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Capítulo 16 – Operação Dantons Tod

Santos, apartamento de Hans, 31 de dezembro de 1940 – 17h00

Hans Albrecht Krueger – ainda Oswaldo Richter nos documentos – acordou com som de freada brusca na rua. Pulou da cama, apagou a luz, aproximou-se da janela com cuidado. Lá embaixo, dois Fords pretos. Quatro homens descendo. Não eram discretos. Não precisavam ser. DOPS.

Hans vestiu-se em segundos. Calça, camisa, casaco. Nada de gravata. Documentos falsos no bolso interno. Dinheiro escondido na meia. Arma – pequena Walther PPK – no coldre nas costas.

Bateram à porta. Forte. Três vezes.

– Polícia! Abra!

Hans não abriu. Correu para a área de serviço, subiu na mureta e acessou a área de serviço do apartamento ao lado que também era alugado por ele. Ouviu a porta sendo arrombada ao lado. Gritos. Manteve-se em silêncio enquanto os agentes do DOPS estavam no prédio.

“Ele fugiu! Como?”

Hans aguardou anoitecer, desceu as escadas, saiu pelo beco atrás do prédio. Correu.

Ruas vazias. Véspera de Ano Novo, todos estavam em festas ou dormindo. Hans conhecia Santos. Quase quatro anos ali. Conhecia cada viela, cada atalho. Correu até o porto, misturou-se entre estivadores bêbados saindo de botecos. Depois, táxi até estação ferroviária.

Trem para São Paulo. Partida: 02h15. Chegada: 06h00. Hans comprou passagem com nome falso – José da Silva, comerciante – pagou em dinheiro, sentou-se no fundo. Quando o trem partiu, olhou pela janela. Nenhum agente seguindo. Por enquanto.

São Paulo, Largo do Arouche, 1º de janeiro de 1941 – 08h00

Hans chegou cansado, sujo, faminto. O Largo do Arouche – praça ampla no centro de São Paulo, era área residencial e comercial tranquila – estava vazio. Feriado. Ano Novo. Apenas alguns floristas preparando bancas.

O dead drop ficava atrás da estátua “Depois do Banho”, de Victor Brecheret. Instrução de Adler: em caso de emergência extrema, verificar cavidade na base da escultura. Lado norte. Mensagens cifradas.

Hans aproximou-se discretamente. Fingiu admirar a escultura. Depois, quando ninguém olhava, enfiou a mão na cavidade. Sentiu envelope impermeável. Puxou. Guardou no bolso interno do casaco. Caminhou até café próximo. Pediu pão, café preto. Comeu rápido. Depois, trancou-se no banheiro, abriu o envelope.

Mensagem cifrada. Código que memorizar durante treinamento. Decifrou mentalmente:

ATIVAR OPERAÇÃO DANTONS TOD IMEDIATAMENTE.

1º ATO: SIMULAR PRÓPRIA MORTE.

2º ATO: ELIMINAR HENRIQUE WEISSMANN ALMEIDA. ENGENHEIRO METALÚRGICO. TRABALHA METALÚRGICA NESTOR GOES LTDA, SANTO ANDRÉ. ASSASSINATO DISCRETO. SUMIR CORPO. ENVIAR CARTA DEMISSÃO + SOLICITAR RECOMENDAÇÃO ENDEREÇO NOVO.

3º ATO: ESCONDER EM BOLTHOLE EM FLORIANÓPOLIS. AGUARDAR CHAMADO.

4º ATO: RETORNAR RIO JANEIRO. OBTER ATESTADO IDEOLÓGICO DOPS. CANDIDATAR VAGA ENGENHEIRO EM VOLTA REDONDA.

DESTRUIR APÓS LER.

BOA SORTE. ADLER.

Hans queimou a mensagem no vaso sanitário. Assistiu o papel virar cinza. Puxou a descarga.

Operação Dantons Tod. “A Morte de Danton”. Nome apropriado. Georg Büchner, drama sobre Revolução Francesa. Danton guilhotinado. Hans não seria guilhotinado. Mas Oswaldo Richter, sim. E Henrique Weissmann também.

Hans saiu do café. Ano Novo. Primeiro dia de 1941. Último dia de Oswaldo Richter.

Santos, bairro do porto, 2 de janeiro de 1941 – 22h00

Hans voltou a Santos disfarçado. Bigode falso. Óculos. Chapéu puxado sobre os olhos. Hospedou-se em pensão barata perto do porto. Quarto sujo, cheiro de mofo e urina. Não importava. Seria apenas uma noite.

Na madrugada, Hans caminhou pelas docas. Encontrou o que procurava: morador de rua, cerca de quarenta anos, estatura similar, sozinho, dormindo em caixa de papelão. Bêbado. Cheirava a cachaça e abandono.

Hans aproximou-se silenciosamente. Puxou fio de aço do bolso – garrote, ferramenta preferida da Abwehr. Silenciosa. Eficiente. Demorou dois minutos. O homem nem acordou. Apenas parou de respirar.

Hans arrastou corpo até Ford roubado horas antes. Colocou no porta-malas. Dirigiu até o prédio onde funcionava seu escritório. 03h00. Ruas desertas. Subiu escada com o corpo. Seu escritório tinha fitas amarelas do DOPS. “Cena de Crime – Não Ultrapassar.” Hans ultrapassou.

Dentro, colocou corpo em sua cadeira. Vestiu-o com roupas de Oswaldo Richter. Despejou gasolina. Muita. No corpo, nos móveis, nas paredes.

Antes de riscar o fósforo, Hans olhou ao redor. Quase quatro anos ali. Quase quatro como Oswaldo Richter. Agora, tudo queimaria. Ele riscou o fósforo. Jogou. Correu. O fogo espalhou-se rápido. Quando Hans estava na rua, já ouvia gritos: “Incêndio! Incêndio!”

Caminhou calmamente para longe. Atrás, sirenes. Bombeiros. Polícia.

No dia seguinte, jornais noticiaram: “Comerciante morre em incêndio. Oswaldo Richter, 35, importador, faleceu em seu escritório. Corpo carbonizado. Polícia investiga.”

O DOPS de São Paulo ficaria confuso. Richter estava sendo vigiado. Como morreu? Suicídio? Acidente? Ou… Não importava. Oswaldo Richter estava morto. Oficialmente. E Hans Albrecht Krueger estava livre. Por enquanto.

Santo André, Metalúrgica Nestor de Goes Ltda, 8 de janeiro de 1941 – 18h30

A fábrica ficava em área industrial de Santo André, cidade do ABC Paulista que desde os anos 1930 concentrava indústrias metalúrgicas. A Metalúrgica Nestor de Goes – pequena, especializada em laminados – empregava cerca de cinquenta operários.

Henrique Weissmann de Almeida, trinta e cinco anos, engenheiro metalúrgico catarinense, trabalhava ali há três anos. Solteiro. Sem família próxima. Morava sozinho em pensão modesta. Vida simples. Rotineira. Previsível.

Hans o seguira durante dois dias. Estudara hábitos. Henrique saía da fábrica às 18h30. Caminhava sozinho até a pensão. Rua pouco movimentada. Perfeito.

Naquela noite, Hans o aguardava em beco próximo. Quando Henrique passou, Hans saiu das sombras.

– Senhor Weissmann?

Henrique virou-se, surpreso.

– Sim?

Hans aproximou-se, sorrindo.

– Preciso falar sobre proposta de emprego. Companhia Siderúrgica Nacional. Grande oportunidade.

Henrique interessou-se imediatamente.

– CSN? Mas como soube de mim?

– Recomendações – disse Hans. – O senhor tem excelente reputação.

Henrique sorriu, lisonjeado.

– Podemos conversar agora? – perguntou Hans. – Meu carro está ali.

Henrique hesitou. Mas a ganância venceu cautela.

– Claro.

Quando entraram no beco, Hans puxou garrote. Foi rápido. Profissional. Henrique nem teve tempo de gritar.

Hans arrastou corpo para Ford roubado. Dirigiu até represa fora da cidade. Amarrou pedras no corpo. Afundou-o. A água escura engoliu Henrique Weissmann de Almeida.

No dia seguinte, Hans – agora usando documentos de Weissmann – enviou carta datilografada à Metalúrgica Nestor de Goes:

 

“Prezados Senhores,

Por motivos pessoais urgentes, solicito demissão imediata do cargo de Engenheiro Metalúrgico. Peço que enviem carta de recomendação ao endereço abaixo [caixa postal em Florianópolis]. Agradeço os anos de colaboração.

Atenciosamente, Henrique Weissmann de Almeida”

 

A fábrica, pequena e sem muita burocracia, aceitou sem questionar. Enviaram carta de recomendação elogiosa duas semanas depois. E Hans tinha nova identidade. Completa. Documentada. Limpa. Henrique Weissmann de Almeida. Engenheiro metalúrgico catarinense. Trinta e cinco anos. Solteiro. Sem família. Perfeito.

Florianópolis, pensão no centro, 15 de março de 1941

Hans passou dois meses escondido. Não saía. Não falava com ninguém. Apenas esperava.

Lia jornais obsessivamente. Em 9 de janeiro, Vargas assinara decreto criando CSN. Em abril a empresa seria formalmente constituída. A construção começaria logo depois. Hans esperava. Como sempre esperara. Como sempre esperaria.

Sozinho em quarto de pensão barata, fumando cigarros brasileiros que não gostava, bebendo cachaça que queimava diferente do schnapps, Hans pensava em Greta. Sempre pensava.

Duas identidades em quatro anos. Oswaldo Richter morreu em janeiro de 1941. Henrique Weissmann… quando morreria? E Hans Krueger? Quando Hans Krueger morreria?

Talvez já estivesse morto. Talvez tenha morrido em Munique, quando Greta escolhera Samuel. Talvez, desde então, fosse apenas um fantasma fingindo viver.

Em 9 de abril, telegrama cifrado chegou via correio: “RETORNAR RIO. 14.ABRIL. HOTEL GLÓRIA. QUARTO 305.”

Hans queimou o telegrama. Empacotou os pertences. Comprou passagem. No dia 10 de abril, deixou Florianópolis. Henrique Weissmann de Almeida viajava para Rio de Janeiro. Procurava emprego na nova siderúrgica estatal. Ninguém suspeitava. Ninguém sabia. Ninguém jamais saberia.

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