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O Santo Peso

A exaustiva viagem de volta pela trilha da Mantiqueira, a mesma que os havia levado a Ayuruoca, consumiu Padre Matias em uma mistura de apreensão e alívio. Cada passo do cavalo que carregava o santo oco era um martírio silencioso, e cada sombra que se alongava ao entardecer trazia consigo o temor gélido dos vigilantes da Coroa. No entanto, o conhecimento íntimo de Zacarias sobre os “descaminhos” e a vigilância constante do próprio padre mantiveram-nos a salvo dos olhos curiosos e das espadas afiadas. Dois dias após deixar Ayuruoca, o padre, visivelmente cansado mas com o coração esperançoso, retornou à familiar Freguesia do Campo Alegre da Paraíba Nova.

Padre Henrique José de Carvalho, ao avistar o amigo se aproximando, correu ao seu encontro com um sorriso caloroso que iluminou a modesta praça da freguesia. A preocupação dos dias de ausência rapidamente se dissipou, substituída pela alegria vibrante do reencontro. “Matias, meu caro! Que bom vê-lo de volta! Sua partida repentina deixou-me inquieto, confesso. Mas vejo que está bem, embora um tanto empoeirado e com o semblante um pouco mais… vivido.”

Padre Matias, com um sorriso exausto que não alcançava os olhos, retribuiu o abraço com força. “Negócios urgentes, Henrique. Mas, graças a Deus, tudo correu como o esperado.” Ele gesticulou para o cavalo, onde a imagem de São Sebastião, envolta em um tecido grosso e amarrada com cuidado, permanecia imóvel. “Esta é uma imagem que adquiri para o orfanato. Creio que servirá de inspiração e proteção para as crianças, além de ser uma adição de beleza ao lugar.”

Com a ajuda de alguns paroquianos curiosos, que observavam a cena com interesse velado, a imagem foi descarregada e colocada em um canto discreto da sacristia da paróquia. Padre Henrique, ao retirar o pano que cobria a escultura, arregalou os olhos em admiração. A luz tênue da sacristia revelava a beleza intrínseca da obra. “Santa Maria! Que obra de arte magnífica, Matias! Jamais vi tamanha perfeição por estas bandas, uma peça tão expressiva e bem-feita.” Ele acariciava a madeira polida, admirando os detalhes da policromia, a expressividade do rosto do santo, as flechas que pareciam prestes a sangrar. Nem por um instante desconfiou que o interior daquela representação de santidade estava recheado de ouro ilegal. Sua admiração era genuína, e Matias sentiu um misto de culpa e alívio por enganar o amigo, um peso adicional em sua consciência já tão sobrecarregada.

Mais tarde, sentados à mesa da paróquia, onde o cheiro de comida caseira confortava a alma, Padre Matias, após um farto jantar e um pouco de descanso, retomou o assunto da jornada com a voz mais firme. “Henrique, durante minha viagem de retorno para cá, foi-me indicada uma rota alternativa para a próxima etapa. Mencionaram uma fazenda, mais a leste daqui, que se instalou recentemente às margens do ribeirão da Barra Mansa. Conhecida como Fazenda da Posse. Saberia algo sobre ela? É um nome curioso, ‘Da Posse’.”

Padre Henrique sorriu, um brilho familiar em seus olhos que denotava conhecimento e afeto. “Ah, sim, a Fazenda da Posse! É uma propriedade de um parente muito querido, Matias, meu primo, Francisco Gonçalves de Carvalho. Um homem bom e justo, que tem investido muito na região, expandindo suas terras e plantações. Estive lá há pouco tempo, e ele é um anfitrião muito acolhedor, sempre de portas abertas para quem necessita. Fico feliz em saber que o orientaram para lá.”

A revelação trouxe um novo alento a Matias. O conhecimento de que o próximo ponto de sua jornada era a casa de alguém com laços familiares com seu amigo, e que, segundo Padre Henrique, era um homem “bom e justo”, trouxe um alívio imenso ao seu espírito. Era como se a Providência Divina, mesmo em meio aos “descaminhos” e às decisões moralmente ambíguas, estivesse a lhe guiar para um local seguro, um refúgio antes da próxima etapa perigosa.

Nos dias seguintes, Padre Matias passou a maior parte do tempo na paróquia, ajudando Padre Henrique nas celebrações e no atendimento aos fiéis. Era um tempo para recuperar as forças físicas e espirituais, tentando aplacar a angústia que o corroía, preparando-se para a próxima etapa da complexa viagem. Enquanto o ouro permanecia oculto dentro do São Sebastião na sacristia, Matias sentia o peso crescente da moralidade de suas escolhas, mas a necessidade premente das crianças, seus rostos inocentes, falava mais alto que qualquer escrúpulo.

Finalmente, chegou o dia da despedida. Padre Matias, com o coração dividido entre a gratidão pela acolhida de Henrique e a urgência de sua missão, despediu-se do amigo com um abraço apertado. A imagem de São Sebastião, agora um fardo sagrado e profano, foi novamente amarrada ao cavalo. Com as instruções de Zacarias frescas em sua mente, e com o conhecimento adicional de que a Fazenda da Posse pertencia ao primo de Henrique, um homem em quem ele poderia confiar, Padre Matias partiu em direção à próxima etapa de sua rota secreta. A cada passo do cavalo, ele sentia o ouro tilintar levemente dentro do santo, um som metálico e abafado que ecoava a complexidade de sua jornada e a desesperada esperança de um futuro para as crianças do orfanato.

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