Skip to content Skip to footer

A Dama do Cemitério

Há quem diga que, nas madrugadas de sexta-feira, quando o sino da Matriz de São Sebastião bate doze vezes, uma mulher de branco cruza em silêncio o portão de ferro do cemitério municipal.
O vento se agita, os cães se calam, e o som de passos leves percorre as ruas do centro.
Chamam-na Dama do Cemitério.
Uns juram que reza pelos vivos. Outros, que vem cobrar as dívidas dos mortos.

Mas os mais antigos ainda se lembram do nome que ela teve em vida: Carmem.

Era a década de 1970. Carmem, professora primária no Asilo das Órfãs — escola dirigida pelas irmãs franciscanas de Nossa Senhora do Amparo —, dividia os dias entre o catecismo dos pequeninos na Matriz de São Sebastião e o sobrado da Rua Barão de Guapy, onde morava com a mãe.

Tinha vinte e dois anos. Era bonita — bonita de um jeito que chamava atenção até quando tentava desaparecer. Mas nunca tivera pretendentes. Dona Lurdes, sua mãe, era dessas carolas de missal e terço que viam tentação até no vento. Não deixava que homem algum se aproximasse. As roupas de Carmem cobriam-na dos ombros aos tornozelos, e o véu branco, mesmo depois das reformas conciliares, continuava obrigatório. “Mulher decente cobre a cabeça na casa de Deus”, dizia a mãe.

Às vezes, confundiam-na com as noviças do asilo. Mas por baixo das saias comportadas, Carmem carregava um fogo silencioso. Um fogo que a fazia corar diante do espelho e procurar o confessionário para expurgar os pensamentos que a perseguiam.


Numa tarde quente de novembro, ao sair da Matriz, trombou com um homem.

— Não olha pra onde anda, não? — disse, irritada.
— Perdoe-me, senhorita. Estava distraído — respondeu ele.

Era moreno, alto, de porte atlético. O sorriso dele desmontou as defesas da moça. Carmem sentiu o rosto em chamas.
— Está desculpado — murmurou, quase sem voz.

Voltou para casa atordoada. À noite, o calor lhe subia pela pele como febre. Virava-se na cama tentando rezar, mas era o sorriso do desconhecido que lhe vinha à mente — o sorriso e o peito largo sob a camisa clara.

Durante os dias seguintes, não conseguiu esquecê-lo. Na escola, na cozinha, até durante o rosário com a mãe, o homem aparecia em sua memória, tomando-a por inteiro.

Decidiu se confessar. Não podia continuar carregando aqueles pensamentos impuros.


Naquela época, as confissões já não eram mais feitas no confessionário. Os fiéis eram atendidos na casa paroquial, a mesma onde Carmem dava catequese. Ao chegar, perguntou à secretária:

— Quem está atendendo as confissões hoje?
— Padre Roberto. Mas pode chamá-lo de Padre Beto. É novo, chegou anteontem.

Carmem estranhou. “Padre Beto?” — parecia nome de menino de bar, não de sacerdote.

Depois da catequese, dirigiu-se à salinha reservada. E quase desmaiou. O novo padre era o jovem desconhecido.

Sem batina, vestia uma camisa de linho de mangas curtas, fina o bastante para revelar o contorno dos músculos. Do pescoço pendia uma cruz que, em vez de santificá-lo, o tornava ainda mais atraente.

Carmem quis sumir. Como confessar que o motivo do pecado estava ali, diante dela? Inventou qualquer culpa e recebeu a absolvição, mas saiu dali mais perturbada do que antes.

Aquela noite foi uma tortura. Tomou banho frio, rezou em lágrimas, mas o rosto do padre vinha-lhe como tentação.


Nos domingos seguintes, era quase um suplício vê-lo celebrar a missa. Não teve coragem de comungar. Disse à mãe que não estava em estado de graça. Dona Lurdes, desconfiada, nada perguntou.

Da sala de catequese, Carmem enxergava o gabinete do padre pela janela do jardim de inverno. Um dia, viu quando uma funcionária lhe derrubou café na camisa. Padre Beto, naturalmente, tirou-a diante dela. Carmem paralisou. O peito moreno, o suor na pele. Teve de sentar-se para não cair.

Adoeceu. Pediu que outra catequista assumisse sua turma. Em casa, a mãe a cercava de perguntas, e ela apenas chorava.

Não podia contar que estava apaixonada por um padre.


No dia seguinte, foi à paróquia pedir dispensa da catequese.

— O que houve, minha filha? — perguntou o pároco.
— São questões pessoais, reverência.
— Vou conversar com sua mãe.
— Por favor, não faça isso.

Nesse instante, entrou Padre Beto com um recado. Ao vê-lo, Carmem empalideceu.

— Esta moça quer deixar a catequese — explicou o pároco. — Nossa melhor catequista!

Quando o superior se ausentou, Padre Beto olhou-a com gentileza.
— O que está havendo, Carmem?

Ela tentou responder, mas as palavras saíram como um soluço:
— Estou apaixonada pelo senhor. Penso no senhor o tempo todo… Na escola, em casa… até quando rezo!

Padre Beto ficou mudo. Depois, sorriu — aquele mesmo sorriso que a desarmava.
— O amor, Carmem, não é pecado.
— O que eu penso… é — respondeu ela, chorando. E saiu correndo.

Ele foi atrás, temendo que ela se atirasse na rua. Segurou-lhe o braço. O toque dele a atravessou como corrente elétrica. Por um instante, ficaram imóveis, um encarando o outro. E algo passou entre os dois — algo que nem um nem outro ousou nomear.

Desde esse dia, Carmem não deixou mais a catequese. Passou a viver de olhares roubados. Havia nela uma nova serenidade, feita de calma e febre misturadas.


Meses depois, Padre Beto a chamou ao gabinete. Estava trêmulo.
— Carmem… se eu deixasse o sacerdócio… haveria uma chance para nós?

Ela nada respondeu. E ele a beijou. Longamente.

Foi o início do fim.

O romance, clandestino e febril, logo se tornou segredo mal guardado. As beatas cochichavam nas filas da comunhão, e o bispo, pressionado, mandou transferir o padre para Juiz de Fora.

Dias depois, chegou a carta de despedida.

Carmem leu, chorou e se calou.
Deixou de sair. Não ia mais à missa.
A cidade inteira sussurrava o nome dela como quem pronuncia uma vergonha.

Até que, numa noite de procissão, Dona Lurdes voltou para casa e encontrou a filha pendurada no quarto, o corpo leve como o de uma boneca abandonada.


Carmem foi sepultada no cemitério municipal.

Mas, dizem, nas sextas-feiras, ouve-se o som de passos apressados e o eco de um véu arrastando-se entre os túmulos.

Alguns juram ter visto uma mulher jovem vagando pelas ruas próximas à matriz — pálida, de olhos fundos, vestida de branco.

Uns a temem, outros a chamam de santa.

Mas quem a vê de perto diz que ela não assombra: apenas lembra.
Lembra à cidade que a hipocrisia também mata,
e que às vezes o inferno começa dentro do coração dos justos.

Deixe um comentário