A alforria chegou num papel dobrado em quatro, com um selo e a data de outubro de 1877. Thomas segurou o documento com as duas mãos, como quem segura algo que pode voar. Paulina ficou em pé ao lado dele, quieta. Ela não precisava ler. Via na testa do marido a contração de quem está tentando entender se aquilo é real.
Eram livres. Os dois. O papel dizia.
Mas Elena não estava ali para ouvir. Elena tinha onze anos quando foi levada (vendida junto com dívidas que não eram dela) para uma fazenda em Bananal que Paulina só conhecia de nome e de distância. A criança havia saído numa manhã de terça-feira, num carro de boi que virou a estrada e desapareceu como se o chão a tivesse engolido. Paulina ficara no meio da estrada com as mãos abertas, sem nada para segurar.
Dez anos depois, com a alforria nas mãos, a primeira coisa que fizeram foi perguntar. Perguntaram a quem sabia, a quem tinha passado por aquelas bandas, a quem conhecia nomes e fazendas e tropeiros que desciam a serra. Levou meses. Mas encontraram: Bananal, Fazenda do Resgate, um proprietário que respondia pelo nome de Araújo. Elena estava lá. Estava viva.
Escolheram Barra Mansa por causa da estrada de ferro. A linha do Centro do Brasil passava pela cidade, um ramal ligava Bananal à cidade. Quando Elena fosse livre, poderia vir de trem. Poderia descer na estação, e Paulina estaria lá.
A casa era na Rua da Misericórdia. Comprida, estreita, com um terreno que descia até o rio Paraíba do Sul. Thomas trabalhou no alicerce com as próprias mãos, como se construir devagar fosse uma forma de rezar. Nos fundos, Paulina plantou uma horta e depois um jardim. Não por necessidade, mas porque queria ter algo bonito para mostrar à filha quando ela chegasse.
Falavam de Elena à noite, depois do jantar. Calculavam a idade, devia ter vinte e um, vinte e dois anos agora. Imaginavam como estaria. Thomas dizia que ia reconhecê-la pelos olhos, que eram os olhos da mãe. Paulina não respondia a isso. Ficava olhando a chama da vela e pensava que não sabia mais como eram os olhos da filha. Tinha guardado uma imagem de menina, e menina ela já não era.
Os anos foram passando com a paciência de quem não tem alternativa. A escravidão continuava. Elena continuava em Bananal. A casa na Rua da Misericórdia continuava esperando.
Thomas morreu em março de 1887, um ano e dois meses antes da Abolição.
Morreu de febre, num espaço de doze dias. Rápido demais para que Paulina pudesse se preparar, devagar demais para que ela não soubesse o que estava acontecendo. Na última noite, ele quis que ela ficasse acordada com ele. Ficaram os dois sentados na cama, com a janela aberta para o calor de março, ouvindo o rio lá nos fundos.
— Você vai ver ela — disse Thomas. Não era pergunta.
Paulina não respondeu. Segurou a mão dele até ele adormecer, e depois até ele parar de respirar, e depois ainda por um tempo que ela não soube medir.
Enterrou-o no cemitério municipal. Mandou colocar na lápide o nome completo: Thomas Barbosa. Livre. E a data, para que ninguém pudesse dizer que ele não havia existido.
Depois voltou para a Rua da Misericórdia e continuou esperando. Era a única coisa que ele havia pedido.
Em 13 de maio de 1888, a escravidão foi abolida no Brasil.
Paulina soube pelos foguetes. Estava na cozinha quando o primeiro estourou, e depois vieram outros, e depois vozes na rua, e ela foi até a janela e ficou olhando a Rua da Misericórdia como se esperasse ver a filha dobrar a esquina a qualquer momento.
Naquela tarde, foi à estação de trem pela primeira vez com esse propósito. Sentou num banco de madeira da plataforma e esperou o trem da tarde. Depois o da noite. Elena não estava em nenhum deles.
Voltou no dia seguinte. E no seguinte. Aprendeu os horários de cor; o trem das sete, o das onze, o das três da tarde, o das seis. Aprendeu também as faces dos maquinistas, dos carregadores, dos passageiros que desciam toda semana. Tornou-se uma presença tão constante na plataforma que os funcionários a cumprimentavam pelo nome.
Paulina continuou indo à estação. Com que frequência, por quanto tempo isso também se perdeu. O que restou foi a carta que ditou em maio de 1888, cinco dias depois da Abolição, para um rapaz chamado Tonico que sabia escrever. Uma carta que nunca encontrou destinatário, que sobreviveu por acaso, que hoje está guardada num arquivo e que diz, com a contenção de quem já chorou tudo que havia para chorar:
“Minha filha, faz hoje 5 dias que estou esperando você, pois no dia 13 ficaram todas as escravizadas livres e você me disse que logo que isso acontecesse viria, e até agora estou esperando. Que vou rezar uma missa pela alma de seu pai, mas quero que você esteja cá.”
Há uma frase na carta que não é de lamento. É quase administrativa, quase prática: “Se não puderes vir já, manda me dizer.” Como se Elena pudesse simplesmente mandar dizer. Como se houvesse um correio que alcançasse os lugares para onde a escravidão levava as pessoas.
Mas Paulina sabia de correios e de distâncias melhor do que qualquer um. Sabia que as palavras às vezes chegam e às vezes não chegam, e que isso não é razão para deixar de escrever. Ela havia esperado onze anos na Rua da Misericórdia. Havia construído uma casa com jardim nos fundos. Havia enterrado o marido sem ver a filha ao lado.
Às vezes alguém perguntava quem ela esperava.
— Minha filha — ela respondia. E não explicava mais nada, porque não havia mais nada que precisasse ser explicado.
Esperou mais. E o silêncio que veio de Bananal era do mesmo tipo de silêncio que a escravidão sempre usou: não o silêncio de quem não tem nada a dizer, mas o silêncio de quem foi impedido de falar.
Elena nunca apareceu.
O que aconteceu com ela (se morreu no cativeiro, se partiu para outro lugar) é uma das perguntas que o Brasil engoliu junto com os nomes de todos os que a escravidão apagou. Não há resposta. Nunca houve.
O jardim na Rua da Misericórdia continuou crescendo. O trem continuou chegando. Paulina continuou lá ou por quanto tempo pôde, ou por quanto tempo acreditou, que às vezes é a mesma coisa.
