Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 10 de novembro de 1937 – 08h00
A manhã amanheceu cinzenta sobre o Rio de Janeiro, nuvens baixas pairando sobre a Baía de Guanabara como presságio. Getúlio Vargas acordou às seis, como sempre, vestiu-se lentamente – terno cinza escuro, gravata preta, abotoaduras de prata –, e tomou café preto sem açúcar enquanto relia, pela décima vez, o decreto que mudaria o Brasil.
Ao seu redor, o Palácio do Catete fervilhava com movimento contido. Militares entravam e saíam de uniformes impecáveis. Ministros aguardavam em antessalas. Telefones tocavam incessantemente. Mas tudo em silêncio controlado, como orquestra afinando instrumentos antes do concerto.
Às 10h00, Getúlio reuniu-se com os ministros militares. General Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra, estava à sua direita – homem de poucas palavras e muitas certezas, rosto de pedra, lealdade inabalável. Almirante Aristides Guilhem, ministro da Marinha, à esquerda – nervoso, fumando cigarros em sequência, dedos amarelados de nicotina.
– Os comandos regionais? – perguntou Getúlio, voz calma.
– Todos notificados – respondeu Dutra. – Tropas em prontidão desde ontem à noite. Rio, São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul. Todos leais.
– E o Congresso?
– Cercado desde as cinco da manhã – disse Dutra. – Ninguém entra, ninguém sai.
Getúlio assentiu. Olhou para o relógio de parede. 10h15.
– Então é hora – disse ele.
Às 10h30, rádios em todo o Brasil interromperam a programação normal. A voz do locutor oficial, carregada de solenidade artificial, anunciou:
“Cidadãos brasileiros. O presidente Getúlio Vargas, em cadeia nacional, fará pronunciamento de extrema importância à Nação.”
E então, a voz de Getúlio – calma, pausada, paternal – preencheu o país:
“Brasileiros. Nos últimos meses, forças extremistas – comunistas e integralistas – ameaçaram a estabilidade da República. Complôs foram descobertos. Insurreições, planejadas. O país estava à beira do caos.”
Pausa calculada.
“O Congresso Nacional, dividido por interesses partidários e regionais, mostrou-se incapaz de responder à crise. A Constituição de 1934, com suas limitações e contradições, revelou-se inadequada para os tempos excepcionais que vivemos.”
Outra pausa.
“Portanto, assumindo as responsabilidades que o momento histórico exige, e com o apoio das Forças Armadas e do povo brasileiro, decreto o seguinte: o Congresso Nacional está dissolvido. A Constituição de 1934 está revogada. Uma nova Constituição, adequada às necessidades modernas, entra em vigor imediatamente. O Brasil inicia hoje uma nova era: o Estado Novo.”
Silêncio nas ruas. Silêncio nos lares. Silêncio que era parte surpresa, parte alívio, parte terror contido.
“Não se trata de ditadura – continuou Getúlio, e quase era possível ouvir o sorriso na voz. – Trata-se de governo forte, capaz de conduzir o Brasil ao seu destino de grandeza. Ordem. Trabalho. Progresso. Estes são os pilares do Estado Novo.”
Quando o discurso terminou, às 11h00, o golpe estava consumado. Sem tiros. Sem resistência. Sem sangue.
O Brasil acordara em uma república. Dormiria em uma ditadura.
Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 10 de novembro de 1937 – 20h00
A Constituição de 1937, outorgada por Getúlio Vargas naquela manhã, estava sobre sua mesa como cadáver ainda quente. Francisco Campos, o jurista que a redigira, havia partido há uma hora. Os ministros militares, satisfeitos. Os opositores, silenciados ou presos.
A Constituição era conhecida como “Polaca” – inspirada no modelo semifascista polonês de 1935, mas o apelido também tinha outro significado, mais cínico: no Rio de Janeiro, “polaca” era gíria para zona de prostituição. Getúlio apreciava a ironia.
Na prática, a Constituição não vigoraria. Getúlio governaria por decreto-lei durante todo o Estado Novo. O plebiscito previsto no texto jamais seria convocado. O Congresso, dissolvido. Os partidos políticos, extintos.
Mas o papel estava ali, legal e legitimador. E isso bastava.
Getúlio acendeu um charuto, abriu a gaveta da mesa, retirou uma pasta vermelha marcada “CONFIDENCIAL – SIDERURGIA”. Dentro, relatórios, mapas, estimativas de custos. E cartas. Muitas cartas.
Uma delas, da United States Steel Corporation, datada de maio de 1937. Negativa educada. “Não temos interesse em estender nossas operações ao Brasil neste momento.”
Outra, do embaixador alemão, Karl Ritter, datada de agosto. Proposta vaga. “A Alemanha está disposta a discutir colaboração industrial.”
E uma terceira, manuscrita, de Osvaldo Aranha. “Precisamos jogar os dois lados um contra o outro. É a única forma de conseguirmos o que queremos.” Getúlio sorriu. Aranha sempre fora o mais astuto de seus ministros.
Ele fechou a pasta, apagou o charuto, caminhou até a janela. Lá fora, o Rio de Janeiro dormia sob o Estado Novo. Ditadura legal. Constitucional. Legitimada por documento que ninguém lera, aprovada por ninguém, imposta por todos.
E naquela noite, Getúlio Vargas pensou em aço. Porque sem aço, o Estado Novo seria apenas palavras. E palavras, sozinhas, não construíam nações.
Rio de Janeiro, Palácio do Catete, 10 de novembro de 1937 – 22h00
A noite caíra sobre o Rio de Janeiro como manto pesado. Getúlio Vargas estava sozinho em seu gabinete – exceção rara, momento cuidadosamente planejado. Os ministros haviam sido dispensados. Os secretários, liberados. Os seguranças aguardavam do lado de fora. Dentro daquela sala, apenas Getúlio e suas memórias.
Ele acendeu um charuto cubano – Cohiba, presente de diplomata mexicano –, serviu-se de um copo de uísque escocês – quinze anos –, e sentou-se na poltrona de couro voltada para a janela. Lá fora, a cidade pulsava. Luzes. Carros. Bondes. Vida seguindo seu curso como se nada tivesse mudado. Mas tudo mudara.
Getúlio bebeu o uísque lentamente, saboreando o gosto amadeirado, e permitiu-se o luxo de lembrar.
Julho de 1934. Três anos atrás. Parecia uma vida inteira.
A Constituinte promulgara a Constituição de 1934 em 16 de julho. Liberal demais para os militares, conservadora demais para os tenentes, complexa demais para funcionar. Mas existia. E exigia que o primeiro presidente sob a nova ordem fosse eleito pelo Congresso – não pelo voto popular.
Getúlio, que chegara ao poder pela força em 1930, seria legitimado pelo voto em 1934. Ironia deliciosa.
A eleição fora em 17 de julho, um dia após a promulgação. Formalidade, obviamente. O Congresso era composto por homens que Getúlio havia nomeado, promovido, comprado ou intimidado. O resultado era previsível. Mas, mesmo assim, Getúlio lembrava da tensão. Da incerteza. Do medo irracional de que, de alguma forma, perderia.
Quando os votos foram contados – 175 a favor, 59 contra – ele sentira… nada. Nem alívio, nem triunfo. Apenas a confirmação de algo que já sabia: poder não se pede. Poder se toma. E se mantém.
Getúlio bebeu mais uísque. Fechou os olhos. Depois da eleição, veio o trabalho de governar. E governar o Brasil em 1934 era como comandar navio em tempestade. Integralistas à direita, gritando por ordem e nacionalismo. Comunistas à esquerda, prometendo revolução operária. Liberais no centro, defendendo democracia que nunca funcionara. E os militares – sempre os militares – exigindo aço, indústria, poder.
E então, o Levante Comunista de 1935. Natal. Recife. Rio de Janeiro. Quartéis tomados. Oficiais mortos. Bandeiras vermelhas hasteadas.
A repressão fora brutal, necessária, eficiente. Góis Monteiro cumprira ordens com precisão cirúrgica. Trezentas prisões. Cinquenta execuções. Prestes preso. Olga Benário deportada para morrer em campo de concentração nazista.
Mas não bastara. O país continuava instável. O Congresso continuava dividido. A Constituição continuava inadequada. E então, providencialmente, o Plano Cohen.
Getúlio abriu os olhos, bebeu o resto do uísque, serviu-se de outro copo. O charuto fumegava no cinzeiro de cristal.
Setembro de 1937. Dois meses antes.
O capitão Olympio Mourão Filho, oficial do Estado-Maior do Exército, integralista convicto, escrevera um documento. Exercício teórico, alegaria depois. Simulação de como comunistas poderiam tomar o poder no Brasil. Assassinatos de autoridades. Incêndios em prédios públicos. Tomada de quartéis. Insurreição popular.
O documento circulara entre oficiais integralistas como ficção política. Mas então – e aqui Getúlio sorriu ao lembrar – alguém o “descobriu”. Alguém o levou ao general Góis Monteiro. E Góis, com aquela eficiência que o caracterizava, levou ao ministro da Guerra.
E o ministro da Guerra levou a Getúlio.
“Plano Cohen”, dizia o título. Cohen. Nome judeu. Comunista judeu, obviamente. Conspiração judaico-bolchevique para destruir o Brasil cristão. Era perfeito. Absurdamente perfeito.
Getúlio lera o documento uma vez. Apenas uma. E imediatamente percebera: não importava se era real ou falso. Importava que era útil. Em 30 de setembro, o governo divulgara oficialmente a “descoberta” do Plano Cohen. Jornais publicaram trechos – cuidadosamente editados para máximo impacto. Rádios leram excertos em tom apocalíptico. O Congresso foi convocado para sessão emergencial.
“Judeus comunistas planejam destruir o Brasil”, bradavam as manchetes.
“Assassinatos em massa iminentes”, alertavam os editoriais.
“Estado de Guerra necessário”, exigiam os militares.
E o Brasil – cansado, assustado, desesperado por ordem – acreditou.
O Congresso aprovou o Estado de Guerra em outubro. Suspensão de direitos constitucionais. Censura à imprensa. Prisões sem mandado. Poderes excepcionais ao presidente. E então, com o país em prontidão, com os militares alinhados, com a opinião pública aterrorizada, Getúlio dera o passo final.
O golpe.
Getúlio apagou o charuto, bebeu o segundo uísque em um gole só. Sentiu o álcool queimar a garganta. Era tudo mentira, obviamente. O Plano Cohen fora fraude desde o início. Exercício teórico transformado em arma política. Judeus comunistas inexistentes. Conspiração imaginária. Mas não importava. Porque a mentira cumprira seu propósito. Dera a Getúlio o que precisava: legitimidade para o ilegítimo. Justificativa para o injustificável. Desculpa para o golpe que planejara há meses.
Getúlio levantou-se, caminhou até a janela. Lá fora, o Rio de Janeiro dormia. Ou fingia dormir. Porque em noites de golpe, ninguém realmente dorme. Todos esperam. Aguardam. Temem.
Ele pensou na siderúrgica que planejavam. Pensou em Góis Monteiro, Macedo Soares, Dutra – militares que o apoiavam porque precisavam dele tanto quanto ele precisava deles.
Pensou em Oswaldo Aranha, negociando com americanos e alemães, jogando as potências umas contra as outras, comprando tempo até que a guerra – inevitável, óbvia – forçasse uma escolha.
Pensou em todos os mortos que pavimentaram seu caminho ao poder. João Pessoa, assassinado em 1930, transformado em mártir. Washington Luís, deposto, exilado, esquecido. Os novecentos mortos de 1932, paulistas que lutaram por constituição e perderam. Os trezentos presos de 1935, comunistas que sonharam revolução e encontraram tortura.
E pensou em si mesmo. Getúlio Dornelles Vargas. Gaúcho de São Borja. Advogado. Político. Revolucionário. Presidente eleito. E agora, ditador.
“Não se trata de ditadura”, havia dito no discurso. “Trata-se de governo forte.”
Mentira. Obviamente mentira. Mas mentira útil, como todas as melhores mentiras. Ele voltou para a mesa, abriu a gaveta, retirou um diário de couro marrom – o mesmo que iniciara em 3 de outubro de 1930, sete anos atrás. Molhou a pena no tinteiro, hesitou por um segundo, e então escreveu:
“10 de novembro de 1937. Hoje, dei o golpe que planejava há anos. O Congresso está dissolvido. A Constituição, revogada. O Estado Novo, proclamado. Não houve resistência. Não houve sangue. Apenas o silêncio necessário de uma nação que entende – ou finge entender – que ordem é mais importante que liberdade.”
Ele fez uma pausa, releu o que escrevera, e continuou:
“O Plano Cohen foi providencial. Judeus comunistas imaginários assustaram o Brasil real. Mourão Filho, sem saber, deu-me o pretexto perfeito. E o povo, aterrorizado, aceitou o que em tempos normais rejeitaria: o fim da democracia em nome da segurança.”
Outra pausa. A pena gotejava tinta sobre o papel.
“Talvez eu seja lembrado como ditador. Talvez como salvador. Provavelmente como os dois. Mas não importa. Porque o que farei com este poder – a industrialização, o aço, a transformação do Brasil de país agrário em potência – justificará os meios. Ou assim espero.”
Ele fechou o diário, guardou-o na gaveta, trancou com chave pequena que carregava sempre no bolso do colete. Depois, apagou as luzes, deixou o gabinete, caminhou pelos corredores silenciosos do Catete até seus aposentos privados.
E dormiu. Tranquilamente. Porque homens como Getúlio Vargas não perdiam sono com golpes. Apenas com derrotas. E esta noite, ele vencera.
Rio de Janeiro, 11 de novembro de 1937 – 06h00
Getúlio acordou com os primeiros raios de sol entrando pela janela. Vestiu-se, desceu para o café, leu os jornais. As manchetes eram uniformes – censuradas, obviamente:
“BRASIL INICIA NOVA ERA SOB ESTADO NOVO”
“PRESIDENTE VARGAS SALVA NAÇÃO DE CONSPIRAÇÃO COMUNISTA”
“POVO APOIA GOVERNO FORTE”
Getúlio dobrou o jornal, bebeu o café preto, permitiu-se um pequeno sorriso. O Brasil acordara diferente. E nunca mais seria o mesmo.
Mas Getúlio Vargas – ditador, presidente, salvador, vilão – continuava sendo exatamente quem sempre fora: o homem que fazia o que era necessário. E agora, com poder absoluto, faria o impossível: construiria uma nação de aço sobre fundações de argila. E rezava – secretamente, raramente, mas sinceramente – para que não desmoronasse.
