Se você me conhece, não se assuste — e, principalmente, não se ofenda — se um dia se descobrir em alguma linha que escrevi. A culpa é desse vício antigo de observar gente: seus gestos miúdos, suas manias involuntárias, seus silêncios que dizem mais que qualquer discurso. Há quem colecione moedas, selos ou receitas de família. Eu coleciono comportamentos. E deles tiro umas tantas lições, umas severas, outras tão leves quanto um fiapo de vento na tarde.
Quase tudo que escrevo nasce de pessoas reais. Mesmo quando visto a fantasia da ficção, há sempre uma verdade empurrando a porta por dentro. Mas não pense que saio por aí registrando vidas alheias como um escriba curioso. Não me interesso por biografias, e sim por lampejos. Por aquilo que, num segundo qualquer, revela mais sobre nós do que meses de convivência educada.
E, para ser justo, a primeira pessoa sobre quem escrevo sou eu. Meus defeitos, esses teimosos que insistem em não me abandonar, aparecem escondidos aqui e ali. Ninguém nota, ou finge não notar, e eu agradeço. É uma maneira discreta de conversar comigo mesmo sem precisar de espelho.
Talvez isso seja mesmo parte essencial da vida de um cronista do cotidiano: andar por aí como quem caminha sobre um terreno fértil de histórias. Cada gesto das pessoas, cada impaciência, cada gentileza inesperada me oferece matéria para pensar o mundo. Tento não deixar tão evidente, para não ferir suscetibilidades — afinal, ninguém gosta de se ver retratado sem maquiagem. Ainda assim, é um vício, e vícios raramente pedem licença.
Mas esse hábito de olhar — olhar de verdade — me fez, curiosamente, mais tolerante. Porque quando observo alguém, não estou ali para julgar, e sim para compreender. A escrita obriga a um tipo de empatia que a vida, às vezes, desestimula. Não posso escrever sobre alguém sem, antes, tentar calçar seus sapatos, mesmo que por alguns passos incertos.
Escrever, para mim, é um modo de me curar. Curar-me de mim, das minhas pressas, das minhas cegueiras. Curar-me também desse mundo que nos quer sempre opinativos, sempre apressados, sempre distraídos do outro.
No fim das contas, escrevo para reaprender a olhar. E, quem sabe, lembrar que olhar o outro com atenção ainda é uma das formas mais delicadas de amor que nos restam.
