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Capítulo 21 – Quando a Guerra Realmente Começou

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 7 de dezembro de 1941 – 08h30

Getúlio Vargas estava tomando café quando Osvaldo Aranha entrou correndo no gabinete privado. Sem bater. Sem pedir licença. Aranha nunca fazia isso. Sinal de urgência extrema.

– Getúlio – disse ele, respirando pesado. – Os japoneses atacaram Pearl Harbor. Ontem. 7 de dezembro, horário do Havaí. A esquadra americana foi destruída. Os Estados Unidos estão em guerra.

Getúlio colocou a xícara de café sobre o pires com movimento lento, controlado. Seu rosto não demonstrou surpresa. Não demonstrou nada. Apenas aquela calma perturbadora que caracterizava momentos decisivos.

– Quantos mortos?

– Ainda não sabem. Milhares. A esquadra do Pacífico foi quase aniquilada. Roosevelt falará ao Congresso hoje. Pedirá declaração de guerra.

Getúlio levantou-se. Caminhou até a janela. Lá fora, o Rio de Janeiro acordava sob sol tropical. Cidade inconsciente de que o mundo acabara de mudar para sempre.

– Então começou – disse ele, voz baixa. – A guerra verdadeira. Não mais europeia. Mundial.

– E nós? – perguntou Aranha. – O Brasil?

– Continuamos neutros – respondeu Getúlio, virando-se. – Por enquanto. Mas não por muito tempo. Os americanos pressionarão. Querem bases no Nordeste. Querem minério. Querem aliados. E nós…

Ele fez uma pausa.

– Nós daremos o que eles querem. Mas pelo preço certo. Mais financiamento. Mais tecnologia. Mais poder de barganha. Pearl Harbor foi tragédia apenas para eles. Mas, oportunidade para nós.

Aranha balançou a cabeça. Conhecia Getúlio há tempo suficiente para não se surpreender. Mas às vezes ainda se impressionava com a frieza calculista do homem.

– E a CSN? – perguntou ele.

– Acelerar – disse Getúlio imediatamente. – Duplicar turnos se necessário. A guerra será longa. Quem tiver aço terá poder. E o Brasil terá aço. Nosso aço. Nosso poder.

Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 7 de dezembro de 1941 – 10h00

Friedrich Adler leu o telegrama de Berlim três vezes. Depois queimou no cinzeiro. As cinzas misturavam-se com as de dez cigarros fumados desde que a notícia de Pearl Harbor chegara.

O embaixador Kurt Prüfer estava ao seu lado, lendo telegrama idêntico.

– Acabou – disse Prüfer, voz sem emoção. – O Brasil romperá relações conosco em semanas. Talvez dias.

– Roosevelt forçará – concordou Adler. – E Vargas cederá. Sempre cedeu. Sempre jogou com ambos os lados. Mas agora os lados estão claros. Eixo ou Aliados. Não há meio-termo.

– E nossa rede?

Adler acendeu mais um cigarro.

– Entra em modo de sobrevivência. Dead drops fixos serão abandonados. Localizações rotativas. Códigos novos. Comunicação mínima. E…

Ele hesitou.

– E sacrifícios. Alguns agentes serão queimados intencionalmente. Para proteger outros mais valiosos.

– Hans Krueger?

– Protegido – disse Adler imediatamente. – Ele está profundamente infiltrado na CSN. É nosso ativo mais valioso. Se perdermos todos os outros, mas mantivermos Hans, a missão continua.

Prüfer assentiu.

– Então salve Hans. E queime o resto.

Era ordem. Fria. Brutal. Mas necessária. Porque em guerra de espionagem, alguns agentes eram peões. E alguns eram rainhas. E Hans Albrecht Krueger, enterrado sob identidade de Henrique Weissmann, era rainha. A única que realmente importava.

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 7 de dezembro de 1941 – 20h00

Hans ouviu a notícia de Pearl Harbor no rádio do refeitório. Estava jantando com Heitor, Batistão (que insistira em sentar-se com os engenheiros desde o jogo de futebol, novo ritual), e três outros colegas.

Quando o locutor anunciou – voz grave, solene, carregada de significado histórico –, todos silenciaram.

“…ataque surpresa japonês à base naval de Pearl Harbor… centenas de aviões… navios afundados… milhares de mortos… Presidente Roosevelt…”

Hans continuou comendo. Lentamente. Mecanicamente. Mas sua mente processava furiosamente.

Pearl Harbor significava fim da neutralidade americana. Significava guerra total. Significava que o Brasil, eventualmente, entraria. Significava que a rede alemã seria desmantelada. Significava que Hans ficaria sozinho. Completamente sozinho.

– Filho da puta – disse Batistão, quebrando o silêncio. – Os japoneses são loucos. Atacar os americanos? Vão se foder.

– A Alemanha é aliada do Japão – observou outro operário, cauteloso. – Pacto Tripartite. Se os americanos entram em guerra contra o Japão, entram contra a Alemanha também.

Todos viraram-se para Hans. Henrique Weissmann. Descendente de alemães. Catarinense de origem germânica. E naquele momento, Hans percebeu: pela primeira vez, todos prestavam atenção nele. Não com amizade. Com suspeita.

– O que você acha, Weissmann? – perguntou Heitor, voz cuidadosa.

Hans colocou o garfo sobre o prato. Olhou para Heitor. Depois para os outros. Todos aguardavam resposta.

Momento crítico. Resposta errada e a suspeita cresceria. Resposta certa e o disfarce se solidificaria.

– Acho – disse ele, calmamente – que meus avós deixaram a Alemanha em 1890. Há cinquenta anos. Sou brasileiro. Meu país é o Brasil. E o Brasil, eu espero, ficará com os americanos. Porque os americanos nos deram o financiamento da CSN. E a Alemanha… a Alemanha não nos deu nada.

Mentira. Mas mentira necessária. E funcionou.

Heitor relaxou. Batistão assentiu. Os outros voltaram a comer. A tensão dissipou-se. Por enquanto. Hans terminara o jantar. Voltara ao alojamento.

Volta Redonda, alojamento dos engenheiros, 7 de dezembro de 1941 – 22h30

Hans não conseguiu dormir. Deitado no beliche superior, olhando para o teto rachado, fumava cigarro atrás de cigarro. Pela janela sem cortina, a lua cheia iluminava parcialmente o quarto. Roncos dos outros engenheiros criavam uma sinfonia desarmônica de sono inocente.

Pearl Harbor mudara tudo. E Hans sabia exatamente o que viria: pressão americana sobre Vargas. Rompimento de relações diplomáticas com o Eixo. Prisões de alemães, italianos, japoneses. Desmantelamento da rede de espionagem. E ele, Hans Albrecht Krueger, ficaria isolado. Sem contatos. Sem ordens. Sem propósito.

Exceto que não ficaria completamente sem propósito. A usina continuaria sendo construída. E ele continuaria documentando. Sozinho. Como sempre estivera. Desde Munique. Desde Greta. Sempre sozinho.

Mas aquela tarde no campo de futebol… aquelas horas no botequim…

Hans apertou os olhos. Não podia pensar nisso. Não podia sentir isso. Pertencimento era ilusão. Amizade era fraqueza. E ele não tinha o luxo de fraqueza.

Desceu do beliche silenciosamente. Vestiu-se no escuro. Calça de brim, camisa, casaco. Saiu do alojamento sem acordar ninguém. Caminhou pela obra deserta. Apenas vigias noturnos, fumando em seus postos, acenavam quando ele passava. Conheciam Henrique Weissmann. O engenheiro que trabalhava demais. Que não dormia. Que caminhava à noite.

Hans chegou à margem do Rio Paraíba do Sul. A margem oposta de onde Getúlio Vargas tivera sua “visão”. Onde Sávio Gama vendera o sonho de Volta Redonda. Onde o futuro do Brasil começara a ser forjado.

Sentou-se em pedra lisa. Acendeu mais um cigarro. O rio corria escuro sob a lua. Som hipnótico. Eterno. Indiferente aos dramas humanos.

Hans pensou em Adler. O mestre de espionagem que o enviara para esta missão suicida. Quando as relações diplomáticas fossem rompidas, Adler seria expulso do Brasil. Ou pior, preso. E todos os contatos seriam perdidos.

Pensou em Greta. Sempre pensava em Greta. Perguntou-se onde ela estaria agora. Nova York? Londres? Viva? Morta? Feliz com Samuel? Ou destruída pela guerra que consumia a Europa?

Não importava. Ela escolhera. E Hans pagara o preço dessa escolha por anos.

Mas naquela tarde, jogando futebol, suando, sangrando, rindo no botequim… por três horas, Greta não existira. Por três horas, Hans não fora espião. Fora apenas homem.

E agora, sentado às margens do Paraíba, sob lua que iluminava o rio e as estruturas metálicas da usina em construção, Hans tomou decisão.

Continuaria. Sozinho se necessário. Isolado se inevitável. Mas continuaria. Porque era tudo que sabia fazer. Porque era tudo que lhe restava. Porque abandonar a missão seria admitir que Greta vencera. Que Samuel vencera. Que o amor vencera.

E Hans Albrecht Krueger, espião da Abwehr, fantasma com três nomes, homem sem passado nem futuro, não permitiria essa vitória. Terminou o cigarro. Jogou a bituca no rio. Assistiu-a ser levada pela correnteza. E voltou ao alojamento.

Quando subiu no beliche, já passava das três da manhã. Fechou os olhos. E desta vez, dormiu sem sonhos. Nem Greta. Nem futebol. Apenas o vazio negro e silencioso de quem aprendera a não sentir nada. Porque sentir era perigoso. E Hans não podia correr mais riscos.

Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 28 de janeiro de 1942 – 10h00

A Conferência do Rio – oficialmente Terceira Reunião de Consulta dos Ministros das Relações Exteriores das Repúblicas Americanas – começara em 15 de janeiro. Aranha, representando o Brasil, resistira à pressão americana por ruptura imediata com o Eixo. Mas a pressão era imensa. Insustentável.

Getúlio Vargas estava em seu gabinete, lendo o relatório de Aranha. A conferência terminara ontem, 27 de janeiro. A resolução aprovada “recomendava” que os países americanos rompessem relações diplomáticas com Alemanha, Itália e Japão.

“Recomendava”. Não exigia. Tecnicamente, o Brasil poderia continuar neutro.

Mas Getúlio sabia: era questão de semanas. Os americanos não aceitariam neutralidade perpétua. Queriam bases aéreas no Nordeste. Queriam minério de ferro. Queriam aliados inquestionáveis.

E Getúlio queria mais financiamento. Mais tecnologia. Mais poder. Era troca simples. Brutal. Mas simples.

Ele pegou a caneta. Assinou ordem: “Preparar decreto de rompimento com Alemanha, Itália e Japão. Execução: 28 de janeiro de 1942. 13h00.”

Quando Aranha recebeu a ordem, suspirou. Sabia que era inevitável. Mas ainda assim, doía. Porque rompimento diplomático significava fim de décadas de relações comerciais. Significava prisões. Deportações. Vidas destruídas.

Mas também significava sobrevivência. E no final, sobrevivência era tudo que importava.

Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 28 de janeiro de 1942 – 15h00

Friedrich Adler queimava documentos. Pilhas e pilhas de papéis. Relatórios. Mapas. Listas de agentes. Códigos. Tudo no fogo. A fumaça subia pela chaminé do subsolo, escapando para o céu carioca como fantasma de operação destruída.

Kurt Prüfer, o embaixador, entrava e saía da sala, coordenando evacuação. Quarenta e oito horas para deixar o Brasil. Não era tempo suficiente. Mas era o que tinham.

– Tudo? – perguntou Prüfer, observando as chamas.

– Quase tudo – respondeu Adler, jogando mais uma pasta no fogo. – Alguns documentos já estão em Buenos Aires. Códigos alternativos. Contatos de emergência. Mas o resto…

Ele fez gesto para as chamas.

– …vira cinza.

– E os agentes?

Adler parou. Olhou para Prüfer.

– Os principais já foram avisados. Engels, von Heyer, Túlio Regis. Todos sabem: entrar em hibernação. Comunicação zero. Aguardar guerra terminar. Se sobreviverem.

– Hans Krueger?

Adler hesitou. Depois pegou envelope pequeno da mesa. Lacrado. Endereço escrito à mão.

– Última mensagem – disse ele. – Será depositada no dead drop final. Jardim Botânico. Hoje à noite. Ele buscará sábado. E depois…

Ele não terminou.

– Depois ficará sozinho – completou Prüfer.

– Completamente sozinho – confirmou Adler. – Sem contatos. Sem ordens. Sem apoio. Mas essa era sempre a contingência. Hans sabe disso. Foi treinado para isso.

– Ele aguentará?

Adler jogou mais documentos no fogo. As chamas dançavam, devorando anos de trabalho cuidadoso.

– Hans Krueger não tem escolha – disse ele, finalmente. – Nunca teve.

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1942 – 17h00

Os jornais vespertinos publicaram edição extra:

“BRASIL ROMPE RELAÇÕES COM EIXO”

“Getúlio Vargas decreta fim das relações diplomáticas com Alemanha, Itália e Japão”

“Embaixadores têm 48 horas para deixar o país”

Na rua, reações mistas. Alguns comemoravam. Desfiles espontâneos. Bandeiras americanas e brasileiras lado a lado. Canções patrióticas. Ódio aos “nazistas”.

Outros, especialmente descendentes de alemães e italianos, silenciaram. Trancaram-se em casa. Temiam o que viria. E tinham razão.

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