Você já teve aquela amizade em que um simples olhar carrega um parágrafo inteiro?
Uma piscadela discreta, uma sobrancelha que sobe meio milímetro, e pronto: você e o outro já sabem exatamente o que está acontecendo, como se partilhassem um idioma secreto. Esse tipo de intimidade costuma render situações tão engraçadas quanto constrangedoras.
Pense numa cena comum: você e seu amigo estão numa loja, a vendedora surge triunfante com uma peça de roupa realmente cafona, cafona mesmo, daquelas que parecem ter escapado ilesas de um brechó dos anos oitenta. Antes que qualquer palavra seja dita, vocês se entreolham: o sorriso amarelo dele encontra o seu, e ambos já entenderam tudo. A vendedora, claro, percebe. E é aí que nasce o constrangimento, um constrangimento inocente, mas inevitável.
Agora, quando a sua melhor amiga é justamente a sua esposa, esse tipo de situação ganha uma dimensão quase sobrenatural. A cumplicidade conjugal, alimentada diariamente pelos bastidores da vida, as conversas íntimas, a criação dos filhos, os segredos compartilhados, a rotina doméstica, faz com que tudo esteja mais exposto, mais à flor da pele. E, por vezes, mais difícil de esconder.
Lembro-me de um episódio emblemático. Estávamos numa festa de aniversário quando um amigo, divorciado, aproximou-se para nos apresentar sua nova namorada. Ele, ainda que não fosse alguém de hábitos intelectuais, sempre preservara um certo ar distinto. Ela, ao contrário, parecia cultivar com entusiasmo um estilo decididamente vulgar, na roupa chamativa, nos gestos expansivos, nas palavras que pareciam tropeçar uma nas outras.
Não foi preciso mais que um segundo. Troquei um olhar com minha esposa e, naquele instante microscópico, ambos reconhecemos a mesma sensação: a inadequação gritante daquele casal inesperado. Era tragicômico. Tão tragicômico que minha irmã, percebendo o risco iminente de uma gargalhada involuntária, afastou-se às pressas para não entregar o jogo.
Momentos assim nos colocam em pequenas enrascadas sociais, é verdade. Mas também revelam um traço precioso do nosso casamento: essa espécie de ressonância de pensamentos, um reflexo mútuo que acontece sem esforço, quase como um superpoder doméstico.
E, apesar dos apuros ocasionais, eu não o trocaria por nada. Afinal, suspeito que essa sintonia silenciosa seja uma das marcas mais nítidas, e mais belas, de um casamento feliz.
