Antônio Gonçalves de Carvalho nunca iludira com promessas de fidelidade a Dionísia, embora ela fosse, inegavelmente, sua escrava preferida — aquela a quem ele dedicava mais tempo e atenção, e cuja beleza exótica o prendia. Antônio jamais admitira que qualquer outro homem sequer se aproximasse dela. Contudo, em sua volúpia desenfreada e egoísta, ele não era um homem de uma só mulher. Prostitutas das tabernas mais obscuras de Ayuruoca e outras escravas de suas terras eram comumente utilizadas para satisfazer seus mais impuros e passageiros desejos, sem qualquer laço ou complicação que pudesse manchar seu nome ou seus planos.
Mas havia algo que Antônio sempre quis evitar a todo custo: filhos. Ele não acreditava em crendices populares, tais como amuletos ou poções. Para ele, o controle de seu destino estava em suas próprias mãos, não em superstições tolas. Preferia não arriscar a possibilidade de uma prole indesejada, utilizando um método milenar para evitar concepções. Em sua mente, não havia espaço ou tempo para outra pessoa que não fosse ele mesmo, seus negócios e suas ambições. Uma criança seria um estorvo, uma amarra indesejada, um fardo a ser carregado.
Dionísia, contudo, não estava satisfeita com essa realidade cruel. As noites eram cheias de paixão e de um carinho roubado, mas as manhãs a deixavam vazia de esperança, sem um futuro. Em mais uma das inúmeras conversas que se repetiam na cama depois do sexo, ela tentava convencer o amante de ter um filho com ela. Suas súplicas eram misturadas a carícias, seus dedos percorrendo o peito dele, sua voz carregada de um desejo que Antônio não podia – ou não queria – compreender em sua profundidade.
“Antônio, meu senhor”, Dionísia sussurrava, a voz melíflua no escuro do quarto, “não vedes como seria belo? Um filho nosso… um fruto de nosso amor, um laço que nos uniria para sempre. Não mereço eu essa graça?”
Antônio, como sempre fazia, fugia da conversa, o corpo tenso sob o toque dela. “Não é o momento, Dionísia. Já conversamos sobre isso. Tenho negócios, muitas preocupações na cabeça. Não posso me dar ao luxo de mais… complicações.” Ele se virou, a voz seca. “Agora, durma. Amanhã teremos muito o que fazer.” E com isso, ele deu as costas para Dionísia, deixando-a sozinha na cama, o desejo e a frustração queimando em seu peito, transformando-se lentamente em uma determinação fria.
Secretamente, Antônio sentia um calafrio na espinha só de pensar em ter um filho com ela. Para ele, a ideia de ter um filho mestiço era uma aberração, uma mancha em seu nome e sua linhagem “pura”. Tinha nojo da ideia, um preconceito enraizado que ia muito além da simples aversão a ter mais um filho. Era uma mancha na sua reputação, uma afronta à sua visão de si mesmo.
Mas Dionísia não era mulher de aceitar qualquer coisa. A repulsa de Antônio e sua fuga constante daquele assunto a feriram profundamente, mas também acenderam uma chama de determinação em seu coração. Ela era astuta, observadora, e conhecia perfeitamente seu próprio corpo, seus ciclos. Sabia exatamente quando estava fértil, percebia os sinais de sua própria natureza feminina com uma clareza que Antônio, em sua arrogância, jamais desconfiaria.
Naquele dia fatídico, ela armou uma verdadeira arapuca para Antônio, um plano meticuloso e silencioso, tecido com a paciência da desesperança. Preparou-lhe um jantar delicioso, com seus pratos favoritos, cada tempero escolhido para agradar. Regou a refeição com muito vinho, o bastante para amortecer os sentidos do Capitão-Mor e afrouxar suas defesas.
Mais tarde, na privacidade do quarto, Dionísia vestiu sua melhor camisola de algodão fino e foi-se deitar com ele, mais sedutora e provocante do que nunca. Seus toques eram leves, seus beijos, ardentes, cada movimento calculado para despertar o desejo mais profundo em Antônio. Ele, já cheio de desejo e amortecido pelo vinho, não pôde resistir aos movimentos sensuais e deliberados da moça. Naquela noite, sem que ele soubesse, ou percebesse a intenção deliberada, Dionísia garantiu o que tanto almejava. Ela o conduziu, com maestria e uma determinação férrea, a um ponto sem retorno e sabia, em seu íntimo, que o ato havia sido completo. Naquela noite, Antônio a fecundou. Dionísia o sabia, sentia isso em cada célula de seu corpo, uma pequena vitória em sua vida de cativeiro.
Exatas quarenta luas depois, em um dia chuvoso de Janeiro de 1732, o choro de uma criança ecoava pela fazenda de Antônio em Alagoa, quebrando o silêncio e preenchendo o ar com uma nova realidade. Nascia Teodora, uma linda menina de olhos negros, tão profundos quanto a noite, e a pele morena clara, testemunho inegável da mistura de sangues. Antônio, confrontado com a realidade de sua paternidade indesejada e o “engano” de Dionísia, sentiu um misto de fúria contida e resignação, enquanto Dionísia, apesar das dores do parto, sorria em meio às lágrimas, sabendo que, finalmente, tinha um elo inquebrável com o homem que amava e, de certa forma, detestava.
