Barra Mansa, estação ferroviária, 9 de outubro de 1942 – 23h45
O último trem apitou duas vezes antes de partir. Hans estava sentado no último vagão, o banco de madeira dura junto à janela. Mala pequena ao lado. Dentro, apenas o necessário: muda de roupa, documentos, e envelope lacrado com plantas atualizadas da CSN que Adler exigira.
Não era primeiro sábado do mês. Quebra de rotina. Perigoso. Mas Adler fora inflexível no último dead drop: “9 de outubro. Casa em Laranjeiras. 08h00. Últimos acertos. Não falte.”
Hans olhava pela janela. Noite sem lua. Escuridão total além das poucas luzes da estação que ficava para trás. O trem ganhava velocidade. Solavancos. Barulho metálico das rodas sobre trilhos. Som hipnótico que normalmente o acalmava.
Mas não naquela noite.
Sua mente processava o plano. O plano dele, não o de Adler. Porque Hans tomara decisão: não mataria duzentos homens. Não destruiria o alto-forno que Batistão e tantos outros construíam com sangue e suor.
Mas não podia simplesmente recusar. Adler não toleraria. Então Hans faria o jogo. Participaria da sabotagem. Guiaria os agentes. Ajudaria a plantar explosivos.
E depois, antes da detonação, alertaria autoridades. Anônimo. Carta. Qualquer coisa. Os explosivos seriam descobertos. Desarmados. E Adler seria caçado.
Traição completa, pensou Hans. Do Reich. De tudo que fui. Mas pela primeira vez, traição que salva vidas em vez de as destruir.
Fechou os olhos. Viu rosto de Isabel. Sorriso. Olhos cor de mel que viam através dele. Ela era razão. A única razão que importava.
Hans adormeceu no trem. Pela primeira vez em meses, dormiu sem sonhos. Nem Greta. Nem guerra. Apenas escuridão pacífica de quem tomara decisão e aceitara consequências.
Rio de Janeiro, Laranjeiras, 10 de outubro de 1942 – 08h15
A casa ficava em rua secundária de Laranjeiras. Sobrado de dois andares. Fachada colonial desbotada. Janelas com venezianas fechadas. Aparência de abandono. Mas Hans sabia: era bolthhole – esconderijo operacional da Abwehr. Um de vários espalhados pelo Rio.
Bateu três vezes. Pausa. Duas vezes. Código.
A porta abriu. Homem de quarenta anos, alemão, cabelos louros cortados militarmente. Olhos azuis frios. Wilhelm Becker. Hans o reconheceu de briefing antigo. Especialista em explosivos. Veterano da Grande Guerra. Abwehr desde 1935.
– Weissmann – disse Becker em alemão, usando nome de cobertura de Hans. – Entre. Rápido.
Hans entrou. A casa cheirava a mofo e tabaco velho. Sala escura. Cortinas fechadas. Apenas luz fraca de lampião a querosene. No centro, uma mesa com mapa da CSN espalhado. Outro homem estudava o mapa. Mais jovem. Talvez trinta anos. Magro. Nervoso. Franz Kohler. Engenheiro químico. Especialista em temporizadores.
Adler estava sentado em poltrona no canto. Fumando. Observando. Como sempre.
– Hans – disse Adler. – Sente-se. Temos muito que discutir.
Hans sentou-se. Colocou o envelope sobre a mesa. Becker abriu imediatamente. Plantas da CSN. Atualizadas até setembro. Fundações do alto-forno número 1. Tubulações de refrigeração. Estruturas de suporte.
– Perfeito – murmurou Becker, estudando. – Exatamente o que precisamos.
Adler levantou-se. Aproximou-se da mesa. Apontou para área marcada em vermelho nas plantas.
– Ali. Tubulações principais de refrigeração. Se explodirem, o colapso estrutural será completo. O forno desmorona. Cinquenta metros de aço e concreto caindo.
Hans forçou-se a perguntar:
– E os trabalhadores?
– O turno da manhã começa às seis – disse Kohler, voz fina, quase efeminada. – Explosão será às seis e quinze. Quinze minutos depois. O forno estará cheio. Máximo impacto.
Hans sentiu estômago revirar. Mas manteve rosto neutro.
– Como entrarão?
Becker puxou mapa topográfico. Rio Paraíba do Sul. Margens. Ilhas.
– Margem esquerda. Há ilha aqui – apontou. – Morador local. Canoeiro. Kohler já negociou. Compramos canoa por trezentos cruzeiros. Sem perguntas.
– Descemos o rio pela margem esquerda no final da tarde – continuou Kohler, traçando rota com dedo. – Aqui, ficamos escondidos na mata até escurecer. Depois, atravessamos para margem direita. Desembarcamos aqui – apontou para ponto próximo ao canteiro. – E você nos guia.
– Guardas? – perguntou Hans.
– Dois – respondeu Adler. – Ronda a cada trinta minutos. Mas você conhece horários. Conhece rotas. Nos guiará entre patrulhas.
– E depois?
Becker abriu mala de couro. Dentro, blocos cinza-acastanhados. Explosivo plástico. Alemão. Militar. Seis blocos. Três quilos cada.
– Dezoito quilos – disse Becker, quase com orgulho. – Suficiente para demolir uma ponte. Ou alto-forno.
Kohler mostrou temporizadores. Dois. Mecânicos. Relógios adaptados.
– Programados para seis e quinze da manhã. Domingo, dezoito de outubro. Teoricamente é impossível desarmar sem código. E código – sorriu friamente – só eu sei.
Adler voltou para poltrona. Acendeu novo cigarro.
– Hans, você terá que estar presente. Último turno. Quando terminar, encontra-se com Becker e Kohler na margem do rio. Você os guia. Plantar os explosivos leva quinze minutos. Depois, os dois atravessam o rio novamente. Desaparecem.
– E eu? – perguntou Hans. – Volto ao trabalho como se nada tivesse acontecido?
– Exatamente – disse Adler. – Você estava no último turno. Saiu à meia noite. Foi para alojamento. Quando explosão acontecer, às seis e quinze, você estará dormindo. Álibi perfeito.
Hans processou. O plano era sólido. Profissional. Típico da Abwehr. Mas tinha falhas. E Hans conhecia todas.
– Entendo – disse ele, simplesmente.
Adler estudou-o. Longa. Intensamente.
– Você está pronto, Hans? Realmente pronto? Porque se hesitar, se trair, não será apenas você que morre. Será sua… Isabel.
O nome caiu como tiro. Hans congelou.
– Já te disse, eu sei tudo – interrompeu Adler, friamente. – Sei onde ela mora. Sei onde trabalha. Sei que você a ama. E se você nos trair, ela paga. Entendido?
Hans não respirou por cinco segundos. Depois, forçou-se a acenar.
– Entendido.
– Bom. Adler levantou-se. – Domingo. Dezoito de outubro. Meia-noite. Margem do rio. Não se atrase.
A reunião terminou. Hans saiu. Caminhou pelas ruas de Laranjeiras em transe. Mente gritando: Ele sabe de Isabel. Se eu trair, ela morre. Mas se não trair, duzentos homens morrem. Não há escolha boa. Apenas menos terrível.
E Hans, pela primeira vez, não sabia qual era.
Barra Mansa, Rua Eduardo Junqueira, 11 de outubro de 1942 – 16h00
Hans chegara no trem das 14h30. Domingo. Deveria estar com Isabel. Mas estava atrasado. Inquieto. Mente em pedaços.
Bateu na porta do sobrado branco. Maria Luísa abriu. Sorriu.
– Henrique! Isabel está no quarto. Suba. Porta à direita.
Hans subiu escada de madeira. Corredor com fotografias de família. Chegou à porta. Bateu suavemente.
– Entre – voz de Isabel.
Hans entrou. Quarto simples. Cama de ferro. Escrivaninha com livros. Janela aberta deixando entrar luz dourada de fim de tarde. Isabel sentada na cama, lendo. Vestido azul. Cabelos soltos. Quando viu Hans, sorriu. Mas o sorriso morreu quando viu expressão dele.
– Henrique? O que aconteceu?
Hans fechou porta. Ficou parado. Não sabia o que dizer. Como dizer.
Isabel levantou-se. Aproximou-se. Tocou rosto dele.
– Você está tremendo. O que foi?
– Trabalho – mentiu Hans. Ou meia-verdade. – Muita pressão. Prazos. Macedo Soares está… exigente.
Isabel estudou-o. Não acreditou. Mas não pressionou.
– Sente-se – disse ela, guiando-o para cama. Sentaram-se lado a lado. Ela segurou mão dele. – Você pode me contar. O que quer que seja. Pode confiar.
Hans queria. Desesperadamente queria. Contar tudo. Hans Krueger. Espionagem. Adler. Explosivos. Tudo. Mas não podia. Porque se contasse, colocaria Isabel em perigo. E Adler já ameaçara.
– Não posso – sussurrou ele. – Ainda não. Mas logo. Prometo. Quando for seguro.
Isabel segurou o rosto dele entre as mãos. Forçou-o a olhar em seus olhos cor de mel.
– Henrique Weissmann. Eu te amo. E confio em você. Mas… você está me assustando. O que quer que esteja carregando, está te destruindo. Vejo nos seus olhos. Medo. Culpa. Algo terrível.
Lágrimas começaram a formar. Era a primeira vez que Hans a via chorar desde aquela noite na praça.
– Me promete uma coisa? – pediu ela, voz quebrando.
– O quê?
– Que não vai fazer nada estúpido. Nada que te machuque. Nada que nos separe. Porque eu… eu não sobrevivo se perder você.
Hans puxou-a. Abraçou forte. E sussurrou:
– Prometo. Não vou te deixar. Nunca.
Mentira. Porque Hans não sabia se conseguiria cumprir. Não sabia se sobreviveria quarta-feira. Não sabia se a traição não resultaria em morte de ambos.
Mas naquele momento, segurando Isabel, sentindo seu calor, seu batimento cardíaco, Hans tomou a decisão final e irreversível:
Salvaria os operários. Alertaria as autoridades. E se Adler viesse atrás de Isabel, Hans o mataria. Com próprias mãos. Sem hesitação.
Porque Isabel valia qualquer sacrifício. Qualquer crime. Qualquer condenação.
Ficaram assim. Abraçados. Enquanto o sol descia e sombras cresciam. E Hans rezou – pela segunda vez em dezesseis anos – para que tivesse coragem de fazer o certo.
Mesmo que certo significasse traição. Mesmo que certo significasse morte.
Barra Mansa, Hotel São Pedro, 14 de outubro de 1942 – 20h00
Wilhelm Becker e Franz Kohler chegaram em trens separados. Becker às 17h00. Kohler às 19h30. Não se cumprimentaram na estação. Não demonstraram conhecer um ao outro. Eram turistas. Comerciantes.
O Hotel São Pedro ficava ao lado da estação. Dois andares. Modesto, mas limpo. Becker registrou-se como “Guilherme Becker, comerciante, endereço de São Paulo”. Kohler como “Francisco Kohler, vendedor de Santos”. Quartos separados. Segundo andar. Fundos.
Às 22h00, Kohler bateu na porta de Becker. Três vezes. Pausa. Duas vezes. Becker abriu. Kohler entrou rapidamente. A porta se fechou.
– Tudo certo? – perguntou Becker em alemão.
– Sim. A canoa está escondida na margem. O canoeiro não fez perguntas. Pagamos. Esqueceu.
Becker abriu a mala. Os explosivos estavam lá. Embrulhados em pano oleado. Temporizadores em caixas de madeira.
– Amanhã revisamos tudo – disse Becker. – Terça testamos temporizadores. Quarta…
Ele não terminou. Não precisava.
Kohler acendeu um cigarro. As mãos tremiam levemente.
– Você acha que Weissmann vai aguentar?
Becker encolheu ombros.
– Adler confia nele. Isso basta.
– Mas ele está… diferente. Em Laranjeiras. Vi nos olhos. Hesitação. Dúvida.
– Todos hesitam antes da primeira missão real – disse Becker, voz sem emoção. – Depois da primeira morte, fica fácil. Automático.
– E se ele nos trair?
Becker puxou Luger debaixo do travesseiro. Verificou o carregador. Nove balas. Pronta.
– Então morre.
Kohler engoliu seco. Não era assassino. Era engenheiro. Técnico. Mas a guerra transformava todos em algo que não eram.
– Quando voltamos para Rio?
– Quinta de manhã. Trem das sete. Antes que descubram.
– E se descobrirem antes? Se desarmarem?
– Impossível – disse Becker, confiante. – Temporizadores são à prova de falhas. E a localização é perfeita. Weissmann garantiu.
Kohler assentiu. Mas a dúvida permanecia. Porque algo naquele Hans Krueger/Henrique Weissmann não estava certo. Algo mudara. E mudança, em espionagem, era sempre perigosa.
Volta Redonda, canteiro de obras da CSN, 17 de outubro de 1942 – 18h00
Hans pedira troca de turno. Alegou problema pessoal. Heitor, sempre compreensivo, aceitou. Hans trabalharia terceiro turno: 18h00 às 00h00. Meia-noite. Horário perfeito.
O turno foi tortura. Seis horas verificando estruturas. Conferindo plantas. Supervisionando soldas. Tudo mecânico. Automático. A mente em outro lugar.
Às 23h00, Becker e Kohler atravessarão o rio. Às 23h30, estarão na margem direita. Meia-noite, eu os encontro. Guio até alto-forno. Plantam explosivos. Meia-noite e meia, terminam. Voltamos ao rio. Eles atravessam. Desaparecem.
E então… então eu volto. Uma carta para Heitor. Anônimo. “Explosivos no alto-forno 1. Explodem às seis e quinze. Desarmem.” E rezo para que acreditem. Para que ajam rápido.
O plano era simples. Cheio de buracos. Mas único que Hans tinha.
Às 23h45, o turno terminou. Hans saiu do canteiro. Em vez de ir para alojamento, caminhou até margem do rio. Área conhecida. Sempre fumava ali. Os guardas sabiam. Não suspeitariam.
Acendeu o cigarro. Fumou lentamente. A lua estava alta. Quase cheia. Iluminava o rio com luz prateada. A água corria negra e silenciosa. A margem oposta era escuridão total. Mata fechada.
Hans olhou o relógio. 23h50. Dez minutos.
O coração batia forte. As mãos suavam. Última chance de recuar. De fugir. De alertar guardas agora, antes de Becker e Kohler chegarem. Mas se fizesse, Adler saberia. E Isabel morreria.
Não há escolha boa. Apenas menos terrível.
Hans jogou o cigarro na água. Acendeu outro. Esperou.
Às 23h58, ouviu. Som suave. Remos cortando a água. A canoa aproximando-se.
Hans olhou ao redor. Nenhum guarda visível. A patrulha passara há cinco minutos. A próxima seria em vinte e cinco.
A canoa emergiu da escuridão. Duas silhuetas. Becker remando. Kohler na proa. Encostaram na margem.
Becker desceu primeiro. Mala impermeável nas costas. Dezoito quilos de explosivos. Kohler seguiu. Caixa com temporizadores. Olharam para Hans. Ele acenou. Sinal de que era seguro.
Os três homens ficaram parados na margem do Rio Paraíba do Sul sob luz da lua. Alemães. Espiões. Prestes a cometer sabotagem que mataria duzentos brasileiros. Ou seria impedida. Se Hans tivesse coragem.
Becker sussurrou:
– Vamos.
Hans virou-se. Começou a caminhar. Guiando-os para dentro do canteiro. Para o alto-forno. Para os explosivos.
E rezou – pela terceira vez em dezesseis anos – para que Isabel o perdoasse pelo que estava prestes a fazer. Ou não fazer.
Porque até o último segundo, Hans ainda não sabia.
