Era por volta de 2013 e eu estava diante de uma tela. Não havia batalha, nem barricada. Havia um post de um amigo de esquerda, de quem eu discordava, criticando um movimento político que eu sequer sabia que existia. Foi assim, pela porta dos fundos da indignação alheia, que me aproximei de ideias que passariam a me habitar por anos. Não fui eu que as encontrei. Elas me encontraram.
Hoje reconheço nessa cena algo que vai muito além de uma anedota pessoal. Ela contém, em miniatura, a lógica de um fenômeno civilizacional que assistimos ao vivo e em cores: a reconstituição tribal da humanidade, desta vez não pelo sangue nem pelo território, mas pelo clique.
Por séculos, a vida humana foi organizada em torno de três eixos: tradição, comunidade e família. Eram âncoras. Podiam ser pesadas, às vezes opressivas, mas conferiam ao indivíduo algo que nenhuma declaração de direitos consegue legislar: um sentido de lugar no mundo.
A modernidade tardia tratou esses eixos como obstáculos. Em nome da liberdade individual (seu valor supremo, quase sagrado) foi os dissolvendo um a um. A tradição virou conservadorismo. A comunidade virou coletivismo. A família virou arranjo negociável. E no lugar deles foi instalado o eu soberano, desimpedido, autossuficiente.
O problema é que o eu soberano não suporta o vazio. E o vazio de pertencimento é dos mais intoleráveis que existem.
As redes sociais chegaram nesse exato momento histórico. Quando as pessoas estavam livres, mas desamparadas. E ofereceram o que toda tribo oferece: a experiência de não estar só.
Primeiro vieram os formadores de opinião. Eram vozes que a grande mídia sufocava ou domesticava. Ali, nas redes, podiam falar sem filtro. E cada opinião, por mais exótica que fosse (terraplanistas que o digam), encontrava ressonância. Numa população de duzentos milhões, trinta almas que partilham a mesma estranheza bastam para transformar a solidão em comunidade.
Depois veio o algoritmo. Sua lógica é simples e devastadora: ele não organiza o mundo pela verdade. Organiza pelo engajamento. E o que mais engaja é o que mais confirma, o que mais outorga, o que mais inflama. Se eu curtia um pensador de determinada linha, outros da mesma linha surgiam. Ia me aproximando de pessoas que pensavam como eu. Formava-se uma bolha que era, ao mesmo tempo, uma caixa de ressonância.
Mas uma bolha ideológica ainda não é uma tribo. Uma tribo nasce quando a homogeneidade de opiniões se converte em identidade cultural e simbólica. Quando os membros não apenas pensam igual; eles são iguais. Quando o grupo não é um meio, mas um fim. Quando pertencer a ele é a resposta à pergunta: quem sou eu?
A minha epifania veio ainda em 2015. Certo da vitória de meu lado, me peguei fazendo uma pergunta que me pareceu natural: quando ganharmos, como conviver com o lado derrotado? Foi então que olhei em volta e vi que ninguém, nem no meu campo nem no oposto, estava pensando nessa pergunta. Ninguém queria conviver. Ninguém queria vencer no sentido de persuadir. Queriam esmagar.
Percebi que já não possuíamos opiniões políticas. As opiniões políticas é que nos possuíam. Já não havia busca pela verdade. A tribo definia o que era verdade. As pessoas não acreditavam em algo porque era verdadeiro. Acreditavam no que o grupo declarava verdadeiro. E qualquer voz interna que ousasse divergir não era tratada como alguém que pensa diferente. Era tratada como um traidor.
O algoritmo premiava a radicalização e punia a nuance. Uma análise matizada rendia dez curtidas. Um ataque frontal ao inimigo rendia dez mil. A moderação era percebida como fraqueza. A complexidade, como suspeita de cumplicidade com o lado errado.
As divergências não buscavam o consenso. Desejavam a supremacia.
As redes e as ruas tornaram-se arenas, e os gladiadores não queriam se entender. Queriam vencer. E quando a verdade deixa de ser um horizonte compartilhado e passa a ser um troféu tribal, o consenso se torna impossível. E sem consenso, a democracia apodrece por dentro, silenciosamente, antes mesmo de ruir.
O que testemunhamos não foi um acidente de percurso. Foi a consequência lógica de um projeto. Quando se dissolve a tradição, a comunidade e a família sem oferecer nada em seu lugar, o ser humano não se torna mais livre. Ele se torna mais vulnerável. E vulnerável, aceita qualquer oferta de pertencimento; incluindo as mais tóxicas.
As tribos digitais são a modernidade devorando seus próprios filhos. Nasceram da mesma liberdade que prometia nos redimir da tirania do coletivo. E acabaram criando coletivos ainda mais tirânicos. Porque os de antes ao menos tinham rosto, endereço e responsabilidade. Os de agora são anônimos, ubíquos e implacáveis.
O irônico é que quanto mais a modernidade insiste em liberar o indivíduo de qualquer vínculo, mais o indivíduo busca vínculos absolutos. A idolatria tribal é o avesso da liberdade que prometia curá-la.
Saí do movimento. Mas não saí sem cicatrizes. Nem sem gratidão pelo que aprendi ao cair dentro e ao sair.
Continuo sendo um crítico da modernidade. Continuo acreditando que há algo de profundamente destrutivo na compulsão de dissolver toda forma de permanência em nome do progresso. Não sou contrário ao novo. Sou contrário ao novo que existe apenas para aniquilar o antigo, sem perguntar o que se perde no caminho.
Mas aprendi, sobretudo, que a pior armadilha não é ter convicções. É deixar que as convicções nos dispensem da tarefa mais difícil e mais humana de todas: permanecer em diálogo com quem pensa diferente. Não para ceder. Não para vencer. Mas porque sem esse esforço, não somos uma sociedade. Somos apenas tribos aguardando a próxima guerra.
Quem transforma o diferente em inimigo não está defendendo uma ideia. Está confessando que perdeu a coragem de sustentá-la.
