Era estranho ver-se ali, estendido no caixão, como quem comparece ao funeral de um amigo íntimo, desses cuja ausência dói antes mesmo de consolidar-se. A cena era a mesma que tantas vezes testemunhara em vida. “Em vida”… a palavra lhe riscou o pensamento como ironia. Vivera aqueles rituais tantas vezes; agora os repetia, mas de dentro da morte. Da própria morte.
O cenário não mudara: o morto compondo a solenidade, as flores fatigadas, as velas que ardiam como vigias silenciosas, o murmúrio das orações, e, sobretudo, a viúva. Ah, a viúva. Ou melhor, sua esposa. Ali, envelhecida pelo choque e ao mesmo tempo estranhamente mais bela, como se a dor lhe devolvesse uma juventude triste.
O acidente fora banal em sua brutalidade. Adormecera ao volante na Via Dutra. Quando abriu os olhos, estava na Santa Casa, ouvindo o médico dizer com frieza de ata notarial: “Hora da morte: treze e quarenta e cinco.” Levantou-se da maca num impulso instintivo; sentia-se leve, quase bem, exceto pelo formigamento que lhe percorria o corpo (ou a lembrança do corpo).
Chamou o médico para perguntar quem havia morrido. Bastou o silêncio perplexo do homem para que entendesse: o morto era ele. E, então, o desespero.
Aguardou no necrotério como quem espera o próprio veredito. Observou seu corpo imóvel sobre a pedra, acompanhou a família vestindo-o com o terno mais caro, aquele que, em vida, só tivera ocasião de usar uma única vez. “Meu Deus, este terno custou uma fortuna… ao menos irei com ele.” Pensou isso enquanto lhe injetavam o formol.
Entrou no rabecão junto ao caixão, acompanhou-se à capela e sentou-se ao lado do próprio velório como se vela um amigo queridíssimo, talvez o último.
Mas nada lhe doía tanto quanto os abraços que sua esposa recebia. Abraços longos, demorados, masculinos. Ele sempre lhe dissera que, caso morresse, ela deveria seguir adiante, encontrar outro amor, outro homem. Generosidade de lábios. Agora, diante da cena, descobria o ridículo de sua bravata. Sentia ciúmes de qualquer toque, qualquer gesto, até mesmo dos familiares. Sentiu ciúmes (e vergonha) do próprio cunhado. A irracionalidade tornava tudo ainda mais claustrofóbico.
E havia a pergunta: como podia estar ali, preso à própria despedida? Céu? Inferno? Se fosse inferno, talvez fosse menos torturante que vê-la acolhida em tantos ombros alheios. A cada abraço, o ciúme lhe corroía o que quer que restasse de alma. Seria uma prévia do destino final? Talvez o inferno fosse apenas isso: a consciência mantendo-se viva onde deveria dissolver-se.
Chegou o derradeiro instante. As últimas lágrimas, as palavras murmuradas pela velha mãe, pelos filhos pequenos, pelos parentes… e pela esposa. Ele se inquietou; parecia-lhe que ela não sofria o bastante, que havia um alívio indecente naqueles olhos que, antes, o amavam tanto.
Ouviu alguém dizer: “Melhor assim; ele não suportaria viver numa cadeira de rodas.” Como uma punhalada. Melhor? Queria sim viver entrevado, se isso a mantivesse presa a ele por remorso.
O caixão foi fechado e algo dentro dele também se fechou. Amigos que ele chamara de irmãos o erguiam agora rumo ao descanso final. Sentiu o pânico crescer. Em breve, seu corpo se desfaria sob a terra, e ele vagaria, ou desapareceria, ou permaneceria condenado àquela lucidez inútil. Voltar? Nunca houvera retorno possível. Tudo o que existia ali era perda.
No cortejo, enquanto caminhavam, uma lembrança o atravessou como um raio tardio: naquela noite ele havia saído de casa, decidido. Tinha pedido o divórcio. Queria uma vida de solteiro. A esposa, desesperada, implorara; ele permanecera impassível.
Não sabia que tudo acabaria, sim, mas apenas para ele.
Virou-se para ela, ali ao lado, tão viva, tão inacessível:
“Por favor… perdoe-me.”
E então tudo se desfez. A visão, o som, o tempo.
A dor evaporou como se nunca tivesse sido.
E ele também.
