Por muitos anos, antes mesmo de Bal se tornar caçador, um grupo de lobos passou a rondar o acampamento. Onde a tribo ia, eles vinham atrás.
Não se aproximavam do fogo. Não mostravam os dentes. Permaneciam à distância, sentados, deitados, às vezes quase invisíveis entre as sombras. Esperavam apenas o que sobrava das carcaças trazidas…
O primeiro gesto simbólico da República brasileira foi, curiosamente, um gesto de cópia. Ainda no dia 15 de novembro de 1889, horas depois da queda da família imperial, os novos donos do poder trataram de criar um pavilhão para o regime nascente. A bandeira provisória que hastearam (rapidamente esquecida, mas reveladora) era um eco tropical…
Um dos grandes riscos de se escrever ficção histórica reside na tentação de tomar partido, não apenas de um grupo ou personagem, mas de uma interpretação específica da História, quase sempre filtrada por nossas próprias convicções políticas, morais e afetivas. O passado, quando narrado, raramente se apresenta de forma neutra: ele nos provoca, nos desafia…
Este texto será publicado muito tempo depois de ter sido escrito. Ele nasceu logo após meu retorno da missa da Sagrada Família, celebrada no domingo seguinte ao Natal do Senhor, ainda no interior da oitava natalina. A liturgia da Igreja, como sabemos, é cíclica: retorna, ano após ano, aos mesmos textos bíblicos, símbolos e gestos.…
Lembro-me da adolescência, quando estudava em uma escola particular da cidade. À época, eu não sabia nomear aquelas reuniões quinzenais com a Orientadora Educacional como o que hoje chamaríamos de sessões coletivas. Para nós, eram apenas encontros obrigatórios, em que se falava de disciplina, dedicação aos estudos, convivência entre colegas e, vez ou outra, das…
Existe uma frase recorrente no meio masculino que carrega uma visão simplificada e injusta sobre as mulheres:
“Quem gosta de homem é viado, mulher gosta é de dinheiro”.
Ela diz mais sobre nós, homens, do que sobre elas. Com frequência, usamos esse tipo de frase para acomodar frustrações, decepções e ressentimentos pessoais. Colocamos as…
Sempre gostei de heróis. Não apenas dos uniformes coloridos e das poses improváveis, mas da ideia de que alguém, de algum jeito, encontra meios de ampliar seus próprios limites. Sou fã da Marvel tanto quanto sou da DC, mas, entre todos os nomes estampados nas capas dos quadrinhos, dois sempre caminharam comigo desde a adolescência:…
Não saberia definir o segredo da felicidade. Talvez nem exista uma fórmula universal. Mas aprendi, ao longo dos meus próprios dias, qual é o segredo da minha. Ela mora no encantamento das pequenas coisas, essas miudezas alcançáveis, repetidas, quase invisíveis, que o cotidiano nos oferece sem alarde.
Não deposito minhas esperanças nas grandes conquistas. Se…
Confesso, ainda que com certo constrangimento retrospectivo, que também fui um produto do ambiente político que se formava no início da década de 2010. Por volta de 2013 — ano de inflexões múltiplas no país — permiti que o discurso conservador em ascensão encontrasse ressonância em mim. Não fui o único. A combinação entre redes…
“Se o maior pecador que você conhece não é você, você precisa se conhecer.”
A frase atribuída a C.S. Lewis sempre me pareceu ao mesmo tempo inquietante e reconfortante. Inquietante porque nos obriga a olhar para dentro sem disfarces; reconfortante porque revela algo simples: a distância que exagera os defeitos dos outros desaparece completamente quando…
É curioso — e talvez profundamente revelador — que o Ocidente contemporâneo tema agora o colapso econômico não por excesso de gente, mas justamente por sua ausência. Durante séculos, alimentou-se a ideia de que a superpopulação seria o estopim da miséria universal, um cenário pintado por Malthus com tintas sombrias, no qual a humanidade caminharia…
Todos os dias desperto com o mesmo temor: o de não ter nada a oferecer ao mundo. O de não encontrar, nas pequenas raspas do cotidiano, a matéria frágil de que são feitas as minhas palavras.
Minhas reflexões nascem das conversas silenciosas que travo comigo mesmo — diálogos tortos, inacabados, que às vezes levo dias…
