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Quando a Máquina Não Me Reconhece

Pensei, durante algum tempo, que o problema era apenas meu. Mas bastaram as palavras da minha gerente, dias atrás, para eu perceber que a tragédia era coletiva; compartilhada como tantos cansaços silenciosos que atravessam um dia de trabalho.

Ainda no primeiro semestre instalaram na PMBM os sensores de reconhecimento facial. Pela manhã, quando chego antes das sete, a máquina me reconhece com a ternura burocrática de um velho conhecido. Giro a roleta com a mesma leveza com que se empurra a porta de casa.

Mas à tarde tudo muda. Não sei se é o meu cansaço que se derrama sobre o rosto ou se o cansaço coletivo impregna o ar, mas a máquina sempre se engasga. Hesita. Parece olhar para mim como quem pergunta: tem certeza de que é você?

Por muito tempo achei que fosse uma implicância particular, uma falha exclusiva da minha face amassada pelas horas. Até que minha gerente confidenciou seu receio de ficar trancada na prefeitura, depois de horas extras demais, porque o sensor se recusava a reconhecê-la na saída. Rimos. Confirmei que acontecia comigo. Outros confirmaram também. A máquina, ao que parece, é mais sensível ao cansaço humano do que imaginávamos.

Ela comentou que talvez fosse a maquiagem desfeita, o cabelo desalinhado ou o sorriso arrancado pelo dia. Quem sabe? Não havia pensado nisso, mas era verdade: no fim da tarde, a câmera sempre me devolve um rosto mais velho, mais gasto, quase sempre testemunha silenciosa de uma jornada extenuante.

Mas às vezes penso que não é só isso. Talvez o sensor estranhe o brilho diferente que carrego nesse horário, essa alegria quase infantil de voltar para o meu ninho — o lar que construí, o abrigo onde descanso não apenas o corpo, mas a alma. Onde me reencontro. Onde me reconhecem, enfim, sem máquinas, senhas ou sensores: minha família.

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