Este texto será publicado muito tempo depois de ter sido escrito. Ele nasceu logo após meu retorno da missa da Sagrada Família, celebrada no domingo seguinte ao Natal do Senhor, ainda no interior da oitava natalina. A liturgia da Igreja, como sabemos, é cíclica: retorna, ano após ano, aos mesmos textos bíblicos, símbolos e gestos. O que muda não é a liturgia, mas as condições históricas, culturais e existenciais da humanidade que a celebra. É justamente essa tensão entre permanência e mudança que permite novas hermenêuticas de uma mesma Palavra proclamada há séculos. Gosto de pensar que é nesse sentido que a Escritura afirma: “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e eternamente” (Hb 13,8).
O que frequentemente me inquieta, porém, não é o texto bíblico em si, mas a forma como ele é lido. Em especial, a leitura apressada ou fragmentada que às vezes se faz de passagens particularmente sensíveis à mentalidade contemporânea; leitura que, infelizmente, pode aparecer inclusive na homilia.
A liturgia da Sagrada Família apresenta um desses textos delicados. Em Colossenses 3,18, lemos: “Esposas, sede solícitas para com vossos maridos, como convém, no Senhor.” Algumas traduções utilizam o termo “submissas”, o que causa natural estranhamento a muitas mulheres de hoje. São Paulo retoma o tema de modo mais extenso em Efésios 5,22–24: “As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador.”
Esses versículos costumam provocar reações opostas, mas igualmente insuficientes. Para alguns, trata-se de um texto irremediavelmente machista e patriarcal, incompatível com a dignidade e a liberdade da mulher, devendo ser relativizado ou descartado. Para outros, ele é tomado como simples legitimação de uma hierarquia rígida no casamento, onde a autoridade masculina se exerce como domínio. Ambas as leituras falham, ainda que por motivos distintos.
O equívoco central está em isolar o versículo da esposa e ignorar a continuidade do texto. Em Colossenses, lemos logo a seguir: “Maridos, amai vossas esposas e não sejais duros com elas” (Cl 3,19). Em Efésios, a exigência dirigida ao marido é ainda mais radical: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela […]. Assim os maridos devem amar as suas mulheres como a seu próprio corpo” (Ef 5,25–28).
Quando o texto é lido em sua totalidade, torna-se claro que São Paulo não está descrevendo uma relação de dominação, mas uma estrutura de serviço recíproco, inspirada diretamente no mistério de Cristo e da Igreja. A diferença de funções não nasce de uma hierarquia de valor, mas de uma antropologia relacional: homem e mulher são iguais em dignidade, mas não idênticos em modo de ser e de se doar. Essa diferença, longe de justificar privilégios, fundamenta responsabilidades distintas, ambas exigentes.
No centro da analogia paulina não está o poder, mas o sacrifício. A esposa é chamada a uma disposição de entrega semelhante à da Igreja diante de Cristo; o marido, por sua vez, é chamado a um amor oblativo, disposto a dar a própria vida, à semelhança do Cristo crucificado. À luz disso, vale a pergunta: qual é o maior sacrifício? Ser submisso, como a Igreja é submissa a Cristo, ou entregar a própria vida, como Cristo se entregou por ela? A resposta é evidente e desconfortável.
No cristianismo, e também no matrimônio cristão, a grandeza não se mede pelo lugar que se ocupa, mas pela medida com que se ama e se serve. “Quem quiser ser o maior, seja aquele que serve.” Essa lógica atravessa todo o Evangelho e impede que qualquer um dos cônjuges transforme sua vocação em instrumento de cobrança ou dominação.
O que se torna incoerente, e pastoralmente destrutivo, é quando alguém exige do outro o cumprimento de um papel que ele próprio se recusa a viver. Essa dinâmica, somada a tantos outros fatores culturais, emocionais e espirituais, tem contribuído para o enfraquecimento de muitos casamentos, inclusive daqueles que, à primeira vista, pareciam sólidos.
Talvez o desafio maior de nosso tempo não seja rejeitar os textos difíceis da Escritura, mas permitir que eles nos julguem por inteiro e não apenas o outro.

1 Comentário
Luciana
Que bela reflexão e muito pertinente! Esse trecho das escrituras sempre me comoveu e ainda comove, porque casamento é exatamente isso: submissão, doação e amor incondicional. E nada disso é pesado quando o casamento é a três: marido, esposa e Jesus Cristo! Saber que temos um homem que está ali para nos amar, guiar e amparar é reconfortante! E que mulher não ama quem cuida, provê e protege? Mas, como vc mesmo diz no texto acima, há muito equívoco e deturpação nas interpretações deste texto sagrado… uma lástima! E, graças ao mundo bizarro em que vivemos, as feministas e os homens mimizentos de hoje… Bom, nem é preciso falar o que pensam, né?