia Barbará, voz forte, sotaque castelhano evidente – representa o futuro da metalurgia brasileira. Produziremos tubos de ferro fundido por centrifugação. Tecnologia brasileira. Patente brasileira. Mas agora, produção em escala industrial.
Aplausos educados.
– A capacidade inicial é modesta – continuou Barbará. – Mas expandiremos. Porque o Brasil precisa. Saneamento. Água potável. Gasodutos. Tudo requer tubos. E nós forneceremos.
Mais aplausos.
Hans observou ao redor. O edifício da fábrica: paredes de tijolo, telhado metálico, chaminé alta. Pátio amplo com espaço para expansão. Acesso ferroviário direto. Proximidade do Rio Paraíba. Logística perfeita.
E percebeu: não era apenas sobre tubos. Era sobre infraestrutura. Barra Mansa tinha tudo que uma grande usina siderúrgica precisaria. Tudo.
Após a cerimônia, Hans conseguiu tour pela fábrica, acompanhado por engenheiro jovem, talvez vinte e cinco anos, entusiasta.
– O processo de centrifugação – explicava o engenheiro, gritando sobre o ruído das máquinas – consiste em vazar metal líquido dentro de molde cilíndrico em alta rotação. A força centrífuga distribui o metal uniformemente, criando tubo de espessura consistente e qualidade superior.
Hans assentiu, fazendo perguntas técnicas, anotando respostas. Mas sua mente estava em outro lugar. Pensando não em tubos, mas em fornos. Não em centrifugação, mas em altos-fornos. Não no presente, mas no futuro.
Quando o tour terminou, Hans agradeceu, voltou para São Paulo de trem e de lá para Santos na manhã seguinte. E escreveu relatório detalhado para Berlim.
Barra Mansa é ideal para siderurgia em grande escala. Ferrovia. Rio. Terras planas. Já possui indústria metalúrgica estabelecida (Barbará e Siderúrgica Barra Mansa em vias de iniciar suas atividades). Vargas escolherá aqui. Certeza de 80%.
