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Capítulo 13 – A Fazenda às Margens do Paraíba

Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 18 de dezembro de 1939 – 22h00

Friedrich Adler estava em seu escritório no subsolo quando Klaus Schneider entrou apressado, envelope lacrado na mão. A guerra já durara três meses. Polônia conquistada em semanas. Europa dividida entre Hitler e Stalin. Mas no Brasil, a vida seguia. E a espionagem também.

– De Petrópolis – disse Klaus, entregando o envelope. – Nosso homem no Palácio Rio Negro. Adler abriu, leu rapidamente. Seu rosto não demonstrou emoção, mas seus olhos brilharam. Informação valiosa.

15 de dezembro de 1939. Palácio Rio Negro. Reunião privada. Presentes: Presidente Getúlio Vargas, Ernani do Amaral Peixoto (interventor Estado do Rio), e civil não identificado, cerca de 32 anos, bem-vestido, porte aristocrático. Conversaram por duas horas. Mapas foram abertos. Apontaram para região específica. Motorista do desconhecido identificou-o ao sair: Sávio Cotta de Almeida Gama, empresário carioca, proprietário da Fazenda Retiro em Volta Redonda.

Adler releu três vezes. Depois pegou lápis, sublinhando: Sávio Cotta de Almeida Gama. Volta Redonda.

– Quem é? – perguntou Klaus.

– Não sei – admitiu Adler. – Mas vou descobrir.

Ele abriu arquivo metálico, procurou pasta marcada “Vale do Paraíba – Indústrias e Pessoas de Interesse”. Folheou. Nada sobre Sávio Gama. Nenhuma menção anterior. O homem não estava no radar.

– Isso é problema – murmurou Adler. – Vargas não se reúne com empresários obscuros por duas horas a menos que haja razão importante.

– Siderúrgica? – sugeriu Klaus.

– Possível. Provável. Volta Redonda está na região que identificamos como favorita. É parte de Barra Mansa. E se Gama é proprietário local com terras estratégicas…

Ele não terminou a frase. Não precisava.

– Preciso saber tudo sobre ele – ordenou Adler. – Família. Fortuna. Propriedades. Conexões políticas. Amizades. Inimigos. Tudo. Ontem.

Klaus assentiu, saiu apressado.

Adler ficou sozinho, estudando o relatório. Sávio Gama. Volta Redonda. Dois nomes que não significavam nada três dias atrás. E agora, potencialmente, significavam tudo.

Barra Mansa, estrada para Volta Redonda, 10 de março de 1940 – 06h30

Hans Albrecht Krueger – agora Oswaldo Richter permanentemente, até nos sonhos – estava estacionado em Ford preto discreto, um quilômetro após a entrada da Fazenda Retiro. Ao seu lado, Werner Müller, agente secundário da Abwehr, alemão que fingia ser brasileiro descendente, fotógrafo amador com câmera Leica pendurada no pescoço.

Adler ordenara vigilância. Informante em Petrópolis reportara: Vargas visitaria Volta Redonda em março. Reunião secreta. Sem imprensa. Sem cerimonial oficial. Apenas Vargas, Góis Monteiro, Macedo Soares, Amaral Peixoto e Sávio Gama.

Hans e Werner aguardavam há três horas. Às 10h00, três carros pretos – Ford V8, oficiais – subiram pela estrada de terra em direção à Fazenda Retiro. Dentro, perfis inconfundíveis. Vargas no primeiro carro.

– É ele – disse Werner, ajustando a câmera.

– Não tire fotos ainda – ordenou Hans. – Espere.

Os carros entraram na propriedade. O portão se fechou. Hans aguardou dez minutos, depois dirigiu cuidadosamente até um ponto mais próximo com visão da casa-grande. Estacionou atrás de árvores, saiu, caminhou por trilha de gado até uma elevação que permitia vista parcial.

Da varanda traseira da casa-grande, cinco homens observavam o Rio Paraíba do Sul. Mesmo à distância – cerca de trezentos metros –, Hans reconheceu Vargas: baixo, atarracado. Ao lado, Góis Monteiro (uniforme militar), Macedo Soares (também militar), Amaral Peixoto (terno claro), e homem que só poderia ser Sávio Gama (proprietário, postura confiante, braço estendido apontando para a margem oposta do rio).

Hans puxou binóculos do casaco. Ajustou foco. Viu Gama falando, gesticulando. Vargas ouvia, impassível. Góis Monteiro estudava a paisagem com olhos de estrategista militar. Macedo Soares tomava notas em caderneta.

E todos olhavam para a mesma direção: margem direita do Paraíba do Sul. Terras planas. Várzea ampla. Espaço para construção em grande escala. Hans sentiu arrepio. Não de frio. De certeza.

Ali. A siderúrgica será construída ali.

Tentou ler lábios. Impossível pela distância. Werner tirou fotografias discretas com teleobjetiva. Clique. Clique. Clique. A reunião durou quase uma hora. Depois, os homens voltaram para dentro da casa. Almoço, presumivelmente. Hans e Werner esperaram mais duas horas. Quando os carros oficiais saíram, já passava das 14h00.

Hans voltou para o Ford, dirigiu até Barra Mansa, depois pegou o trem para São Paulo e depois, Santos. Durante toda viagem, ficou em silêncio. Processando. Calculando.

Volta Redonda. Margem direita do Paraíba. Fazenda de Sávio Gama como ponto de observação. Vargas não faria aquela viagem – secreta, pessoal – se não fosse decisivo.

A localização estava escolhida. Faltava apenas oficializar.

Rio de Janeiro, escritório de advocacia, Avenida Rio Branco, 15 de abril de 1940 – 19h00

Henrique Costa tinha cinquenta e dois anos, escritório modesto no décimo andar de edifício comercial, clientela estável, mas não espetacular. Advogava há vinte e cinco anos. Conhecia as regras. E sabia quando quebrá-las.

Friedrich Adler entrara sem marcar consulta. A secretária tentara impedir, mas Adler simplesmente entregara cartão de visita – Gabriel Mendes, Consultor Comercial – e disse: “Assunto urgente e lucrativo. Cinco minutos.”

Henrique, curioso, aceitou. Agora, os dois homens sentavam-se em cadeiras de couro gasto, separados por mesa de mogno com pilhas de processos. Adler foi direto ao ponto.

– Senhor Costa, sei que representa Sávio Cotta de Almeida Gama. Sei que o acompanhou em reunião com presidente Vargas em dezembro passado no Palácio Rio Negro. E sei que houve segunda reunião, em março, na Fazenda Retiro.

Henrique empalideceu.

– Não sei do que está falando.

– Claro que sabe – disse Adler, calmamente. Colocou envelope grosso sobre a mesa. – Dez mil cruzeiros. Agora. Mais dez mil em junho. Apenas por informação.

Henrique olhou para o envelope. Depois para Adler. Depois novamente para o envelope. Dez mil cruzeiros era mais que ganhava em seis meses.

– Que tipo de informação?

– Simples. O que Gama e Vargas discutiram. Qual decisão foi tomada sobre a localização. E qual o estado das negociações de financiamento.

Silêncio pesado. Henrique transpirava. Não de calor. De medo e ganância lutando dentro dele.

– Isso é… traição?

– Isso – corrigiu Adler – é negócio. Informação comercial. Nada mais. E você, advogado experiente, sabe o valor da informação.

Henrique pegou o envelope. Abriu. Contou rapidamente. Dez mil em notas de cem. Limpas. Reais.

– Não posso dar detalhes específicos – disse ele, guardando o envelope na gaveta trancada. – Sigilo profissional.

– Mas pode confirmar o que já sabemos – sugeriu Adler. – Simplesmente confirmar.

Henrique hesitou. Depois assentiu, fracamente.

– Pergunte.

– Vargas decidiu construir a siderúrgica?

– Sim.

– A decisão pela construção está tomada?

– Sim.

– Em breve?

– Provavelmente janeiro de 1941.

– Volta Redonda, distrito de Barra Mansa?

Pausa longa.

– Isso já está decidido.

Adler não demonstrou emoção. Mas internamente, celebrava.

– Fazenda Santa Cecília, margem direita do Paraíba.?

– Propriedade de Nelson Marcondes Godoy. Duzentos e onze hectares. Gama facilitou contato. Governo estadual já está negociando compra das terras.

– E o financiamento? Alemão ou americano?

Henrique bebeu gole de água antes de responder.

– Ainda não está decidido. As negociações continuam com ambos. Mas…

Ele hesitou.

– Mas?

– Mas a balança pende para os americanos. Razões práticas. O bloqueio naval britânico torna qualquer acordo com a Alemanha… complicado. Como transportar equipamentos alemães para o Brasil com a Marinha Real patrulhando o Atlântico? E há pressão política americana crescente. Eles não querem perder o Brasil.

– Então Vargas vai escolher os americanos?

– Provavelmente – admitiu Henrique. – Mas Vargas está jogando até o último momento. Quer arrancar o máximo possível de ambos os lados. A decisão final pode demorar meses. Talvez só no segundo semestre do ano.

– Cronograma de construção?

– Se o financiamento for aprovado – Vargas espera resposta definitiva até setembro –  talvez outubro.

Adler levantou-se.

– Obrigado, doutor Costa. Foi muito útil. Os próximos dez mil virão em junho. Correio discreto. Sem contato pessoal. Entendido?

Henrique assentiu, suando.

Quando Adler saiu, o advogado trancou a porta, fechou cortinas, sentou-se pesadamente. Olhou para a gaveta onde o envelope estava escondido. Dez mil cruzeiros. Fortuna. Mas comprada com traição.

Ele bebeu copo inteiro de uísque. Não ajudou. A culpa permaneceu. E com ela, certeza: aquela seria a primeira de muitas traições. Porque quando se vende informação uma vez, vende-se para sempre.

Santos, escritório de Oswaldo Richter, 20 de abril de 1940 – 23h00

Hans datilografava relatório completo para Berlim. Dez páginas. Detalhado. Preciso.

 

ASSUNTO: Usina Siderúrgica Brasileira – Confirmação de Localização e Status Negociações

DECISÃO DE CONSTRUÇÃO: Confirmada. Presidente Vargas ordenou construção de usina estatal.

LOCALIZAÇÃO: Volta Redonda, distrito de Barra Mansa, Estado do Rio de Janeiro. DECISÃO FINAL.

TERRENO ESPECÍFICO: Fazenda Santa Cecília, 211 hectares, margem direita Rio Paraíba do Sul. Governo estadual negociando compra.

FIGURA-CHAVE: Sávio Cotta de Almeida Gama, empresário, contatos políticos e pessoais com Vargas. Facilitou escolha localização.

FINANCIAMENTO: AINDA NÃO DECIDIDO. Negociações continuam com Alemanha e EUA. Análise:

a) Oferta alemã: Financiamento total via Krupp. Tecnologia superior. MAS: Bloqueio naval britânico torna entrega de equipamentos problemática. Transporte marítimo arriscado.

b) Oferta americana: Export-Import Bank. Financiamento em discussão. Tecnologia adequada. Vantagem logística: rotas marítimas controladas por Aliados. Pressão política americana crescente.

c) CONCLUSÃO: Vargas tende aos americanos por razões práticas (logística, segurança transporte) e estratégicas (pressão EUA). Mas decisão final ainda não tomada. Estimativa: setembro-outubro 1940.

CRONOGRAMA (condicional ao financiamento): – Decisão financiamento: set/out 1940 – Criação da estatal: 1941 – Conclusão das obras: 1945/1946

IMPLICAÇÕES PARA REICH: – Oferta alemã provavelmente será rejeitada por impossibilidade logística (bloqueio naval) – Brasil alinhando-se economicamente com EUA – Recomendação: Preparar plano de contingência. Se Brasil aceitar financiamento americano, única opção será espionagem e possível sabotagem futura

RECOMENDAÇÃO OPERACIONAL: Preparar agente para infiltração profunda. Engenheiro civil ou metalúrgico. Contratação durante fase construção (1941). Sugiro Hans Krueger (Oswaldo Richter) para missão. Infiltração de longo prazo (3-5 anos). Objetivo: obter informações técnicas, identificar vulnerabilidades estruturais, preparar possível sabotagem caso Brasil entre em guerra contra Reich.

Hans parou de datilografar. Releu o último parágrafo. Sugiro Hans Krueger. Ele se oferecera. Voluntariamente. Porque sabia: se não fosse ele, seria outro. E ele estava ali. Preparado. Fluente em português. Com cobertura sólida. Identificação perfeita.

E porque, secretamente, queria. Queria fazer algo importante. Algo que importasse. Algo que apagasse Greta de sua memória. Algo que o redimisse.

Infiltrar-se na maior obra industrial do Brasil. Espionar de dentro. Reportar segredos metalúrgicos, capacidade produtiva, vulnerabilidades. Seria missão perigosa. Mas seria missão com propósito. Ele assinou o relatório: Oswaldo Richter. Santos, 20 de abril de 1940.

Depois, colocou em envelope lacrado, endereçou para caixa postal em Buenos Aires (estação de retransmissão da Abwehr), e guardou no cofre. Enviaria amanhã via correio diplomático.

Quando terminou, já passava da meia-noite. Hans serviu-se de schnapps, sentou-se junto à janela aberta. Lá fora, o porto de Santos dormia. Navios ancorados balançavam suavemente. Lua refletia no mar.

Hans pensou em Volta Redonda. Distrito obscuro que se tornaria distrito industrial. Fazenda que se tornaria usina. Rio que se tornaria fronteira entre passado e futuro.

E pensou: A Alemanha provavelmente perderá esta batalha. O bloqueio naval torna nossa oferta inexequível. Os americanos vencerão. E eu… Eu estarei lá. Não importa quem financie. Estarei dentro da usina. Observando. Reportando. Até o fim. Sempre até o fim.

Ele bebeu o schnapps em um gole. Queimou. Sempre queimava. Mas nunca o suficiente.

Rio de Janeiro, Embaixada Alemã, 5 de maio de 1940 – 10h00

Adler atualizou o mapa do Brasil. Alfinete vermelho em Volta Redonda. Círculo grosso em Barra Mansa. Anotações: Siderúrgica Estatal – Construção 1941. Infiltração necessária.

Ao seu lado, embaixador Kurt Prüfer estudava cópia do relatório de Hans.

– Excelente trabalho – disse Prüfer. – Informação antecipada nos dá vantagem. Mesmo que americanos financiem, podemos sabotar. Ou no mínimo, atrasar.

– Sabotar como?

– Através de agente infiltrado. Hans Krueger assumirá nova identidade. Engenheiro civil ou metalúrgico brasileiro. Contratado durante construção. Trabalhará de dentro.

– Arriscado – observou Adler.

– Mas necessário. A guerra mudou tudo. A França caiu. A Inglaterra resiste sozinha. A América ainda neutra mas inclinando-se para Aliados. O Brasil é peça estratégica. Se conseguirmos informações sobre capacidade produtiva da usina, vulnerabilidades estruturais, podemos usar depois. Quando o Brasil entrar na guerra. E entrará. Eventualmente.

Adler assentiu. Sabia que Prüfer estava certo. A guerra não seria curta. Seria longa. E Brasil, com seu minério, sua posição geográfica, seria importante. Muito importante.

– Quando Hans deve estar pronto? – perguntou ele.

– Até meados de 1941. Quando construção começar. Nova identidade. Documentação perfeita. História sólida. Será missão de longo prazo. Anos, talvez. Hans precisa entender: não há retorno rápido. Uma vez infiltrado, fica até guerra terminar. Ou até ser descoberto.

– Ele entende – disse Adler. – Hans Krueger não tem nada a perder. Greta certificou-se disso.

Prüfer não perguntou quem era Greta. Não importava. Homens quebrados eram os melhores espiões. Porque homens quebrados aceitavam missões suicidas. E infiltração profunda em usina vigiada por DOPS e pelas FAA em país que eventualmente entraria em guerra contra Alemanha era, sem dúvida, missão suicida. Mas Hans Krueger aceitaria. Porque não tinha escolha. Nunca tivera.

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